A Vida Paralela Dele
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Capítulo 2

O caminho de volta para casa foi um borrão. Eu não sei como não bati o carro. Cada semáforo, cada esquina, trazia a imagem daquela cena de volta: Ricardo, com a camiseta suja de carvão, a menina agarrada em suas pernas, e Sofia, grávida, olhando para mim com uma mistura de medo e desafio.

Quando entrei no nosso apartamento, o silêncio me atingiu como um soco. Era a nossa casa. Ou pelo menos, eu achava que era. Tudo parecia uma mentira. O porta-retrato na mesinha de centro, com uma foto nossa do casamento, sorrindo como dois idiotas. A caneca dele na cozinha, com o emblema da companhia aérea. Cada objeto era uma testemunha silenciosa da farsa que era a minha vida.

Fui até o nosso quarto, o closet que dividíamos. Abri a gaveta dele, a que ele guardava "documentos de viagem". Remexi tudo, com uma fúria que eu não sabia que possuía. E então eu encontrei. Uma pequena pasta azul. Dentro, não havia passaportes ou vistos. Havia uma certidão de nascimento. Laura Mendes. Nascida há cinco anos. Nome da mãe: Sofia Mendes. Nome do pai: Ricardo Almeida. O mesmo sobrenome dele. Ele a registrou.

Meu corpo inteiro tremia. Não era um caso. Não era um erro. Era uma família. Uma família planejada e oficializada pelas costas da esposa. Vasculhei mais fundo e achei um recibo de uma joalheria. Um anel de noivado. Comprado há seis anos, um ano antes do nosso casamento. Ele a pediu em casamento antes de me pedir. Eu era a outra. Eu era a amante oficializada com um papel.

A dor se transformou em uma raiva cega. Peguei a primeira coisa que vi, um vaso de cristal que ele me deu no nosso aniversário.

"Você disse que era da sua avó!", eu gritei para o vazio.

Arremessei o vaso contra a parede. Ele se estilhaçou em mil pedaços, assim como a minha vida. O som ecoou pelo apartamento silencioso. Eu caí de joelhos no chão, no meio dos cacos, e chorei. Chorei por minha ingenuidade, por cada "eu te amo" que acreditei, por cada noite que passei sozinha esperando por ele. Soluçava tão alto que minha garganta doía, um som animal de pura agonia.

Foi nesse estado que ele me encontrou. Ouvi a chave na porta. Meu corpo congelou. Ele entrou, ainda com a mesma roupa, o rosto pálido e os olhos arregalados de quem foi pego. Ele viu os cacos de vidro, me viu no chão. A primeira coisa que ele fez não foi me perguntar se eu estava bem. Foi tentar mentir.

"Maria, calma. Eu posso explicar. Não é o que você está pensando."

Levantei a cabeça, o rosto molhado de lágrimas, mas os olhos queimando de ódio.

"Não é o que eu estou pensando?", minha voz saiu rouca, quase um sussurro. "Eu vi, Ricardo. Eu vi sua outra casa. Sua outra mulher. Sua filha."

Ele se aproximou lentamente, com as mãos levantadas, como se estivesse tentando acalmar um animal selvagem.

"Deixa eu limpar isso, você vai se machucar."

"Fique longe de mim!", eu gritei, me arrastando para trás, para longe dele. Levantei-me, trêmula, e apontei para a pasta azul jogada na cama. "Você a registrou, Ricardo. Você deu seu nome a ela. Que parte disso não é o que eu estou pensando?"

Ele olhou para a pasta e seu rosto caiu. A máscara de calma se quebrou. Ele não tinha mais como negar. Ele apenas ficou lá, parado, o silêncio dele era a confissão mais alta e clara que eu poderia ouvir.

"Há quanto tempo, Ricardo?", perguntei, a voz carregada de um veneno que eu não sabia que possuía. "Há quanto tempo você me faz de idiota?"

Ele não respondeu. Apenas me olhava com aqueles olhos que um dia eu amei, agora cheios de culpa e covardia.

"Você me prometeu um futuro! Você me prometeu uma família! Enquanto isso, você já tinha uma! Você me usou! Usou meu amor, meu dinheiro, minha vida, para bancar sua farsa!"

"Maria, por favor..."

"Não diga meu nome! Você não tem esse direito. Nunca mais."

A raiva me deu uma força que eu não sabia que tinha. Eu olhei para o homem na minha frente e não vi o marido que eu amava. Vi um estranho. Um mentiroso. Um monstro. E naquele momento, em meio aos destroços do nosso casamento, eu soube que a dor era só o começo. A guerra estava apenas começando.

            
            

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