Levantei-me e fui ao escritório. Voltei com uma pequena caixa de presente elegantemente embrulhada. Eu a havia preparado na semana passada.
"Eu também tenho algo para você", eu disse, colocando-a em suas mãos.
"Mas quero que você espere. Não abra até depois de amanhã."
Minha fuga estava marcada para amanhã. Quando ele abrisse, eu já estaria longe.
Dentro da caixa estavam minha aliança de casamento e a chave da nossa casa. Uma mensagem clara e simples. Adeus.
"O que é?", ele perguntou, balançando a caixa com curiosidade.
"Algo para se lembrar de mim", eu disse com um sorriso pequeno e enigmático. "Uma lembrança dos últimos dez anos."
Ele sorriu, sua culpa obviamente aliviada pela troca de presentes. Ele pensou que tínhamos voltado ao normal.
"Mal posso esperar", disse ele, colocando a caixa cuidadosamente sobre a mesa. "Vou abrir logo de manhã, depois de amanhã."
Nesse momento, a campainha tocou. Uma série de toques agudos e frenéticos.
O rosto de Davi se nublou de irritação. Ele foi até a porta e eu o ouvi ofegar.
Kátia Moraes estava na nossa porta, o rosto manchado de lágrimas.
A expressão de Davi mudou de irritação para pânico puro. Ele rapidamente a puxou para fora, para o jardim da frente, tentando mantê-la fora da minha vista.
"Já volto, Alana", ele gritou, a voz tensa. "É só uma vizinha com um problema."
Caminhei calmamente até a janela da sala, que dava para o jardim. Observei enquanto Kátia se jogava nos braços de Davi, soluçando.
Ele a afastou, o rosto uma máscara de raiva e medo.
"O que diabos você está fazendo aqui?", ele sibilou, a voz baixa, mas afiada. "Eu disse para você nunca vir à minha casa!"
Kátia não pareceu se importar. Ela chorou mais forte, estendendo um pedaço de papel. Um laudo médico.
"Davi", ela lamentou, sua voz ecoando pelo gramado perfeitamente aparado. "Estou grávida."
Suas palavras me atingiram com a força de um soco. Eu congelei, minha mão agarrando o parapeito da janela. Eu não conseguia respirar.
Grávida.
"Fui ao médico esta manhã", ela soluçou. "Estava me sentindo mal. Ele disse... ele disse que o bebê pode não ser saudável por causa de todo o estresse."
Grávida. A palavra ecoou no silêncio repentino da minha mente.
Lembrei-me de todas as vezes que Davi e eu conversamos sobre ter filhos. Ele sempre dizia que não estava pronto. Queria se concentrar na empresa, em construir nosso futuro. Outra mentira. Ele não estava pronto para ter um filho comigo.
Pela janela, vi o choque de Davi se dissipar, substituído por outra coisa. Um brilho de... alegria.
Ele pegou o papel da mão dela, seus olhos o percorrendo rapidamente.
"De quanto tempo?", ele perguntou, a voz subitamente urgente.
"Seis semanas", ela sussurrou.
Ele olhou para ela, depois para a barriga dela. Um sorriso lento se espalhou por seu rosto. Ele ia ser pai.
"Nós vamos proteger este bebê", disse ele, a voz cheia de uma determinação feroz que eu não ouvia há anos. "Eu vou cuidar de tudo."
As lágrimas de Kátia pararam. Ela olhou para ele, os olhos brilhando de triunfo. Ela jogou os braços em volta do pescoço dele e o beijou.
Por um momento, ele respondeu, beijando-a de volta com uma paixão que me revirou o estômago. Então ele pareceu se lembrar de onde estava. Ele a afastou gentilmente.
"Você precisa ir agora", ele sussurrou. "Eu te ligo. Vamos resolver isso."
Afastei-me da janela e voltei para a mesa de jantar. Sentei-me e peguei minha xícara de café, minhas mãos perfeitamente firmes.
Eu estava feliz. De uma forma estranha e distorcida, eu estava feliz. Feliz por nunca termos tido um filho. Isso tornava minha fuga mais limpa, mais simples. Significava que não havia mais nada que me prendesse a este homem.
Davi voltou para dentro, o rosto uma máscara cuidadosamente construída de desculpas.
"Desculpe por isso", disse ele, forçando um tom casual. "Apenas uma pequena crise. Escute, surgiu uma coisa. Tenho que voar para o escritório de Singapura por alguns dias."
Outra mentira. Ele ia cuidar de Kátia.
"Vou te trazer algo legal", ele prometeu.
Eu apenas assenti. "Ok."
Ele pareceu aliviado com minha falta de perguntas. Ele me deu um beijo rápido na testa, pegou sua pasta e saiu.
Observei o carro dele sair da garagem. Observei até desaparecer na rua.
Esta é a última vez, pensei. A última vez que vou te ver sair desta casa.