As vinte e quatro horas seguintes foram um borrão de trabalho silencioso e metódico. Assim que Davi saiu, recebi uma mensagem de texto. Era de um número desconhecido.
"Estou grávida. É do Davi. Ele me ama, não você."
Anexada estava uma foto do ultrassom. Uma imagem minúscula e granulada que representava o último prego no caixão do meu casamento.
"Ele vai te deixar por mim. Por nós. Você deveria apenas fazer suas malas e sair da casa dele. Agora é minha casa."
Reconheci o tom imediatamente. Kátia Moraes. A gravidez a tornara ousada. Ela achava que tinha vencido.
Eu não respondi. Suas mensagens não significavam mais nada para mim. Eram apenas ruído.
Andei pela casa, cômodo por cômodo, com um grande saco de lixo. Juntei todas as coisas que me ligavam a ele. Fotos, presentes, roupas que ele me comprou. Dez anos de uma vida compartilhada, reduzidos a uma pilha de objetos sem sentido.
Não guardei nada sentimental. Embalei apenas o que precisava: algumas mudas de roupas práticas, meu laptop criptografado e um celular descartável. Todo o resto, joguei fora ou deixei para trás.
Na manhã da minha partida, acordei cedo. Minha única mala estava pronta e esperando perto da porta. Sentei-me na sala de estar silenciosa, observando o sol nascer.
Meu celular descartável vibrou novamente. Outra mensagem de Kátia.
Desta vez, era uma foto. Davi estava de joelhos, segurando uma caixa de anel. A mão de Kátia estava estendida, um diamante enorme em seu dedo. Eles estavam em um restaurante chique.
"Ele me pediu em casamento!", dizia a mensagem. "Vamos nos casar assim que o divórcio for finalizado. Ele disse que quer um casamento enorme, maior do que o que teve com você."
"Ele está cansado de você, sua velha. Ele me disse que mal pode esperar para te tirar da vida dele."
"Você deveria fazer um favor a ele e sair da mansão. Vou me mudar para lá depois da nossa lua de mel."
Eu encarei a foto. Ele a havia pedido em casamento. Enquanto ainda era casado comigo. A audácia pura era quase impressionante.
Desta vez, eu respondi.
"Parabéns. Desejo a vocês toda a felicidade que merecem."
Adicionei um emoji sorrindo. Deixe-a se perguntar o que isso significava.
Alguns minutos depois, um carro preto e discreto entrou na garagem. Minha carona para o aeroporto. Era a hora.
Peguei minha mala, dei uma última olhada na casa e saí pela porta sem olhar para trás.
O carro se movia suavemente pelo trânsito da cidade. Estávamos a cerca de vinte minutos do aeroporto quando paramos em um sinal vermelho.
Ouvi suspiros e conversas animadas de pessoas na calçada.
"Uau, olhe aquilo! Deve ser o casamento de alguma celebridade!"
Uma longa procissão de carros de luxo brancos passava pelo cruzamento. O carro da frente era um Rolls-Royce branco, decorado com arranjos de flores elaborados.
Olhei pela janela, minha curiosidade aguçada.
Dentro do Rolls-Royce estava Davi, sorrindo e acenando para a multidão. Ao lado dele, em um vestido de noiva branco, estava Kátia Moraes. Ela estava rindo, a mão na dele, exibindo seu novo anel.
Nossos carros estavam lado a lado. Por uma fração de segundo, nossos olhos se encontraram.
O sorriso dele desapareceu. Seu rosto ficou pálido de choque e confusão. Ele me viu, em um carro estranho, com uma mala ao meu lado. Ele viu o olhar frio e vazio em meus olhos.
O sinal ficou verde. Meu motorista arrancou, deixando-o para trás.
O celular dele começou a tocar. Meu celular pessoal, o que ele conhecia. Tocava e tocava, um som frenético e desesperado.