Uma enfermeira surgiu apressada, segurando uma prancheta. "Senhorita Mason, confirmamos a compatibilidade. Podemos prosseguir, mas precisamos que assine os formulários de consentimento. Está ciente dos riscos de uma cirurgia de grande porte?"
Sem sequer olhar os papéis, Kortney arrancou a caneta e assinou com firmeza e disse com a voz trêmula, mas carregada de determinação: "Apenas salvem ele."
Preparada para a cirurgia, ela foi levada ao centro cirúrgico, mas antes de entrar, o cirurgião a deteve por um instante.
"Senhorita Mason, mais uma coisa - a pressão do paciente segue instável, e nossas reservas do tipo sanguíneo dele estão baixas. As doações de suas amigas ajudaram, mas talvez precisemos de mais durante o procedimento."
Danielle e Jinnie, ainda fracas depois da primeira doação, avançaram sem hesitar.
"Podem tirar mais de nós", disse Danielle.
"Não nos importamos", acrescentou Jinnie. "Apenhas salvem ele."
A enfermeira olhou com preocupação. "Vocês já deram a quantidade máxima recomendada, insistir pode ser perigoso."
"Eu falei para tirar", retrucou Danielle, firme, sem espaço para objeções.
Assim, as duas voltaram para a sala de doação, oferecendo-se em um gesto ao mesmo tempo belo, assustador e completamente autodestrutivo.
Donavan assistia à repetição exata do que vivera em sua primeira vida - as mulheres não haviam morrido por Jeb com um ato grandioso, mas em uma sucessão de sacrifícios deliberados, cada escolha arrancando um pedaço de si mesmas até que não sobrasse nada.
Então ele entendeu - para as três, devotas fanáticas, Jeb era um deus.
Como se enfrentaria uma divindade?
Era impossível.
Uma estranha sensação de alívio percorreu Donavan. Afinal, nessa vida, teve a sorte de se afastar antes mesmo do primeiro sacrifício.
Horas depois, a luz da sala de cirurgia se apagou e o cirurgião saiu, cansado, mas com expressão vitoriosa.
"A cirurgia foi um sucesso. O transplante funcionou, e o senhor Clayton vai se recuperar por completo", disse ele, olhando para Danielle e Jinnie. "Quanto a vocês duas, precisam descansar e repor líquidos. Foram extremamente corajosas."
As duas desabaram em lágrimas de alívio, abraçando-se.
Nesse instante, o médico percebeu Donavan saindo das sombras. "O senhor deve ser o senhor Pittman. Suas amigas... são incrivelmente leais."
Donavan esboçou um sorriso vazio. "São leais, sim. Mas não são minhas amigas."
As palavras, baixas, ecoaram como um veredito, fazendo Danielle e Jinnie erguerem os olhos, confusas.
"O que você quer dizer?", perguntou Danielle.
"Quero dizer que não tenho nenhuma relação com vocês", respondeu ele, sem emoção alguma. "Liguem para suas famílias, elas precisam saber da condição de vocês."
Quando ele já se virou para ir embora, a voz frace de Kortney, sendo levada em uma maca, o chamou: "Donny, espere!"
Mas ele não parou, nem olhou para trás.
Enquanto seguia em direção à saída, ouviu duas enfermeiras cochicharem na recepção.
"Você acredita nisso? Três herdeiras lindas, dispostas a morrer por aquele cara. E o noivo, o senhor Pittman, só ficou ali parado, gelado como uma pedra."
"Pois é, né? Dá para ver por quem elas realmente são apaixonadas. Coitado do noivo, não tem chance nenhuma."
Diante das portas de vidro, Donavan parou, viu o próprio reflexo - pálido e cansado - e soltou uma risada breve e amarga.
"Coitado do noivo, elas não fazem ideia," ", ele pensou, enntão empurrou as portas e saiu para o ar fresco da noite, deixando para trás o drama, o sacrifício e aquele mundo sufocante e tóxico.
A caminho de casa, o braço latejava em dor, lembrando-o do presente.
Seus pais já o esperavam, rostos marcados pela preocupação.
Ao vê-lo, sua mãe correu até ele e disse: "Donavan, seu braço! O que houve?"
"Foi só um acidente. Está tudo certo, os médicos cuidaram disso", respondeu Donavan, afastando a mão da mãe com delicadeza. Ele não contaria a verdade, pois eles não entenderiam.
"Soube da situação no hospital", disse o pai com o semblante sério. "Os Mason ligaram. Kortney passou por cirurgia."
"Eu sei", disse Donavan.
Os pais trocaram olhares, esperando alguma reação, mas o filho se mantinha inabalável.
A mãe então lhe entregou um abotoador de platina, frio e pesado, com o brasão dos Cain. "Eles oficializaram a aceitação da aliança."
"Ótimo", respondeu Donavan, segurando a joia.
"Os Pierce e os Peterson também não param de ligar", acrescentou o pai. "Querem saber quando você vai anunciar sua decisão. Ainda acreditam que escolherá uma delas."
"Eu vou resolver", disse Donavan, neutro, encarando o abotoador sólido em sua mão, promessa de um futuro construído na lógica, não na ilusão traiçoeira do amor.
No dia seguinte, ele pediu que o assistente preparasse três caixas idênticas. Dentro de cada uma, colocou as relíquias enviadas como propostas de casamento pelos Mason, Peterson e Pierce, junto com um cartão simples, datilografado: "Obrigado pela consideração. A família Pittman escolheu outra aliança."
Donavan determinou que fossem entregues em dois dias.
À noite, Kortney, Danielle e Jinnie chegaram para vê-lo. Apesar do cansaço estampado nos rostos pálidos, estavam impecavelmente vestidas e haviam trazido presentes caros, escolhidos para massagear seu ego. "Donny", começou Kortney, em tom doce e conciliador. "Queremos pedir desculpas. No hospital, passamos do limite. Estávamos tão aflitas com Jeb que perdemos a cabeça."
Elas tentavam reparar a situação, não por cuidado com Donavan, mas porque todo o plano de proteger Jeb dependia de uma delas se casar com um Pittman.
Donavan enxergava a frieza calculista nos olhos de cada uma delas, mas já não tinha nenhum interesse em continuar assistindo a esse teatro.