7 Capítulo
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Ela era minha. Mas a mentira era de todos.
CAIO MOREAU BASTIEN
As estocadas voltaram mais intensas, como se meu corpo tentasse arrancar dela todos os anos que perdi.
- Porra... eu não vou aguentar mais... goza, Alinna!
Ela gemeu alto, o corpo se curvando em espasmos. O orgasmo veio rasgado, violento, um grito abafado que me incendiou junto.
Enterrei-me nela com força, gemendo descontrolado:
- Aaaaaaah, porra! Caralho! Que delícia...
Encostei a testa na dela, arfando como um homem que quase se afoga, mas ainda pede mais ar.
- Eu ainda tô com fome. Porra, eu ainda quero você... deixa? Deixa eu amar você.
Ela me olhou com dor nos olhos, os lábios trêmulos.
- Desculpa... não posso.
Franzi o cenho, sem entender.
- O quê? Não pode o quê, Alinna?
- Isso foi um erro, Caio.
Ela se levantou, cambaleando, pegou o roupão do chão. Eu também me ergui, nu, confuso, gritando:
- Chega, Alinna! Eu vou acabar morrendo, porra! Para!
Ela hesitou. Voltou. Sentou-se na beira da cama, a cabeça baixa, os cabelos molhados colando na pele ainda trêmula. Eu sentei também, respiração descompassada, mãos firmes nos ombros dela.
- A gente precisa ter essa conversa. Por que não podemos ficar juntos?
Ela não respondeu.
- Só temos cinco meses pra nos casarmos, Alinna. Foi a condição que o seu marido me deu pra eu não perder o que meu pai levou a vida inteira construindo...
Ela ergueu os olhos, duros.
- Esse meu marido, Caio, era o seu irmão.
Fechei os olhos.
- Eu sei. Mas nós nos amamos. E agora temos essa chance de recomeçar.
Ela suspirou, e parecia que a alma dela saía junto.
- O problema é esse, Caio... não dá pra recomeçar.
- Por quê? - perdi o controle. - Saudades dele? É isso? Você o amava? Ele te fazia gozar e eu não? Eu não satisfazia você, é isso?!
Ela chorou. Respirou fundo, a garganta presa.
- Eu e o seu irmão... não transávamos, Caio.
O silêncio foi uma explosão dentro de mim.
- Ele tinha outras. Sempre teve. Ele morreu me amando. Mas eu nunca te esqueci. Transar com ele era trair você. Quando eu estava muito vulnerável... era com você que eu transava, no corpo do seu irmão. E quando eu olhava pra ele... aquilo me destruía.
As lágrimas dela vieram junto com as palavras que me quebraram.
- Você... você é o único homem que já me teve de verdade.
Ela se levantou e saiu do quarto.
Fiquei sentado, nu, o peito arfando, os olhos fixos no chão.
"Nunca transavam..."
"Ele tinha outras..."
"Você é o único..."
A verdade doeu como facada mal cicatrizada.
Alinna entrou no quarto dela, trancou a porta e se jogou na cama. O choro veio alto, sufocado pelo travesseiro. Não era alívio. Era desespero.
Bati na porta, com a voz rouca, quase implorando:
- Alinna, por favor, abre essa porta! Agora, ou eu juro que vou arrombar!
Do outro lado, só soluços.
- Pelo amor de Deus, eu tô implorando! Abre essa porra dessa porta! Me fala... me explica... COMO ASSIM VOCÊS NUNCA TRANSAVAM?
Meu punho bateu uma, duas vezes. Depois cedi.
Caí de joelhos, encostei a testa na madeira fria. O choro veio pesado, da alma, daquele lugar onde só mora a dor do que nunca se entende.
- Me fala... vocês ficaram casados sete anos... como vocês não transavam, amor? Como? Eu preciso saber. EU PRECISO SABER!
Chorei como criança. Desmoronado. Sozinho.
Foi quando Jarbas apareceu. Silencioso. Assistiu à cena. O homem que um dia foi orgulho, agora não passava de um menino ferido, implorando por migalhas de verdade.
Com um assovio sutil, chamou:
- Pssiu... senhor Caio. Vem comigo.
Levantei com esforço, os olhos vermelhos, o corpo esvaziado. Passei no banheiro, lavei o rosto, respirei fundo. Fui até o corredor. Ele me esperava.
Me levou até a casa dos fundos. Lá, me fez sentar.
- Boa noite novamente, senhor.
- Fala, Jarbas... como assim a Alinna ficou casada com meu irmão sete anos e eles não tinham... nada?
Ele me encarou, sem pressa, sem medo.
- É isso mesmo, senhor Caio. O casamento deles nunca foi real. Seu irmão a forçou por causa de uma dívida. Uma dívida do pai dela.
- Que dívida, Jarbas? Que porra é essa?
Ele apontou pra poltrona.
- Sente-se, senhor. Eu vou te contar tudo.
Sentei. O coração batendo alto, a respiração curta.
- Meu nome é Jarbas Tavares. Sou tio de Alinna por parte de pai. Meu irmão, Alberto Tavares, era um homem bom... mas fraco. Afundou em jogo. Pegou dinheiro com agiotas. A última vez foi muito dinheiro. Mentiu, disse que precisava para tratamento da esposa. Apostou. Perdeu tudo.
- Meu Deus...
- Eduard comprou a dívida, senhor. Ele se associava a agiotas. Quando Alberto morreu num coma alcoólico, a dívida caiu em cima de Alinna. Juros, ameaças, tudo. Nem a casa eles tinham mais.
Arregalei os olhos.
- Meu irmão comprava dívidas?
- Sim. E cobrou a dela à maneira dele. Quando cheguei, ela já estava sacrificada. Casou-se para salvar a dignidade da família.
Engoli seco.
- E você?
- Ela me trouxe pra cá. Me deu emprego. Assim eu podia vê-la, protegê-la de longe. Não podia lutar mais, mas podia cuidar.
Abaixei a cabeça.
- Então vocês mentiram pra mim durante sete anos.
- Sim. E não me orgulho. Mas ela nunca quis te magoar, senhor. Só estava tentando sobreviver. E acredite... enxuguei muitas lágrimas dela. Vi quando ele chegava cheirando a bebidas. Vi quando ela vomitava de dor. Eu vi tudo.
Passei as mãos no rosto.
- Ela sempre me dizia que eu não sabia de nada... E é verdade, não é?
Jarbas assentiu.
- Ela ainda te ama, senhor. Mas tá quebrada. Carrega culpa até do que não foi culpa. Você a acusou de traição durante anos... mas ela se casou para salvar a família. E por ameaça.
Levantei a cabeça, incrédulo.
- Que ameaça?
Jarbas respirou fundo.
- Seu irmão falou que os agiotas matariam o senhor, se vocês ficassem juntos.
Meu corpo gelou.
- Ele fez o quê?
Silêncio.
- E agora? - perguntei, com a voz baixa.
Jarbas me encarou firme.
- Agora, senhor... ou o senhor desiste de vez... ou se prepara pra lutar como nunca lutou antes.
Fiquei parado.
Entendendo, finalmente, que amar não era só desejar.
Amar era estar disposto a sangrar.
Mesmo que a verdade fosse um caminho cheio de espinhos.