_ D-de medo - respondeu rápido, a voz falhando.
Stefano soltou uma risada baixa, curta, como quem se diverte com a tentativa dela de se defender. Levantou a mão, fez menção de tocar-lhe o rosto, mas desviou no último instante, deixando-a ainda mais desconcertada.
_ Talvez eu esteja começando a gostar desse seu jeito atrapalhado - murmurou.
_ O desconforto lhe cai bem.
Seline respirou fundo, mas não ousou responder. O coração parecia martelar dentro do peito.
Ele, então, se afastou devagar, voltando à mesa de sinuca como se nada tivesse acontecido.
_ Não se preocupe, garota. - disse por fim, com um meio sorriso.
_ Quando eu realmente quiser que me incomode... eu mesma vou lhe dar permissão.
A forma como disse aquilo soou como uma ordem disfarçada de promessa. E, pela primeira vez, Seline não soube se sentia apenas medo... ou se algo perigoso dentro dela começava a reagir àquela tensão.
Pensamentos de tudo que tem vivido tomam conta de si, e ela sente o que sentiu nos dias anteriores, e, de repente o medo some como um passe de mágica e um sentimento de tanto faz, de desistência toma conta dela.
O seu olhar para com ele se tornou determinado e ao mesmo instante, agora, indiferente a tudo que lhe fora falado como ameaça e ele logo percebeu essa mudança no seu olhar.
_ Está diferente - disse ele, erguendo uma sobrancelha, tentando manter o tom frio.
_ Digo... o seu olhar está diferente.
Seline parou a alguns passos dele. O cabelo solto caía sobre o rosto, os ombros caídos.
_ Não adianta mais - respondeu, a voz baixa, quase um sussurro. - Eu não tenho mais motivos para estar aqui.
Stefano apoiou o taco de sinuca na mesa, interessado.
_ Como assim?
Ela ergueu os olhos marejados.
_ Você quer que eu faça coisas, que eu me infiltre, que eu me vista de uma vida que não é minha.
_ Mas eu não quero mais nada.
_ Não tenho mais vida, não tenho mais família. Se quiser me matar, pode.
_ Eu não me importo mais.
O silêncio caiu como um peso. Stefano ficou imóvel, o olhar fixo nela, e por um instante a frieza dele pareceu quebrar. Não estava preparado para ver aquela garota - que sempre tremia, sempre obedecia - agora falando como alguém que já não tinha medo.
Seline respirou fundo, deu um passo para trás e completou:
_ Acabou. Não tenho mais o que oferecer. Se quiser, faça agora. Mas me deixe ir dessa forma.
Virou-se e saiu lentamente da sala, deixando Stefano sozinho, imóvel, os olhos estreitados. O taco de sinuca escorregou da mão dele e caiu no chão com um som seco.
Ele ficou ali, em silêncio, por longos minutos. Dentro dele, o cálculo habitual começou a trabalhar. Não podia perder essa peça do jogo. Se ela não tivesse mais medo da morte, o controle acabaria. Precisava transformar o medo em instinto. Precisava fazê-la lutar por algo que nem sabia que queria: a própria vida.
Um plano se formou na mente de Stefano, sombrio, mas eficiente. Se ela achava que não tinha mais nada a perder, ele mostraria o que era perder a própria sobrevivência.
Horas depois, isso após já ter comida uma leve refeição ela foi dormir e, acordou agora assustada em seu quarto.
A porta se abriu bruscamente e dois capangas entraram. Antes que pudesse reagir, foi levada por corredores que nunca tinha visto, descendo escadas escondidas atrás de paredes falsas, até chegar a um espaço frio e úmido.
Era uma masmorra. As paredes de pedra exalavam umidade, havia apenas uma lâmpada fraca no teto. Um cheiro metálico preenchia o ar.
Ela foi deixada ali sozinha, o portão de ferro trancado. Um pânico primitivo subiu-lhe à garganta. Começou a bater nas grades, gritar, mas ninguém respondeu.
O tempo passou sem comida, sem água. A fome e a sede começaram a corroer seu corpo, o frio encolhia seus ossos. O instinto de sobrevivência gritou dentro dela. O medo que achava que não existia mais voltou com força, agora visceral.
Ela nem sabe se é dia ou noite, se chove ou venta, brisa fresca, ou congelante. Tá tudo um grande tormento, tudo ainda pior, ela chega a alucinar com o seu pai lhe pedindo para lutar, para não desistir de sua vida.
Já faz quase três dias e ela já não tem mais forças nem para se levantar, olheiras se formaram e seus lábios ressecaram e o seu corpo e mente, agora luta para sobreviver. É a defesa e luta automática do corpo para sair dessa situação.
Finalmente ela é vencida pela dor e pela fome.