_ Muito. Sempre sonhei em ter um vaso com girassóis na janela, mas nunca tive a chance.
_ Então já sei o que vou te trazer da próxima vez que nos virmos - respondeu, sem hesitar, como se fosse natural oferecer carinho a alguém quase desconhecida.
Seline riu, sentindo um calor estranho no peito. Era raro alguém pensar nela de maneira tão simples, tão humana.
A conversa, leve como uma brisa, foi tomando outro tom, mais íntimo. Falaram sobre esmaltes - Yarin preferia tons claros, já Seline confessou gostar de cores fortes, mesmo que raramente tivesse coragem de usar. Discutiram penteados, truques bobos de maquiagem, até segredos de adolescência.
Até que, sem perceber, o assunto deslizou para relacionamentos.
_ Marcus é um homem bom, sabe? - disse Yarin, com um carinho na voz que revelava o quanto amava o marido.
_ Não é perfeito, mas me faz rir... e, bem, tem seus jeitos de me conquistar.
Seline ficou em silêncio, sorrindo de leve.
_ Deve ser bom... sentir isso.
_ E você? - a pergunta de Yarin veio rápida, inocente demais, mas com o poder de cortar o ar.
_ Como é com Stefano? Quero dizer... vocês já tiveram aqueles momentos só de vocês? Mais... íntimos?
O coração de Seline disparou. A garganta secou, e de repente o quarto pareceu se fechar ao redor dela.
_ Eu... - tentou falar, mas a voz falhou. A mente girava, procurando palavras, desculpas, qualquer coisa que pudesse soar convincente. Nunca havia tido nada com Stefano. Nunca sequer cogitara. Tudo aquilo era uma farsa, e agora estava de frente para a mentira.
_ Desculpa se fui indiscreta! - Yarin apressou-se, notando o silêncio. - É que, bem, como irmã... eu fico curiosa, sabe? Quero entender como ele é com você, já que comigo sempre foi distante, frio.
Seline engoliu em seco.
_ É... é complicado. Ele não é de se abrir muito. - conseguiu dizer, com um sorriso forçado que Yarin não podia ver, mas que denunciava sua tensão.
_ Acho que... ainda estamos nos conhecendo.
Do outro lado Yarin rir.
_ Haha, não era bem isso que eu estava perguntando, mas tudo bem, imagino que fui evasiva e peço até desculpas por isso. __ Ela fala em um tom um pouco sério ao notar que não foi confortável para Seline o assunto bobo.
_ Bom, se precisar de conselhos, sabe que pode contar comigo. Nem que seja só pra rir das coisas estranhas que os homens fazem.
As duas riram juntas, mas Seline sentia o coração pesado. Cada palavra era um fio entre a verdade e a mentira. E, quanto mais se aproximava de Yarin, mais difícil seria manter a farsa.
Sabia que seu papel era se aproximar da irmã de Stefano - era isso que ele queria, era essa a missão que lhe daria algum tempo de vida. Mas, ao mesmo tempo, a doçura de Yarin a desarmava, fazendo-a sentir que estava traindo alguém que não merecia tamanha farsa.
Após o fim da ligação um silêncio pesado tomou o quarto, até que um leve ranger de dobradiças fez sua respiração travar. A porta, que não estava trancada, se abriu devagar, revelando a figura de Stefano. Ele entrou sem pressa, os passos firmes e silenciosos, o olhar carregado de algo indecifrável.
_ Conversando com minha irmã? - perguntou em tom baixo, quase um sussurro, mas ainda assim cortante.
Seline apertou o celular contra o peito e se encolheu.
_ Eu... sim. Apenas coisas simples.
Ele não respondeu de imediato. Caminhou até ela, detendo-se ao lado da cama. Ficou um instante em silêncio, apenas a observando, como se tentasse decifrar cada microexpressão do rosto dela.
_ É bom que continue assim - disse, finalmente, puxando uma cadeira e sentando-se de frente para ela.
_ Preciso que se mantenha próxima. Que se torne indispensável para ela.
Seline apenas assentiu, nervosa.
O olhar de Stefano, porém, desviou lentamente para os lábios dela. Houve um instante de silêncio carregado, e Seline sentiu a respiração prender-se em sua garganta. Ele se inclinou um pouco mais para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos, como se de repente tivesse abaixado a guarda.
_ Às vezes - murmurou, a voz mais grave do que antes -, penso que meu trabalho é uma maldição. O sangue, as dívidas, as sombras que herdei... nunca me deixam em paz.
Ela arregalou os olhos. Nunca havia escutado Stefano falar de si de forma tão... humana, ainda que houvesse algo sombrio em suas palavras.
_ E por que está me dizendo isso? - arriscou, a voz baixa, trêmula.
Ele inclinou-se mais perto, tão próximo que Seline pôde sentir a respiração dele contra sua pele. Por um instante, o mundo pareceu parar. Stefano, aquele homem cruel e impiedoso, a olhava como se pudesse atravessá-la por dentro.
_ Talvez porque você está aqui... - murmurou, deixando as palavras suspensas no ar.
O silêncio entre eles se tornou denso, quase insuportável. Ele inclinou o rosto ainda mais, seus olhos fixos nos lábios dela, como se fosse beijá-la.
Mas, no último instante, desviou, erguendo-se de repente e voltando ao tom frio e calculado.
_ Não esqueça sua missão, Seline. - disse, já de costas para ela, enquanto caminhava até a porta.
_ Aproxime-se de Yarin. Descubra o que Marcus esconde. Não me faça perder tempo.
A porta se fechou, deixando-a sozinha novamente, tremendo, sem entender o que havia acabado de acontecer.