As mãos dela estavam frias, trêmulas, e apertavam o lençol como se buscassem algum tipo de coragem naquele tecido macio. O peso das palavras de Stefano ecoava em sua cabeça como um martelo: "Você é apenas um brinquedinho pra mim, garota! Agora eu sou o seu dono."
Ela fechou os olhos por um instante, tentando conter as lágrimas que insistiam em escorrer. O medo da morte era real, mas a ideia de se transformar em cúmplice dele parecia ainda mais cruel. Logo tudo se apagou e um novo dia raiou.
Um som repentino - três batidas secas na porta - fez seu corpo estremecer já despertando. Antes que pudesse responder, a porta se abriu lentamente e uma das funcionárias entrou, carregando uma caixa de madeira entalhada.
_ O senhor Stefano espera você na sala leste. - disse a mulher sem emoção, colocando a caixa sobre a penteadeira.
_Tome um banho e troque-se com estas roupas e desça em dez minutos.
Assim que a funcionária saiu, Seline abriu a caixa. Dentro, havia um vestido simples, porém elegante, e um par de sapatos de salto baixo. Tecidos que nunca havia tocado antes, delicados e estranhamente pesados para quem viera da pobreza.
Respirou fundo, tomou um banho rápido, trocou de roupa e, com passos vacilantes, desceu até a sala indicada.
A sala leste era ampla, iluminada por candelabros modernos. No centro, Stefano a aguardava de pé, com as mãos cruzadas nas costas, observando uma mesa cuidadosamente preparada com livros, uma pilha de papéis e uma taça de vinho que refletia a luz avermelhada.
_ Finalmente. - disse ele, sem sequer virar o rosto.
_ Achei que fosse se perder no caminho.
Seline permaneceu em silêncio, tentando controlar o nervosismo.
Stefano se aproximou e, com um gesto seco, apontou para a cadeira diante da mesa.
_ Sente-se.
Ela obedeceu.
_ Escute bem. - começou ele, andando lentamente ao redor da mesa como um professor severo diante de uma aluna indisciplinada.
_ Já passou da hora de você aprender a se portar como alguém que pode andar ao meu lado sem me envergonhar.
Seline permaneceu em silêncio, as mãos entrelaçadas, tentando disfarçar o nervosismo.
Stefano fez um sinal, e de trás da porta surgiu Marcel, o mesmo instrutor de antes. Alto, de terno impecável, carregava uma pasta.
_ Marcel vai lapidar o que ontem parecia apenas uma sombra mal arrumada. - disse Stefano.
_ Você vai aprender a falar sem gaguejar, a se sentar sem parecer uma mendiga cansada, a sorrir sem deixar escapar o medo.
Ele se afastou e se sentou em uma poltrona próxima, cruzando as pernas.
_ Comece.
Marcel abriu a pasta e retirou um caderno. Pôs-se diante dela e disse calmamente:
_ Vamos começar pelo básico. Caminhe até aquela cadeira, sente-se e cumprimente-me como se fosse alguém importante.
Seline respirou fundo. A mente estava em turbilhão, mas seguiu as instruções. Caminhou até a cadeira, tentando manter a postura ereta como lembrava de ter visto as mulheres elegantes no jantar. Sentou-se... mas esqueceu de ajeitar o vestido.
_ Pare. - disse Marcel, firme mas sem elevar a voz.
_ Sempre arrume a saia antes de se sentar. Nunca deixe que pareça que está desconfortável.
Corrigindo o erro, Seline recomeçou.
_ Melhor. - aprovou ele. - Agora, o cumprimento.
Ela ergueu os olhos e, com um fio de voz, murmurou:
_ É um prazer conhecê-lo.
Do fundo da sala, a voz de Stefano cortou o ar:
_ Mais firme. Você não está implorando. Repita.
Seline sentiu o rosto corar, mas respirou fundo, endireitou os ombros e disse com mais convicção:
_ É um prazer conhecê-lo.
Stefano ergueu uma sobrancelha e deu um meio sorriso gélido.
_ Já não parece tanto uma gatinha assustada. Continue.
As próximas horas foram um tormento e um aprendizado. Marcel ensinou como segurar uma taça de vinho, como atravessar um salão sem tropeçar nos próprios pés, como manter o olhar firme sem parecer insolente. Corrigia cada detalhe: a posição das mãos, o tom de voz, até a forma de sorrir.
Stefano observava tudo, interferindo apenas quando queria intimidá-la.
_ Você precisa convencer minha irmã de que é uma mulher refinada. Se ela desconfiar de você por um segundo... acabou. - disse, erguendo a taça e bebendo em silêncio.
Quando finalmente a dispensaram, Seline estava exausta. Caminhou de volta ao quarto, o corpo tenso e a mente confusa.
Deitou-se e apertou contra o peito o pequeno pedaço de papel onde havia anotado o telefone de Yarin. Sentia que aquele número era mais que um contato - era um fio de esperança.
Não demorou muito e lhe avisaram sobre o café da manhã, ela acompanhou a funcionária e ao chegar na cozinha viu uma senhorinha num coque de cabelos grisalhos com um uniforme preto escrito "Petrov's family"
Ela logo olhou para Seline e se apresentou.
_ Me chamo Leonor, sou a cozinheira daqui, e você se chama..?
_ Sou a Seline __ Disse apenas isso e logo o silêncio se fez parte da cozinha.
_ Eu sei da sua dor, menina - disse Leonor em voz baixa, quase um sussurro que parecia não querer incomodar o silêncio pesado do casarão.
_ Sei que perdeu sua família numa tragédia... E sei também que estar aqui, entre paredes tão frias, não é fácil.
Seline a fitou surpresa, sem saber ao certo se devia se abrir. Mas havia algo na voz daquela mulher que a fez soltar um suspiro contido.
_ Eu... eu não sei como seguir em frente - murmurou, encarando o café como se ele fosse lhe trazer respostas.
_ E quanto mais ouço sobre... sobre ele, mais assustada fico.
Leonor soltou uma risada amarga, colocando o pano de prato no ombro.
_ O senhor Stefano não é o primeiro Petrov a carregar esse peso. Herdou o caráter do pai... e isso não é um elogio.
Seline ergueu os olhos, confusa e curiosa ao mesmo tempo.
_ O pai dele?
A cozinheira se aproximou e baixou o tom, como se até as paredes pudessem ouvir.
_ O pai dele era cruel. Matava por pouco, sem remorso. Torturava por prazer. - Ela respirou fundo, como quem recordava imagens que preferia esquecer.
_ E a própria história de amor dos pais dele... Foi tragédia desde o início, um relacionamento tóxico e de torturas físicas e psicológicas.
Seline arregalou os olhos, o estômago se revirando.
- Tragédia?
_ O pai da senhora Yonara, mãe deles, contraiu dívidas impagáveis. E o velho Petrov não era homem de misericórdia. Exigiu a filha como pagamento. - Leonor fez o sinal da cruz e balançou a cabeça.
_ Levou-a de um leilão disfarçado de negociação. A moça foi tratada como mercadoria.
Seline sentiu um arrepio percorrer a espinha. O ar parecia mais pesado, a cozinha menor.
_ Isso é horrível... - murmurou, quase sem voz.
_ E mesmo assim... Yarin... como pode ser tão boa?
_ Digo tive essa impressão ao conhecê-la, não sei se estou certa disso, eu só...
O rosto de Leonor se suavizou.
_ Sim, é uma ótima pessoa, porque ela herdou a bondade da mãe. A senhora Yonara, mesmo com tanta dor, nunca deixou de ser gentil. Foi isso que salvou Yarin de se tornar como o pai ou como Stefano.
Seline ficou em silêncio. O coração batia rápido, não apenas pelo horror da história, mas pela lembrança da jovem mulher que conhecera dias antes. Yarin, com seu sorriso sincero e olhar acolhedor, parecia de outro mundo comparada às paredes sombrias daquela casa.
Duas semanas se passaram.
Seline, no quarto que já começava a parecer um misto de prisão e refúgio, encarava o celular em mãos. Durante a semana, ela e Yarin haviam trocado mensagens tímidas - perguntas simples, respostas curtas, mas cheias de uma doçura que Seline não se lembrava de sentir fazia tempo. E ela aprendeu rápido a aprimorar a escrita e a mexer bem no aparelho celular.
Finalmente, com o coração acelerado, apertou o botão de chamada.
_ Alô? - a voz suave de Yarin soou do outro lado.
Seline quase gaguejou, sem saber como começar.
_ É... sou eu... Seline. Desculpa ligar assim, eu só... eu só queria ouvir a sua voz.
Do outro lado da linha, Yarin riu de leve, uma risada leve como vento de primavera.
_ Não precisa se desculpar. Eu também queria falar com você. Na verdade... estava esperando que ligasse.
As palavras fizeram Seline se aquecer por dentro. Era como se, pela primeira vez em muito tempo, ela tivesse encontrado uma centelha de esperança em meio ao frio.