Ela tremia só de lembrar.
Por que ele se aproximou tanto? O que queria de mim naquele instante?
O coração dela acelerava toda vez que recordava o momento em que ele quase a beijara. Mas junto do espanto, vinha o medo. Medo de que aquela aproximação fosse apenas mais uma forma de controle, um jogo psicológico para deixá-la confusa.
No dia seguinte pela manhã, às 9:30 Levantou-se da cama com o corpo meio cansado, foi até o banheiro e ligou o chuveiro. Deixou a água quente cair sobre si, mas não conseguiu sentir alívio. As lágrimas vieram, misturando-se ao banho.
A lembrança da família voltou como um punho cerrando seu peito. A chuva, o barulho dos escombros caindo, os gritos abafados... a dor atravessando sua cintura, o sangue... E o silêncio mortal quando finalmente tudo parou.
Foi tudo muito doloroso para ela desde a tragédia, a dor, o luto se fez parte da sua vida.
Ela apertou os olhos, soluçando. Ainda debaixo do chuveiro.
_ Por que só eu sobrevivi?
Era injusto. Seu coração clamava pelo abraço da mãe, pelo riso dos irmãos, pela presença do pai. Tudo havia desaparecido em uma única noite de tragédia.
Ao desligar o chuveiro, envolveu-se na toalha, olhando ao redor do banheiro luxuoso. Mármore, metais brilhantes, perfumes caros. Cada detalhe gritava riqueza, poder, distância total da vida simples e pobre que tivera. Era como viver em outro mundo - mas um mundo em que era apenas uma prisioneira bem arrumada.
De volta ao quarto, pegou o celular que Stefano havia lhe dado.
A tela brilhava, convidativa. Seline começou a explorar melhor o aparelho, distraindo-se da dor que ainda lhe corroía por dentro. Foi então que notou um número salvo à parte, sem nome, apenas uma sequência de dígitos. O coração acelerou. Será o dele?
A curiosidade venceu, e ela clicou para abrir detalhes. Mas seus dedos trêmulos deslizaram na tela e, antes que pudesse impedir, o celular começou a chamar.
_ Não, não, não... - murmurou apavorada, tentando cancelar.
A chamada foi encerrada rapidamente, mas o estrago já estava feito: ela havia ligado para Stefano sem querer.
Um frio percorreu sua espinha.
Ele não atendeu, mas a ideia de que poderia retornar a ligação ou mandar uma mensagem a consumia de ansiedade. E se ele pensar que eu estava espionando o celular? E se achar que eu queria provocá-lo?
As horas seguintes foram de pura agonia. Seline olhava para o telefone a cada minuto, esperando qualquer notificação. O estômago parecia embrulhar, e a mente criava cenários de Stefano entrando no quarto furioso, acusando-a de ultrapassar limites.
Deitou-se novamente, mas não conseguiu fechar os olhos.
Cada vibração imaginária do aparelho fazia seu coração quase pular do peito.
Ela sabia: com Stefano, até um erro pequeno poderia custar muito caro.
As horas avançaram devagar, como se o relógio se divertisse em torturá-la. Seline permanecia deitada, os olhos fixos no celular, temendo a qualquer momento ver a tela se acender com o nome que ela não ousava confirmar.
O peito arfava em ondas rápidas, e as mãos suavam. E se ele vier agora? E se já souber?
Quando finalmente conseguiu se sentar na beira da cama, um som quebrou o silêncio.
O celular vibrou.
O coração de Seline disparou. A tela mostrava exatamente o número que ela havia discado por engano. O sangue pareceu fugir de seu corpo.
Engoliu em seco e atendeu com a mão trêmula.
_ ...Alô? - sua voz saiu baixa, quase inaudível.
Do outro lado, o silêncio permaneceu por um segundo longo demais. Então a voz dele surgiu, fria, calma, mas carregada de uma tensão que fez o ar do quarto se tornar mais pesado.
_ Ligou para mim. - Não era uma pergunta. Era uma constatação.
_ Eu... eu não... foi sem querer... - gaguejou, sentindo a garganta seca.
_ Sem querer? - Stefano repetiu, como se saboreasse cada sílaba. - Não existe "sem querer" quando se trata de mim, garota.
Seline fechou os olhos com força, as lágrimas ameaçando cair de novo.
_ Eu juro que não foi de propósito... eu só estava mexendo no telefone... não sabia...
Houve outro silêncio do outro lado da linha, mas desta vez carregado de algo mais sombrio. Então, de repente, ele soltou uma risada baixa, quase irônica.
_ Está com medo, não é? - a voz dele desceu em um tom grave, como um felino brincando com a presa.
_ S-sim... - ela sussurrou, sentindo a confissão escapar antes que pudesse se segurar.
_ Ótimo. - respondeu ele.
_ O medo mantém as pessoas no lugar certo.
Ela mordeu o lábio, sem saber se desligava ou se ficava. Mas Stefano continuou:
_ Da próxima vez que tocar nesse número, tenha certeza do que quer.
_ Eu não costumo tolerar distrações.
E, sem esperar resposta, a linha ficou muda.
Seline permaneceu com o celular colado ao ouvido, como se ainda pudesse ouvir a respiração dele. Seu corpo inteiro tremia. Não sabia se o pior era o fato de ele ter atendido, ou o modo como falara, deixando no ar a sensação de que havia muito mais por trás daquela resposta.
Deitou-se de novo, mas agora o medo era maior. Ele sabia. Ele sempre sabia.