Por que só eu? Era a pergunta que se repetia como um mantra. Por que sobrevivi? Para estar aqui, como um animal com coleira, vivendo à sombra de um homem cruel?
As lembranças da mãe, do pai, dos irmãos vinham como facas silenciosas. Cada rosto era um peso no peito. O toque da água morna do banho não trazia mais alívio, a comida não tinha mais gosto. A mansão, com toda sua grandiosidade, parecia apenas um túmulo onde ela andava viva.
Mas o destino não lhe daria trégua. Uma das funcionárias bateu à porta anunciando que Stefano a esperava na sala de jogos. O coração de Seline disparou, e as pernas pesaram como chumbo enquanto descia os corredores largos da mansão.
Quando entrou na sala, encontrou-o como da primeira vez: sozinho, a mesa de sinuca já preparada, o taco em mãos, o olhar fixo nas bolas coloridas. Mas havia algo diferente naquela manhã - um ar mais leve, quase provocador.
_ Veio rápido - disse ele, sem olhá-la diretamente, apenas ajustando a mira para a jogada.
_ Isso é bom. Obediência é uma virtude.
Ela permaneceu em silêncio, tentando controlar a respiração.
De repente, Stefano bateu com firmeza na bola branca, que percorreu a mesa com precisão e encaçapou duas outras.
Só então ergueu os olhos para ela, e um sorriso de canto surgiu em seus lábios.
_ Está nervosa. - Não perguntou. Afirmou.
_ Eu... - Seline tentou falar, mas a voz saiu falha.
Ele largou o taco e caminhou em direção a ela, devagar, como um predador se aproximando de sua presa. O som das botas contra o piso de madeira parecia amplificar a tensão.
Quando parou diante dela, inclinou levemente a cabeça para o lado, analisando-a. Seus olhos verdes estavam carregados de mistério.
_ Sabe o que gosto em pessoas que têm medo? - murmurou, aproximando-se um pouco mais, a ponto de Seline sentir o calor da respiração dele.
_ É que o medo torna tudo... mais interessante.
O coração dela quase saltou do peito.
Stefano ergueu a mão, como se fosse tocar-lhe o queixo, mas apenas deslizou os dedos pelo ar, sem encostar. O gesto era calculado, quase um flerte, mas com a crueldade de mantê-la presa à expectativa.
_ Talvez você esteja aprendendo rápido demais. - O tom dele soava como uma provocação, carregado de ironia e algo mais, algo que ela não conseguia decifrar.
_ Ontem à noite, por exemplo... uma ligação inesperada. E agora olha para mim como se esperasse que eu... fizesse algo.
Seline estremeceu.
Ele deu um passo atrás, rindo baixo, mas não de forma escandalosa. Um riso abafado, íntimo, que deixou no ar a dúvida cruel: ele estava apenas brincando, ou começava a se interessar de verdade por ela?
_ Relaxe, garota. - disse por fim, voltando à mesa de sinuca e pegando o taco.
_ Sua missão ainda está em pé. Mas... - fez uma pausa, olhando-a de relance com aquele mesmo sorriso enigmático
_ não estrague a diversão.
Seline recuou um passo sem perceber, confusa e assustada. Não sabia mais se Stefano apenas se divertia às custas dela ou se, de alguma forma distorcida, estava começando a cruzar uma linha perigosa.
E, no fundo, esse mistério era ainda mais apavorante.
Seline sentia o corpo gelado, mas a pele ardia como se tivesse febre. O olhar fixo de Stefano parecia atravessar suas defesas, desmontando qualquer máscara que tentasse vestir. Ainda assim, respirou fundo e encontrou forças para falar.
_ Eu... eu queria pedir desculpas de novo pela ligação de ontem - disse em voz baixa, quase engolindo as palavras.
_ Não queria incomodá-lo... não havia motivo para isso...
Um silêncio pesado se instalou. Stefano deixou o taco de sinuca repousar contra a mesa, cruzou os braços e ergueu as sobrancelhas, como se se divertisse com a situação.
_ Me incomodar? - repetiu, em tom de deboche.
_ Você ainda não aprendeu que ninguém liga para mim sem que eu permita?
Seline baixou os olhos, engolindo em seco.
_ Foi um acidente... eu juro...
Stefano deu alguns passos lentos na direção dela. Parou tão próximo que ela sentiu um arrepio percorrer-lhe a nuca. Inclinou-se levemente, aproximando os lábios do ouvido dela, e murmurou:
_ Eu sei. E foi isso que tornou tudo tão... interessante.
Ela estremeceu, os olhos se arregalaram. Ele recuou só um pouco, apenas para observá-la, o sorriso de canto desenhado no rosto como se estivesse saboreando o desconforto dela.
_ Você corou - disse, em tom provocador, os olhos brilhando com um humor sombrio.
_ Será que foi de medo... ou de outra coisa?