Lo que o destino nos roubou
img img Lo que o destino nos roubou img Capítulo 5 Podia continuar fingindo que não sabia de nada
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Capítulo 6 O que fazer se ele voltar a aparecer img
Capítulo 7 A menina dos domingos img
Capítulo 8 Fúria enterrada img
Capítulo 9 As ruínas do amor img
Capítulo 10 Não poderia continuar escondendo-as img
Capítulo 11 Estou grávida img
Capítulo 12 Não vou permitir que ela as machuque img
Capítulo 13 A arte da guerra img
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Capítulo 5 Podia continuar fingindo que não sabia de nada

A cidade despertava com seu ritmo habitual, mas para Camila Valdez, cada manhã era uma repetição de cansaço e luta. Ela aprendeu a se mover sem reclamar, a manter o sorriso mesmo quando o corpo mal lhe respondia. O dia começava antes do sol nascer e terminava quando já não havia mais ninguém que precisasse de café, um prato ou uma palavra amiga no pequeno restaurante onde trabalhava como garçonete há pouco mais de um ano.

Ao contrário das outras funcionárias, Camila não tinha luxo, nem oportunidades para estudar, nem redes de apoio além de sua filha. Mas o que ela tinha era determinação. Não importava se suas roupas estavam gastas ou se seus sapatos tinham solas finas: todos os dias ela saia para enfrentar a vida com a cabeça erguida, por ela e por Sofía.

Naquela manhã, como tantas outras, a menina insistiu em acompanhá-la ao trabalho antes de ir para a escola.

- Só quero ficar um pouquinho, mamãe. Prometo que não vou atrapalhar - ela disse com aqueles olhinhos cinzas que tanto se pareciam com os dele.

Camila cedeu. Às vezes, era mais fácil se render a essa ternura do que ser rigorosa. Além disso, o restaurante costumava ser tranquilo no início do dia. Um par de clientes habituais, algum executivo apressado, e ocasionalmente, um desconhecido que aparecia de passagem.

O que Camila não sabia era que um desses "desconhecidos" não era tão casual assim.

**

Diego Montenegro observava do outro lado da rua.** Ele não usava terno nem estava acompanhado de assistente. Estava vestido com uma simples jaqueta escura, jeans e boné. Ninguém o reconheceria assim, exceto alguém que tivesse compartilhado uma vida com ele.

Ele se sentia ridículo espiando à distância, mas não podia evitar. Tinha lido aquele relatório uma dúzia de vezes, memorizado cada dado, cada movimento de Camila nos últimos anos. Sabia seu horário, sua rotina, até o endereço da escola onde Sofía estudava. Mas ele ainda não teve coragem de se aproximar. Não ainda.

Naquela manhã, ao vê-la entrar no restaurante com a menina pela mão, algo dentro dele se apertou. Não por culpa ou arrependimento, mas por uma sensação de vazio que ele não soubera identificar. Forçou-se a esperar alguns minutos antes de atravessar a rua.

Entrou com passo casual, fingindo que procurava por um café qualquer. Escolheu uma mesa perto da janela e esperou ser atendido. Por sorte, não foi Camila quem o recebeu. Foi outra funcionária, uma jovem distraída, que lhe ofereceu o cardápio com indiferença.

Mas então, aconteceu algo que ele não havia planejado: Sofía saiu da pequena cozinha improvisada no fundo, com um desenho na mão.

- Quer ver meu dinossauro? - disse para Diego, sem medo algum.

Ele a olhou surpreso. Não esperava que ela se aproximasse. Muito menos que falasse com essa naturalidade. Era pequena, mas segura de si. Havia algo em seu tom que o desarmou.

- Claro - respondeu ele, tentando que sua voz não tremesse.

A menina mostrou-lhe o desenho. Era um dinossauro desengonçado, de cores berrantes, com um grande sol no canto e o que parecia ser uma casa ao fundo.

- Eu coloquei "Rodolfo". Mamãe diz que os dinossauros também podem ter nomes de vovôs - comentou ela, rindo.

Diego sorriu genuinamente pela primeira vez em muito tempo.

- Eu gosto. É um bom nome para um dinossauro. E você, como se chama?

- Sofía - disse ela, com orgulho.

O coração de Diego deu um pulo. Ouvir seu nome sair da boca dela foi um golpe suave, mas certeiro.

- Eu sou Daniel - respondeu ele, sem pensar. Não podia dizer seu nome verdadeiro. Não ainda.

Sofía deu de ombros.

- Não parece um Daniel, mas tudo bem.

- E o que você está fazendo aqui tão cedo?

- Estou esperando minha mãe terminar de preparar as mesas. Depois vou para a escola. Você trabalha perto?

Diego a observou com atenção. Cada gesto, cada palavra, lhe parecia tão familiar que doía. Ela tinha o mesmo jeito de falar de Camila quando estava nervosa. A mesma forma de franzir o nariz quando algo não lhe parecia certo.

- Sim, algo assim - respondeu ele.

Nesse momento, uma voz chamou da cozinha.

- Sofía, vem aqui, por favor.

A menina fez uma careta.

- Tenho que ir. Tchau, Daniel.

- Tchau, Sofía - murmurou Diego, enquanto a via correr para o fundo do local.

Camila não a viu falar com ele. Por sorte. Mas se tivesse visto... será que a reconheceria?

**

Naquela noite, Diego voltou para seu apartamento com o coração desordenado.** Não entendia o que estava buscando com tudo isso. Ver ela de perto? Falar com a menina sem que soubesse quem ele era? Sentir-se pai por cinco minutos?

Não tinha respostas. Só mais perguntas.

E, no entanto, ao chegar, ligou seu laptop e escreveu algo em uma folha em branco:

"Sofía. Olhos cinzas. Fala muito. Imaginação transbordante. Gosta de desenhar dinossauros. Diz que não pareço um Daniel."

Fechou o arquivo sem salvar.

Ele precisava manter o controle. Não podia se envolver emocionalmente. Não quando havia tanto em jogo. O projeto imobiliário ainda estava em andamento. Os investidores estavam impacientes. A demolição do bairro começaria em breve.

Mas... poderia destruir o lugar onde Camila e Sofía viviam?

Podia continuar fingindo que não sabia de nada?

Por enquanto, decidiu não decidir. Só observar.

Embora uma parte dele começasse a entender que, quanto mais se aproximava da verdade, mais difícil seria manter seu plano intacto.

E o que ele menos queria aceitar... era que, pela primeira vez em anos, ele já não sabia o que queria fazer.

O relógio marcava onze e meia da manhã quando Diego Montenegro empurrou a porta do pequeno restaurante localizado em uma das esquinas menos movimentadas do centro. O lugar era discreto, quase invisível aos olhos de quem buscava luxos ou tendências. Mas ele não estava ali por uma recomendação gastronômica ou por uma curiosidade qualquer. Havia caminhado até aquele ponto como quem segue uma trilha antiga, uma que foi gravada com fogo em sua memória.

Um leve toque de campainhas soou sobre a entrada. Diego, impecavelmente vestido, com seu casaco escuro sobre os ombros e o olhar severo, parou por um instante no limiar. Não por hesitação, mas por aquele pressentimento difícil de descrever, aquele que lhe dizia que por trás dessas mesas simples, com suas toalhas amassadas e copos de vidro grosso, algo importante estava prestes a acontecer.

O interior do restaurante estava banhado pela luz suave que se filtrava pelas cortinas finas. Havia quatro ou cinco mesas ocupadas, e uma suave música instrumental flutuava no ambiente. Nenhum cliente parecia lhe dar muita atenção. E isso, para Diego, era perfeito.

Caminhou até uma mesa ao lado da janela, onde o sol se projetava morno sobre o encosto da cadeira. Sentou-se sem olhar diretamente para ninguém, deixando seu casaco no encosto. Observou através do vidro embaçado, como se no reflexo da cidade pudesse encontrar respostas para as perguntas que carregava há anos.

Não soube quanto tempo se passou antes que uma voz feminina o trouxesse de volta.

- Bom dia. Deseja o menu do dia ou quer ver o cardápio?

Levantou o olhar.

Quase parou o coração.

Lá estava.

Camila.

Mas não como a lembrava. Já haviam se passado quase dez anos, e o tempo havia deixado suas marcas nela. O cabelo preso em um rabo de cavalo baixo, fios soltos emoldurando um rosto sereno, mas cansado. Usava um avental bege amarrado com descuido na cintura, e seu olhar... seu olhar já não brilhava com aquela faísca de juventude que tanto o havia apaixonado.

E, ainda assim, era ela.

Diego sentiu um nó na garganta. Não conseguia falar. Não ainda. Precisava se conter. Precisava estudar a situação, entender em que momento seus caminhos haviam se cruzado novamente tão silenciosamente.

- O menu do dia está bom - conseguiu dizer com uma voz firme, quase monótona.

- Já volto - respondeu ela, virando-se.

Nem um pingo de reconhecimento. Nada em seu tom, nem em sua expressão, nem mesmo em seu andar. Para ela, ele era apenas mais um cliente. Um de tantos.

Diego apertou os punhos sob a mesa.

Será que realmente não o reconheceu? Ou estava apenas fingindo indiferença?

Enquanto ela desaparecia entre a cozinha e as mesas, ele a seguiu com o olhar. Observava cada movimento, cada gesto. Havia nela uma tristeza suave, uma que provavelmente passaria despercebida para qualquer outra pessoa. Mas não para ele. Ele a conhecia. Amava cada parte dela. Aquela respiração no final da frase, o costume de franzir a testa quando pensava em algo... ainda era a sua Camila, embora já não lhe pertencesse.

Os minutos se passaram. Um garçom trouxe uma xícara de café e um prato com torradas, pedindo desculpas porque a moça estava ocupada. Diego não respondeu, apenas moveu a cabeça. Havia se perdido novamente em seus pensamentos quando uma vozinha aguda o tirou do devaneio.

- Olá! É você?

Levantou o olhar. À sua frente estava a mesma menina do parque.

Sofía.

Seus olhos cinzas, idênticos aos dele, o observavam com uma mistura de alegria e familiaridade.

- Claro que sim - respondeu Diego com um sorriso quase involuntário -. Desenhou outro dinossauro?

A menina assentiu com entusiasmo e tirou uma folha dobrada do bolso.

- Esse voa! Tem asas e solta fogo. Olha.

Ela mostrou com orgulho o desenho, feito com lápis de cor. Diego o pegou com cuidado, como se estivesse segurando algo frágil e precioso.

- É incrível. Deu nome a ele?

- Ele se chama "Rafador". Como Ráfaga e Dragão, entendeu?

- Perfeito para um dinossauro tão corajoso.

A menina sorriu. E, nesse momento, uma figura apareceu atrás dela.

- Sofía, de novo incomodando os clientes?

A voz foi suave, mas firme.

Camila.

A mulher se aproximou com um pano úmido na mão. Estava com a testa ligeiramente franzida e um olhar de repreensão maternal. Ao ver sua filha ao lado do homem, seus olhos se desviaram para ele com a intenção de pedir desculpas, mas algo mudou.

Ela parou.

Seu rosto empalideceu ligeiramente.

Seus olhos se arregalaram com um brilho de dúvida.

E então ela soube.

Ela soube.

Ela o reconheceu.

- Diego...? - disse com uma voz baixa, como se não acreditasse no que seus próprios olhos estavam vendo.

Diego a olhou, sem pronunciar uma palavra. Não precisava. Sua expressão dizia mais que mil palavras. A intensidade de seu olhar, o tremor em suas mãos, o gesto amargo de seus lábios. Tudo nele gritava uma única coisa: sim, sou eu.

Camila deu um passo para trás. O pano úmido caiu no chão, molhando o sapato de Sofía.

- Não pode ser...

Sofía, alheia ao momento, franziu a testa.

- Mamãe? Você o conhece?

Camila não respondeu. Seus olhos permaneciam fixos nos dele, como se tentasse encontrar o jovem de vinte anos que um dia a amou loucamente. O mesmo que jurou nunca a deixaria sozinha. O mesmo que, no final, não soubera que seu mundo desmoronaria por uma mentira.

Diego se levantou lentamente. Devolveu o desenho à menina e murmurou:

- Obrigado pelo dinossauro, Rafador é o meu favorito agora.

Então se virou para Camila. Seus lábios se separaram, como se fosse dizer algo, mas mudou de ideia. Não era o momento. Não ali. Não na frente dela. Não com a menina observando cada movimento.

Deixou alguns bilhetes sobre a mesa e caminhou até a porta. Antes de sair, parou por um segundo, sem se virar.

- Nos vemos em breve - disse, com um tom tão carregado de emoções que gelou o sangue de Camila.

A campainha tocou novamente.

E o passado, aquele que Camila havia tentado enterrar com tanto esforço, acabava de entrar pela porta do restaurante sem pedir permissão.

                         

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