Lo que o destino nos roubou
img img Lo que o destino nos roubou img Capítulo 4 Olhos que Reconhecem
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Capítulo 6 O que fazer se ele voltar a aparecer img
Capítulo 7 A menina dos domingos img
Capítulo 8 Fúria enterrada img
Capítulo 9 As ruínas do amor img
Capítulo 10 Não poderia continuar escondendo-as img
Capítulo 11 Estou grávida img
Capítulo 12 Não vou permitir que ela as machuque img
Capítulo 13 A arte da guerra img
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Capítulo 4 Olhos que Reconhecem

A cidade amanhecia com seu ritmo habitual de buzinas, passos apressados e murmúrios nas esquinas. Camila já estava de pé antes do sol nascer, como todos os dias. Preparava o café da manhã enquanto Sofía terminava de se arrumar para a escola. Era quarta-feira, um daqueles dias em que a rotina se tornava aliada: sem sobressaltos, sem grandes preocupações.

- Posso ir te esperar na cafeteria depois da escola? - perguntou Sofía enquanto ajustava sua mochila.

- Hoje não, filha. Tenho turno duplo e não quero que você fique entediada lá por tanto tempo. Melhor ficar em casa com a dona Luisa - respondeu Camila enquanto a penteava com ternura.

Mas Sofía já tinha outra ideia em mente.

Ultimamente, sentia uma espécie de inquietação. Uma mistura de curiosidade e desejo de saber mais sobre sua história, especialmente sobre seu pai. Embora sua mãe evitasse o tema, ela não era boba. Sabia ler nas entrelinhas. Percebera como, sempre que perguntava, os olhos de sua mãe ficavam um pouco mais tristes.

Naquele dia, após as aulas, Sofía não voltou direto para casa. Caminhou até a cafeteria, como já fizera outras vezes. Sabia a hora em que sua mãe atendia as mesas do fundo. Se acomodou em uma das mesas perto da janela, sem ser vista. Só queria observá-la um pouco. Sentir que estava perto.

E foi então que ele entrou.

Diego Montenegro não costumava parar em cafeterias pequenas. Mas naquele dia, algo o fez cruzar a porta. Talvez o cansaço, talvez a nostalgia. Estava no meio de um dia de reuniões com desenvolvedores, advogados e arquitetos. Sua empresa já havia adquirido mais da metade do bairro. Faltavam poucos passos para concretizar o projeto completo. E ainda assim, não conseguia evitar a sensação de vazio.

Entrou no local sem olhar demais. Sentou-se em uma mesa, deixou o celular de lado e pediu um café preto sem açúcar. Queria alguns minutos de silêncio.

Sofía o observou de seu canto. Não sabia quem ele era. Só notou que o homem tinha uma expressão séria, elegante e... familiar. Havia algo nele que fez com que ela ficasse olhando um pouco mais do que o normal.

Diego também a percebeu.

A pequena, sentada sozinha, com um caderno aberto à sua frente e um lápis entre os dedos. Desenhava. Figuras simples, mas cheias de emoção. Quando seus olhares se cruzaram, Diego sentiu um arrepio que não soube explicar.

- Você está sozinha? - perguntou, com tom amável.

- Sim... só um pouquinho - respondeu Sofía, sem medo, com aquela mistura de timidez e coragem que as crianças curiosas têm.

- O que você está desenhando?

Ela lhe mostrou o papel. Era um esboço de uma mulher e uma menina caminhando por um parque. Nada muito elaborado, mas terno.

- É minha mãe e eu.

Diego sorriu. Havia doçura em seus traços. E algo mais... algo que o desconcertou. Aqueles olhos cinzentos.

- Como você se chama? - perguntou, embora sua voz tenha saído um pouco tensa sem saber o motivo.

- Sofía - disse ela. - E você?

- Diego.

Houve um breve silêncio. Uma estranha sensação de reconhecimento sem explicação. Diego não sabia por que sentia que conhecia aquela menina. Não apenas pelos olhos. Era algo mais. Uma energia. Uma calma parecida com a que ele algum dia conheceu e perdeu.

- Minha mãe trabalha aqui - acrescentou Sofía de repente. - Mas ela não sabe que eu vim. Ela disse para eu não vir hoje, mas... eu gosto de vê-la quando está ocupada. Às vezes ela não percebe.

Diego assentiu. Seu olhar se desviou para o fundo do local. Nesse momento, Camila saiu com uma bandeja nas mãos, atendendo alguns clientes. Não viu Sofía. Não viu Diego.

Ele também não a viu direito. Apenas captou sua figura de costas e depois ela desapareceu atrás de uma cortina.

- Você deve gostar muito dela - comentou, sem saber muito bem o que dizer.

- Sim. Ela é a coisa mais importante que eu tenho.

E algo dentro dele se estremeceu novamente.

Diego se levantou logo depois. Deixou o dinheiro do café na mesa sem esperar o troco. Olhou uma última vez para Sofía, que lhe dedicou um pequeno sorriso.

- Cuide bem desse desenho - disse antes de sair.

Ela assentiu, guardando-o como se fosse um tesouro.

Minutos depois, Camila apareceu com a bandeja vazia e, pela primeira vez, percebeu que Sofía estava ali.

- Sofía! O que você está fazendo aqui? Eu te disse para não vir hoje!

- Desculpa... eu só queria ficar um pouco com você.

Camila a abraçou, ainda agitada. Não perguntou mais nada. Não suspeitou de nada. Não percebeu o copo de café ainda quente sobre a mesa onde Sofía se sentou.

E assim, sem saber, o passado e o presente haviam cruzado seus caminhos.

Uma menina de olhos cinzentos.

Um homem com o coração endurecido.

Uma mulher que ainda guardava segredos impossíveis de confessar.

E o destino, que já começara seu jogo.

Diego Montenegro não acreditava em coincidências. Ele tinha chegado longe demais para deixar o acaso guiar suas decisões. Tudo em sua vida era meticulosamente planejado: os números, os contratos, as fusões. Ele era o arquiteto do próprio destino, ou pelo menos, era nisso que escolhera acreditar. No entanto, desde aquele café pequeno e esquecido, algo dentro dele começava a se desordenar.

Aquela menina... seu jeito de falar, seu sorriso. Ele não conseguia parar de pensar em seus olhos. Havia algo naquele olhar que o inquietava. Era absurda a ideia, repetiu para si mesmo várias vezes. Não podia ser. E, no entanto, desde aquela tarde, Diego não conseguia passar um único dia sem voltar mentalmente àquele instante. Sofía.

Já fazia uma semana desde aquele encontro.

Diego estava em seu escritório temporário, um penthouse alugado no centro financeiro da cidade. Da enorme parede de vidro, tinha uma vista privilegiada dos bairros pobres que logo seriam demolidos. Ali mesmo, entre ruas rachadas e prédios antigos, planejava construir seu projeto estrela: um complexo de torres residenciais de luxo com centros comerciais, academias e espaços "verdes" que fariam esquecer que um dia ali existiram vidas humildes.

- O que temos sobre o quarteirão quatro? - perguntou Diego sem levantar os olhos do laptop.

- Ainda restam três negócios sem vender - informou seu assistente, Iván, enquanto deixava uma pasta sobre a mesa. - Entre eles, uma pequena cafeteria, uma galeria de arte e uma livraria familiar. Todos com contratos antigos, proprietários resistentes. Há certa oposição local.

Diego abriu a pasta e parou na imagem do local que já conhecia. O mesmo onde havia entrado quase por impulso. Reconheceu a fachada de tijolos, o toldo creme, a placa modesta: Café El Retorno.

- Este é o mesmo lugar onde estive na semana passada?

- Sim, senhor. Exatamente este.

Diego semicerrrou os olhos.

- Descubra quem administra. Quero nome completo, histórico, e se há alguma dívida ou irregularidade que possamos usar como pressão. Se alguém vai atrasar este projeto, preciso saber com quem estou lidando.

Iván assentiu e saiu do escritório sem mais perguntas.

Diego recostou-se na cadeira. Acendeu um cigarro, algo que raramente fazia em ambientes internos, e permitiu-se um momento de silêncio. Havia algo que não se encaixava. Desde que voltou àquela cidade, as lembranças estavam mais nítidas, mais ruidosas. Cada rua que percorria trazia fragmentos de outro tempo. E entre essas memórias, uma brilhava com uma intensidade incômoda: Camila Valdez.

Durante anos, ele tentara enterrá-la na memória. Renegara seu nome, seu rosto, cada promessa adolescente que compartilharam em quartos alugados e bancos de praças. Mas Camila era o tipo de ferida que não cicatrizava; apenas se cobria com outras. E agora, sem querer, sentia sua presença de novo.

Tentou focar no trabalho. Tinha reuniões, investidores, prazos. Mas, à medida que os dias passavam, algo o arrastava de novo para aquela cafeteria. Não era só curiosidade. Era uma sensação surda, como um aviso que ainda não tomava forma.

Naquela noite, enquanto revisava documentos em seu apartamento, recebeu um e-mail de Iván com as informações solicitadas. Abriu o arquivo anexo e leu:

Nome: Camila Alejandra Valdez

Idade: 28 anos

Profissão: Sem diploma universitário registrado

Ocupação atual: Garçonete – Café El Retorno

Situação financeira: Aluguel modesto, sem propriedades. Mãe solteira. Uma filha registrada: Sofía Valdez.

Diego ficou imóvel.

O nome o atingiu como um tiro no escuro. Camila.

Leu de novo. Leu dez vezes. E então desceu até a informação da filha. Sofía. Sentia como se o chão tivesse desaparecido sob seus pés.

Fechou o arquivo e se levantou, caminhando de um lado para o outro. Não podia ser. Camila. Ali. Naquele lugar. Desde quando? Por quê?

As perguntas se atropelavam sem resposta.

O que ela fazia de volta naquela cidade? O que acontecera com sua vida todos aqueles anos? Por que... por que havia uma menina com seus olhos?

Sua primeira reação foi de raiva. Uma fúria contida que guardara por anos e que agora começava a rachar sua máscara de autocontrole. Ele a odiara. Culpou-a por tudo. Por tê-lo abandonado, por tê-lo mentido, por dizer-lhe que havia perdido seu filho. Essa foi a razão pela qual partiu. Pela qual decidiu arrancar a alma e transformá-la em gelo.

E, no entanto... se aquela menina fosse sua.

O pensamento o atravessou como um punhal.

Sentou-se novamente, com as mãos apertadas sobre as coxas. Queria entender. Precisava saber. Mas não podia agir impulsivamente. Ainda não.

Ele tinha poder. Tinha recursos. Tinha tudo para pressionar, investigar, chegar ao fundo do assunto sem que ninguém soubesse. E era isso que faria. Não descansaria até confirmar o que começava a suspeitar.

O passado não estava enterrado. Nunca esteve.

Só estava esperando o momento certo para voltar a cobrar contas.

E esse momento, finalmente, havia chegado.

            
            

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