Ela estava sozinha, grávida, com apenas algumas malas e um sobrenome que já não pesava tanto como antes. Don Ernesto lhe deu o suficiente para se instalar, exigiu que ela não usasse o sobrenome em nenhum documento oficial e deixou claro que não queria "escândalos" que pudessem manchar a imagem da família. Prometeu ajuda apenas se ela se mantivesse obediente e discreta. Camila não tinha muitas opções.
Passava os dias entre náuseas, longos silêncios e tardes olhando pela janela, abraçando uma almofada como se pudesse substituir a ausência de Diego. Não conseguia parar de pensar nele. Na sua reação ao ouvir a mentira, na sua voz quebrada ao lhe dizer que não acreditava nela, na forma como ela mesma teve que apagar seu coração para proteger algo maior: a vida que crescia dentro dela.
A gravidez avançava lentamente, mas ela sentia o tempo passar muito rápido. Começou a desenhar novamente, não por inspiração, mas por necessidade. Era a única maneira de liberar tudo o que não conseguia dizer em voz alta. Fazia retratos de Diego de memória e os escondia em uma caixa de sapatos que guardava embaixo da cama.
No oitavo mês, chegou uma carta de sua mãe. Uma página única, sem muitas palavras. "Espero que você esteja bem. Papai está mais calmo. Não faça bobagens. Não volte." Era tudo. Camila leu várias vezes. Rasgou. Colou. Rasgou de novo. Ninguém a entendia.
Na noite em que rompeu a bolsa, estava sozinha. Eram três da manhã. Sentiu uma dor aguda que a fez se dobrar sobre si mesma. Não gritou. Não havia ninguém para ouvi-la. Colocou um roupão, pegou sua bolsa e chamou um táxi. No hospital, perguntaram sobre o pai do bebê. Ela disse que ele estava morto. Que não havia ninguém.
Após horas de dor, choro e medo, nasceu Sofía.
E, assim que a viu, tudo mudou.
Ela era pequena, com uma mecha de cabelo escuro e olhos tão cinzentos quanto os de Diego. Tão profundos, tão familiares, que Camila rompeu em lágrimas. A abraçou contra o peito e prometeu que nada nem ninguém a arrancaria dela jamais. Não importava o sobrenome, o dinheiro, nem o que dissessem. Aquela menina era dela. Seu motivo. Sua verdade.
Os dias na maternidade foram tranquilos. Pela primeira vez, Camila não pensou no passado, apenas naquele corpinho que dormia em seus braços. Falava baixinho com ela, cantava músicas que sua mãe lhe ensinara quando criança. Cada vez que Sofía abria os olhos, Camila sentia que Diego estava um pouco mais perto.
Voltar para casa com um recém-nascido não foi fácil. Os primeiros meses foram um caos de fraldas, choros e noites em claro. Mas também foi a etapa mais honesta da sua vida. Ela não vivia mais para cumprir expectativas. Vivía para cuidar de sua filha. E isso já era o suficiente.
Para sobreviver, Camila começou a vender ilustrações sob encomenda. No começo, eram coisas simples: retratos de animais de estimação, nomes decorados para quartos infantis, cartões artesanais. Aos poucos, ela foi ganhando um nome no pequeno circuito de artistas independentes da cidade.
Com o tempo, encontrou um trabalho de meio período em uma galeria de arte comunitária. Não era muito, mas dava para manter Sofía com dignidade. Levava a menina em uma mochila, a fazia dormir em um canto enquanto organizava exposições ou pendurava quadros alheios.
Camila aprendeu a ser mãe, artista, mulher independente... tudo ao mesmo tempo.
Os anos passaram. Sofía cresceu curiosa, alegre e observadora. Tinha o caráter forte de sua mãe e o olhar firme de seu pai, embora nunca soubesse quem ele era. Sempre que perguntava por ele, Camila respondia com evasivas. Dizia que ele era alguém que não estava preparado, que preferia não falar sobre isso. Sofía não insistia, mas algo em seu coração sempre a fazia voltar a essa pergunta.
Voltar para sua cidade natal não foi uma decisão fácil para Camila. Durante anos, jurou que jamais voltaria. Muitos recuerdos, muitas feridas abertas. Mas quando Sofía completou cinco anos e o dinheiro já não dava para pagar nem o aluguel em Buenos Aires, ela entendeu que não tinha opção. Seu pai ainda morava naquela cidade, sim, mas ela não pensava em procurá-lo. Voltara por necessidade, não por nostalgia.
Encontrou um pequeno apartamento nas periferias. Velho, com umidade nas paredes, mas longe o suficiente da zona nobre para que ninguém do passado a reconhecesse. Não tinha contatos, nem diploma universitário, nem um currículo brilhante. Só tinha sua filha e uma determinação que já não se quebrava tão facilmente.
Conseguiu trabalho em uma cafeteria no centro como garçonete. O salário era justo para sobreviver, mas ela não se queixava. Todo dia deixava Sofía em uma escolinha pública e corria para o restaurante. Aprendeu rápido a equilibrar bandejas, a tomar pedidos sem errar e a sorrir, mesmo quando o único que queria era chorar de tanto cansaço.
A maioria dos seus colegas eram jovens como ela, alguns estudantes, outros mães solteiras também. Havia uma espécie de irmandade silenciosa entre elas, como se entendessem que, embora o mundo as tratasse com dureza, nenhuma estava completamente sozinha.
Camila escondia sua história. Quando perguntavam de onde ela vinha, dizia simplesmente que tinha vivido "fora por um tempo". Nunca mencionava Diego. Nunca falava do sobrenome Valdez. Havia apagado tudo isso de sua vida como quem arranca uma página do caderno.
As noites eram mais duras. Chegava em casa com os pés inchados e as mãos doloridas. Sofía a esperava com desenhos e um sorriso que fazia ela esquecer o resto. Brincavam um pouco, jantavam algo simples - arroz com ovo, macarrão com manteiga - e depois dormiam juntas na mesma cama. Às vezes, na escuridão, Camila a acariciava e pensava em tudo o que havia perdido... e em tudo o que ainda poderia proteger.
Sofía crescia rápido. Era curiosa, esperta e muito parecida com Diego. Às vezes, Camila a olhava e o coração apertava. A menina tinha os mesmos olhos cinzentos, a mesma maneira de franzir a testa quando algo não gostava. Mas também tinha doçura, sensibilidade... uma mistura que só tornava mais dolorosa a ausência de seu pai.
Um dia, enquanto lavavam os pratos, Sofía perguntou:
- Mamãe, todo mundo tem pai?
Camila parou por um segundo, olhando as bolhas na água.
- Sim, filha. Todo mundo tem. Mas às vezes... nem todos podem estar com eles.
Sofía não perguntou mais. Mas, a partir dali, começou a desenhar figuras com três pessoas. Um homem alto, uma mulher de cabelo longo e uma menina no meio. Camila guardava todos eles em uma caixa de sapatos, a mesma onde um dia escondeu retratos de Diego.
Os anos seguiram passando. Camila começou a colaborar em uma pequena galeria de arte, primeiro ajudando com tarefas simples, depois pintando murais para eventos locais. Ainda trabalhava como garçonete, mas aquele cantinho artístico era seu alívio. Sua vida não era perfeita, mas ela aprendeu a encontrar beleza no simples.
Nunca mais soube de Diego. Procurou-o uma única vez, quando Sofía ainda era um bebê, apenas para confirmar que ele havia saído do país. Desde então, proibiu-se de pensar muito nele. Não porque o tivesse esquecido, mas porque recordar doía.
Mas havia algo que nem o tempo nem a distância podiam apagar: o medo. Camila sabia que, se algum dia Diego descobrisse a verdade, todo o seu mundo poderia desmoronar. Por isso, evitava lugares onde pudesse ser vista, mantinha um perfil baixo e ensinava a filha a não chamar atenção.
O que ela não sabia... é que o passado já estava a caminho.
Diego Montenegro, agora um empresário poderoso, estava prestes a voltar à cidade com intenções muito claras.
E que o destino, que ela tanto tentou evitar, tinha outros planos.