A cirurgia foi um sucesso. Eu sabia que sim, mesmo antes da enfermeira me dizer. Eu podia sentir na energia aliviada que zumbia do lado de fora do meu quarto. O Sr. Almeida ia ficar bem. Eu tinha conseguido. Eu o tinha salvado.
Eu tinha garantido o nosso para sempre.
Diana entrou mais tarde naquela tarde. Ela não estava usando o suéter macio que eu amava, aquele que cheirava ao seu perfume de lavanda. Ela estava vestida com um terninho azul-marinho elegante, o cabelo preso tão firmemente que parecia esticar a pele ao redor dos olhos. Ela não parecia minha noiva vindo sentar ao meu lado. Parecia uma CEO prestes a fechar um negócio.
Ela não me beijou. Apenas ficou parada aos pés da minha cama, a bolsa apertada nas mãos como um escudo.
"Meu pai está acordado", disse ela, a voz sem expressão. "O rim está funcionando perfeitamente. Os médicos estão muito otimistas."
"Isso é ótimo, Di", consegui dizer, minha voz rouca. Tentei me levantar, mas a dor nos pontos era agonizante. "Isso... isso é tudo que importa."
"Sim", disse ela. "É."
O silêncio que se seguiu foi pesado, sufocante. Não era o silêncio confortável de duas pessoas apaixonadas. Era o silêncio de um tribunal antes da leitura do veredito.
"Estou tão feliz por ter feito isso por você, pela sua família", eu disse, tentando preencher o vazio. "Agora podemos finalmente só... ficar juntos."
A expressão de Diana não mudou.
"Sobre isso, Dani."
Meu sangue gelou.
"Eu não posso me casar com você", disse ela. As palavras foram secas, precisas e totalmente desprovidas de emoção. Elas caíram no quarto silencioso como pedras em um poço profundo.
Eu a encarei, certo de que isso era alguma alucinação cruel pós-anestesia.
"Do que você está falando? Você bateu a cabeça? A gente vai se casar em três meses."
"Não", disse ela, balançando a cabeça lentamente. "Não vamos."
"Mas... por quê?" A pergunta foi um sussurro cru. A dor na minha lateral não era nada comparada ao peso esmagador que de repente pressionava meu peito. "Eu não entendo. Eu fiz. Eu fiz o que você pediu. Eu salvei seu pai."
Um lampejo de algo - irritação, talvez? - cruzou seu rosto.
"E por isso, minha família será eternamente grata. Nós cobriremos todas as suas despesas médicas, é claro. E meu pai abriu um fundo para você. É bem generoso."
Um fundo? Despesas médicas? Ela estava falando comigo como se eu fosse um funcionário recebendo um pacote de demissão, não o homem com quem ela deveria passar a vida. Não o homem que tinha uma incisão de quinze centímetros na lateral e um órgão a menos por causa dela.
As peças começaram a se encaixar, afiadas e dolorosas. A maneira como ela me fez fazer os exames sem meu conhecimento. A maneira como ela enquadrou isso como um teste de amor. O terninho.
Minha voz tremeu.
"Esse sempre foi o plano, não foi? Pegar o rim, depois se livrar de mim."
Ela teve a decência de desviar o olhar, fixando-o no soro ao lado da minha cama.
"Não era para ser assim. Mas as coisas mudam."
"Que coisas?", exigi, minha voz falhando. "O que poderia ter mudado entre eu entrar na cirurgia e agora?"
Ela finalmente encontrou meus olhos, e a frieza neles era absoluta.
"O Eugênio voltou."
Eugênio Vasconcelos. Claro. Seu ex-namorado rico e arrogante da faculdade. Aquele com quem a mãe dela sempre disse que ela deveria ter ficado. Aquele que dirigia um Porsche e tinha uma casa de veraneio em Ilhabela. Aquele com quem eu nunca poderia competir.
"Ele veio ao hospital quando soube do meu pai", ela continuou, a voz se suavizando pela primeira vez, mas não por mim. "Ele foi tão solidário, tão forte. Ele me lembrou de como minha vida deveria ser. Do que nossa família precisa."
"E o que é isso?", engasguei. "Alguém que pode te comprar coisas? Eu trabalho duro, Di. Eu teria te dado tudo."
"Você já deu", disse ela, e a crueldade daquilo me tirou o fôlego. "Você deu ao meu pai uma segunda chance na vida. Isso é mais do que suficiente. Mas você não pode me dar o mundo ao qual eu pertenço, Dani. O Eugênio pode."
O quarto de hospital estéril começou a girar. O bipe rítmico do monitor cardíaco acelerou, uma trilha sonora frenética para o meu mundo se despedaçando. Eu tinha sido uma ferramenta. Um meio para um fim. Meu sacrifício não foi uma prova do nosso amor; foi o preço da saúde do pai dela e a minha taxa de saída.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e inúteis. O amor que eu sentia por ela estava se transformando em algo tóxico e amargo no meu estômago.
"Então é isso?", sussurrei, as palavras rasgando minha garganta. "Você me usa, pega uma parte do meu corpo e depois me joga fora por ele?"
"Não seja tão dramático", disse ela, a voz ficando afiada novamente. "Você é um bom homem, Dani. Você vai ficar bem. O fundo garantirá que você fique confortável."
Ela colocou um envelope branco e impecável na mesa de cabeceira.
"Isso é do meu pai. Um agradecimento."
Ela se virou para sair.
"Diana", chamei, minha voz embargada.
Ela parou na porta, de costas para mim.
"Eu te amava", eu disse, as palavras parecendo cinzas na minha boca.
Ela não respondeu. Apenas abriu a porta e saiu, me deixando sozinho com o buraco na minha lateral e o buraco ainda maior que ela acabara de rasgar na minha vida. O bipe constante do monitor era o único som, cada pulso marcando mais um segundo do meu novo e vazio para sempre.