Apertei o telefone com mais força.
- Ele me traiu, mãe. E eu perdi o bebê por causa dela.
- Um bebê pode ser substituído! - ela gritou, as palavras um golpe de marreta no meu peito. - Mas um marido como o Caio? Nunca! Se você se divorciar dele, juro por Deus, Alice, eu vou... eu vou acabar com tudo. Seu pai e eu, não sobreviveremos à vergonha!
Meu pai, ao fundo, interveio com sua habitual submissão covarde.
- Sua mãe está certa, querida. Pense em nós. Pense na nossa reputação. O que as pessoas vão dizer?
Caio estava parado na porta, ouvindo, um leve sorriso presunçoso brincando nos lábios. Ele não interveio. Ele não me defendeu. Ele simplesmente deixou meus pais me despedaçarem, usando as ameaças deles como alavanca, um cúmplice silencioso na chantagem emocional deles.
- Deus, Alice, por que você simplesmente não mandou eles pro inferno? - perguntou Camila agora, a voz tensa de frustração enquanto estávamos sentadas no banco de trás do carro preto elegante de Caio. Ele insistiu em nos levar para casa, e Camila, sempre pragmática, aceitou para evitar uma cena. A postura rígida dele ao volante era quase cômica, um contraste gritante com seu comportamento suave anterior.
- Você não entende, Camila - suspirei, esfregando as têmporas. - Você não tem pais como os meus. Eles não teriam simplesmente "deixado pra lá". Eles teriam feito da minha vida um inferno. Eles teriam ido a público. Eles teriam destruído tudo.
Lembrei-me das inúmeras vezes que tentei deixá-los orgulhosos. As noites estudando, as notas perfeitas, a empresa de design de interiores de prestígio que construí do zero. Nunca foi o suficiente. Apenas Caio, sua riqueza, seu status, pareciam satisfazer a ganância insaciável deles. Ele era a "vaca leiteira" deles, como minha mãe colocou tão delicadamente. Eu era apenas o recipiente.
- Ele me prometeu o mundo, sabe - murmurei, as palavras com gosto amargo. - Antes do casamento. Ele disse que tinha encontrado sua alma gêmea. Que me protegeria de tudo, até da minha própria família.
Camila zombou.
- E que ótimo trabalho ele fez.
Minha memória vagou para uma noite fria de inverno, pouco depois de nos casarmos. Eu tinha chegado tarde de um projeto, exausta. Caio já estava na cama. Quando tentei me aconchegar, ele recuou.
- Alice - disse ele, a voz monótona. - Você engordou. Você não está tão... radiante como costumava ser. Não é atraente.
As palavras pareceram gelo nas minhas veias, frias e cortantes, uma contradição gritante com os doces sussurros de amor que ele proferira poucos meses antes.
Um arrepio repentino percorreu meu corpo, apesar do calor do carro. O ar condicionado estava no máximo, mas parecia um pavor frio.
- Você está bem? - A voz de Caio cortou meus pensamentos. Ele encostou o carro no meio-fio, a preocupação gravada em suas feições. Ele se virou para trás, um gesto quase terno, para ajustar a saída de ar. Os dedos dele roçaram meu braço.
Uma parte de mim, a parte velha e ferida, queria se inclinar para aquele toque fugaz, acreditar na ilusão de cuidado. Mas a nova Alice, forjada no fogo, sabia melhor. O toque dele parecia uma mentira. Um ato calculado.
Lembrei-me de outro momento, depois de termos nos reconciliado de um de seus "erros" anteriores. Ele se ajoelhou diante de mim, os olhos cheios do que pareciam lágrimas. "Alice, você é meu tudo. Não posso viver sem você. Vou te amar para sempre." Essas palavras foram tão doces, tão convincentes. Assim como as que ele sussurrou no ouvido de Bia, provavelmente.
Então, pouco antes da traição final, ele rosnou para mim: "Você é tão ingênua, Alice. Você realmente achou que eu ficaria com apenas uma mulher, quando o mundo está aos meus pés? Você é chata. Ela é excitante." A memória era uma ferida purulenta, ainda capaz de me fazer estremecer.
Puxei meu braço bruscamente, quebrando o contato.
- Estou bem, Caio. Só com frio.
A mão dele pairou no ar por um momento, depois caiu no volante. Um lampejo de algo, decepção talvez, cruzou o rosto dele antes que ele o mascarasse. Ele suspirou, um som pesado e teatral.
- Você sempre amou chocolate quente depois de um longo dia - disse ele, a voz mais suave, quase nostálgica. - Com chantilly extra. Eu me lembro.
Camila, que estava fumegando silenciosamente, interveio:
- Ah, é mesmo? Você se lembra disso? Engraçado, não me lembro de você se lembrar de muito mais sobre a Alice quando importava. - O sarcasmo dela pingava como ácido.
O silêncio voltou, mais pesado desta vez. Caio apertou o volante, os nós dos dedos brancos. Ele olhou pelo espelho retrovisor, os olhos encontrando os meus por uma fração de segundo, um apelo silencioso em suas profundezas.
Então, o celular dele vibrou no console. Ele olhou para a tela e o rosto endureceu instantaneamente. Era a Bia.
Ele atendeu, colocando no viva-voz.
- O que foi, Bia? Estou ocupado. - A voz dele era curta, impaciente.
- Ocupado? - A voz de Bia, estridente e distorcida pelo alto-falante, arranhou meus ouvidos. - Ocupado com ela, não é? Não minta para mim, Caio! Eu sei que você está com a Alice! Eu vi vocês! Como você ousa me deixar sozinha depois do que passamos? Você está tentando me machucar de novo? Você está tentando me fazer perder este também? - A voz dela escalou para um lamento histérico.
Meu estômago revirou. *Este também?* As palavras pairaram pesadas no ar, um eco arrepiante do meu próprio filho perdido. Ele estava fazendo fertilização in vitro com ela. Ele estava tentando dar a ela a família que destruiu tão descuidadamente comigo.
O carro se encheu com os gritos angustiados dela, as acusações pintando a imagem de uma mulher paranoica e desesperada.
- Você é obcecado por ela, não é? - Bia gritou, a voz tremendo de raiva. - Você ainda a quer! Eu vi o jeito que você olhou para ela! Você é um mentiroso, Caio Bittencourt! Um mentiroso patético e traidor!
Caio estremeceu, o rosto uma máscara de irritação e raiva crescente. Essa era a vida perfeita dele agora. A fachada cuidadosamente construída do marido devoto, desmoronando sob o peso de sua própria criação. O som do choro desesperado dela, ecoando no espaço confinado do carro, era uma sinfonia de sua própria autoria.
Ele ainda estava ouvindo, ainda suportando a tirada dela. E eu só queria sair. Eu queria correr e nunca mais olhar para trás. Ele fez a cama dele, agora tinha que deitar nela. Mas as palavras dela, "perder este também", pousaram como um soco. Isso era uma tragédia esperando para acontecer.