- Irracional? - A risada dela foi um som áspero e quebrado. - Você me chama de irracional depois do que você fez? Depois do que ela fez? Você me deixou sozinha! Sozinha, Caio! Você sabe o quanto estou com medo?
Mari, que estava ouvindo silenciosamente do banco do passageiro da frente, finalmente falou, uma risada nervosa escapando dela.
- Uau, parece que alguém está tendo uma noite difícil. Talvez você deva ligar para ela de volta quando as coisas estiverem mais calmas, Caio.
Caio lançou a Mari um olhar fulminante. O rosto dele era uma nuvem de tempestade, a irritação claramente transbordando. Sem outra palavra, ele pegou o telefone do console e encerrou a chamada, o clique abrupto reverberando pelo carro. Ele nem olhou para nós.
- Bem - disse Mari, tentando aliviar o clima -, isso foi... um final dramático para a festa. - Ela se virou no banco. - Obrigada pela carona, Caio, mas acho que vou chamar meu próprio táxi daqui. Isso parece uma conversa privada. - Ela saiu rapidamente do carro, sua fuga um comentário silencioso sobre o caos que acabara de testemunhar.
A tensão no carro aumentou um nível. Caio permaneceu em silêncio, o olhar fixo na estrada à frente.
- Posso deixar vocês duas em casa - ofereceu ele, a voz desprovida de emoção. - É caminho.
- Não, obrigada - retrucou Camila. - Vamos pegar um táxi também. Preferimos não ficar no meio das suas disputas domésticas, Caio. - Ela alcançou a maçaneta da porta.
- Esperem. - A voz de Caio soou repentinamente urgente. - Alice, podemos conversar? Só por um minuto?
Camila parou, depois suspirou, olhando para mim.
- Alice, o que você quer fazer?
Hesitei. Uma parte de mim só queria correr, colocar a maior distância possível entre mim e esse homem. Mas outra parte, a parte teimosa e resiliente, sabia que a fuga não o faria desaparecer. Não esta noite, de qualquer maneira.
- Tudo bem - disse eu, minha voz mal passando de um sussurro. - Mas seja rápido.
Camila me lançou um olhar que gritava silenciosamente: *Não se atreva a cair na conversa fiada dele*. Mas ela fechou a porta, sinalizando para eu fazer o mesmo.
Caio colocou o carro em ponto morto, desligando o motor. O silêncio repentino foi ensurdecedor. Ele se virou para me encarar, os olhos suplicantes.
- Alice, eu... eu nunca quis que nada disso acontecesse. O que a Bia acabou de dizer... ela não está bem. Os tratamentos de fertilização in vitro, estão cobrando seu preço.
Camila zombou novamente.
- Ah, a pobre e delicada Bia. Sempre a vítima, não é? Assim como há cinco anos, quando ela empurrou uma mulher grávida da escada.
Caio estremeceu, o corpo ficando rígido. Ele fechou os olhos por um momento, uma onda do que parecia dor genuína lavando seu rosto.
- Foi um acidente! - ele disse com a voz rouca. - Alice, você sabe disso. Você estava com tanta raiva, você avançou nela. Ela apenas reagiu. Foi tudo um acidente terrível.
Balancei a cabeça, um gosto amargo enchendo minha boca.
- Um acidente? Você realmente acredita nisso, Caio? Você ficou lá, me vendo sangrar, enquanto a consolava. Você deixou sua assistente, a mulher com quem você estava dormindo, me dizer que eu estava histérica e acabada. Você a escolheu.
- Eu estava em choque! - ele rebateu, a voz subindo. - Eu não sabia o que fazer! Foi tudo um borrão!
- Não foi um borrão para mim - disse eu, minha voz fria e plana. - Lembro-me de cada segundo. A dor. O sangue. O jeito que o médico olhou para mim, me dizendo que não havia nada que pudessem fazer. Meu bebê, Caio. Nosso bebê. Se foi. - As palavras eram como cacos de vidro na minha garganta.
Camila alcançou minha mão, apertando-a com força. Os olhos dela estavam úmidos, transbordando de lágrimas não derramadas.
- Alice, você não precisa reviver isso.
- Não - insisti, puxando minha mão. - Ele precisa ouvir. Ele precisa lembrar. - Virei-me de volta para Caio, meu olhar inabalável. - Depois que perdi o bebê, eu disse que queria o divórcio. Eu não conseguia olhar para você, não conseguia respirar o mesmo ar que você sem ver o rosto dela, sem sentir aquele vazio doloroso dentro de mim. Você disse que entendia.
- Eu entendia! - insistiu ele, passando a mão pelo cabelo. - Eu estava horrorizado! Eu estava consumido pela culpa!
- Tão consumido pela culpa - continuei, minha voz pingando sarcasmo - que em semanas, a Bia tinha se mudado para o nosso apartamento. Nossa casa. Ela estava dormindo na nossa cama, usando minhas roupas, desfilando como se fosse a dona do lugar. Cheguei em casa um dia e ela estava lá, na minha cozinha, cantarolando, fazendo café para você. Como se ela pertencesse àquele lugar.
Meu estômago se contraiu. A memória era uma ferida aberta, mesmo depois de todos esses anos. Naquele dia, entrei em minha casa, o cheiro do perfume dela permeando cada cômodo, e encontrei Bia, bebericando chá casualmente no balcão da minha cozinha.
- Saia! - eu gritei, minha voz crua de luto e raiva. - Saia da minha casa, sua vagabunda!
Ela apenas sorriu, um olhar condescendente e de pena no rosto.
- Ah, Alice. Você realmente acha que esta é sua casa ainda? O Caio me trouxe para morar aqui. Ele disse que você não precisaria mais dela.
Avancei nela, um grito primitivo rasgando minha garganta. Eu só queria arrancar aquele olhar presunçoso da cara dela. Mas ela foi mais rápida. Ela deu um passo para o lado e eu tropecei, perdendo o equilíbrio. A mão dela disparou, me empurrando com força contra o batente da porta. Minha cabeça bateu na madeira com um estalo chocante. Desabei no chão, minha visão nadando.
Aquela não foi a queda que matou meu bebê. Aquela foi a queda que matou meu espírito.
Caio invadiu o local então, atraído pela comoção. Ele me viu no chão, atordoada, e Bia de pé sobre mim, parecendo angustiada. Previsivelmente, ele correu para o lado de Bia.
- O que você fez, Alice? - exigiu ele, a voz fria, desprovida de qualquer preocupação comigo. - Por que você está atacando ela?
- Ela se mudou! - engasguei, lágrimas escorrendo pelo meu rosto. - Ela está na nossa casa!
- Não é mais sua casa, Alice - afirmou ele, a voz monótona. - Você queria o divórcio, lembra? Começamos a papelada.
Naquela noite, deitada sozinha em um quarto de hotel, minha cabeça latejando, meu coração estilhaçado em um milhão de pedaços, eu soube. Não havia volta. Não havia mais "nós". Eu tinha que sair. Eu tinha que fazê-lo assinar aqueles papéis do divórcio. Não importava o custo.
- Voltei para o hospital, sabe - disse eu, minha voz pouco acima de um sussurro, puxando-me do passado. - Para o quarto onde perdi nosso bebê. Apenas sentei lá. E chorei até não haver mais lágrimas. A enfermeira me encontrou, largada no chão. Ela achou que eu estava tendo um colapso.
Caio fez um som sufocado, um ruído gutural baixo na garganta. Ele alcançou minha mão novamente, os dedos tremendo.
- Alice, por favor...
- Não - disse eu, me afastando, minha voz ganhando força. - Você não tem o direito de me tocar. Não mais.
- Eu sei que estraguei tudo - disse ele, a voz grossa com o que parecia angústia genuína. - Eu sei que te machuquei. Mas posso consertar. Juro, eu posso.
Olhei para ele, realmente olhei para ele. O homem que um dia fora meu tudo. Agora, ele era apenas um estranho implorando por uma segunda chance que não merecia. A dor ainda estava lá, um latejar surdo, mas não me consumia mais.
- Você não pode consertar o que quebrou, Caio - disse eu, minha voz calma, resoluta. - Algumas coisas estão além do reparo.
- Mas Alice, estou miserável agora - implorou ele, a voz falhando. - A Bia é... ela não é você. Ela é paranoica. Ela é obcecada. Cometi um erro ao deixar você ir.
Virei a cabeça, olhando pela janela para as luzes da cidade passando. A miséria dele não era problema meu. Era uma consequência, não um apelo.
- Você queria o divórcio depois daquilo - Camila incentivou, a voz suave, lembrando minha declaração anterior. - O que aconteceu então? Por que você não conseguiu?
Fechei os olhos, o peso daquela próxima memória pressionando sobre mim.
- Porque meus pais se envolveram - disse eu, as palavras pesadas de resignação. - Eles descobriram que eu estava tentando deixá-lo.
A próxima parte, o verdadeiro horror, ainda não havia sido dita. Foi a parte que deixou a cicatriz no meu pescoço.