- Minha mãe me ligou, gritando, ameaçando - continuei, minha voz plana, desprovida de emoção. - Ela disse que se eu me divorciasse do Caio, ela se mataria. Ela disse que o dinheiro dele era a única segurança deles. Meu pai fez coro com ela, claro. Me chamou de egoísta, ingrata. Disse que eu estava destruindo a vida deles.
Camila engasgou, a mão voando para a boca.
- Eles realmente ameaçaram isso? Depois de tudo o que ele fez com você?
Assenti, olhando para frente.
- Eles não se importavam com o que ele fez. Apenas com o que ele tinha.
Meus pais chegaram ao apartamento no dia seguinte, sem avisar, os rostos contorcidos de fúria e desespero. Eles me encurralaram na sala de estar, Caio parado perto da lareira, um espectador silencioso, quase divertido.
- Você não vai se divorciar dele, Alice! - minha mãe gritou, agarrando o peito dramaticamente. - Você está me ouvindo? Se fizer isso, eu me jogo da Ponte Estaiada! Eu juro!
Meu pai, geralmente quieto, deu um passo à frente, os olhos frios e duros.
- Você me dá nojo, Alice. Você acha que é melhor que nós? Acha que pode simplesmente jogar fora essa vida? Você nos deve! Nós te criamos! Nós sacrificamos tudo!
Eu estava encurralada. Entre a indiferença de Caio, o terrorismo emocional dos meus pais e a ferida aberta na minha alma por perder meu bebê, senti como se estivesse me afogando. Não havia ninguém para me salvar, ninguém para lutar por mim.
Exceto eu.
- Eu não conseguia respirar - sussurrei, a memória ainda me gelando até os ossos. - Senti como se estivesse sufocando. Eles estavam todos apenas... sugando a vida de mim, brigando pelas sobras da minha existência. Olhei para o Caio, depois para meus pais. E eu sabia que só havia uma saída. Uma maneira de fazê-los parar. De fazê-lo assinar aqueles papéis.
Caio estava tremendo, os olhos grudados no meu rosto, a respiração superficial. Ele conhecia essa parte. Ele tinha testemunhado.
- Entrei na cozinha - continuei, minha voz quase inaudível. - Peguei a faca mais afiada que consegui encontrar. Uma faca de chef. E a segurei contra a minha garganta.
Camila soltou um grito estrangulado.
- Alice! Meu Deus, você nunca me contou!
Caio fechou os olhos, uma única lágrima escapando e traçando um caminho por sua bochecha pálida.
- Eles pararam de gritar então - disse eu, uma risada amarga escapando. - Eles apenas encararam. Caio encarou. Eu disse a ele. Eu disse: "Assine os papéis, Caio. Assine agora. Ou juro por Deus, eu faço isso. Eu acabo com isso aqui mesmo. Você não vai receber nada do seu precioso dinheiro de mim então. Você não vai receber nada."
Ele congelou, paralisado. O horror nos olhos dele não era por mim, percebi mais tarde. Era pelo escândalo. Pela sujeira. Pela perda potencial de sua narrativa perfeita.
- Eu precisava que ele acreditasse em mim - disse eu, minha voz falhando um pouco. - Eu precisava que todos eles acreditassem em mim. Então eu pressionei com mais força.
A sensação física, mesmo depois de todos esses anos, era vívida. O aço frio contra a minha pele. A dor aguda e ardente quando a lâmina cortou a carne. O fio quente de sangue escorrendo pelo meu pescoço.
Caio surtou então. Ele correu para frente, agarrando meu braço, forçando a faca para longe. Mas estava feito. O corte estava lá. Uma linha fina e raivosa.
Ele assinou os papéis naquele dia. Atordoado, ele assinou. Meus pais, chocados em silêncio, recuaram, suas ameaças momentaneamente esquecidas. Eu sacrifiquei um pedaço de mim mesma, literalmente, para ganhar minha liberdade. E a cicatriz, ainda fracamente visível sob meu cabelo, era meu troféu duramente conquistado.
Abri os olhos, a memória desaparecendo, deixando para trás apenas uma dor surda. Camila estava soluçando, os ombros tremendo.
- Ah, Alice - ela engasgou, enxugando os olhos. - Minha pobre e doce Alice. Por quê? Por que você não me ligou? Por que você passou por isso sozinha?
- Porque eu não queria mais ninguém pego no fogo cruzado deles - disse eu, minha voz recuperando a compostura. - Eu só queria sair. E eu saí.
Caio, ainda em silêncio, chorava abertamente agora, o rosto enterrado nas mãos. Os ombros dele tremiam com o que parecia angústia genuína. Era tarde demais para isso, no entanto. Muito, muito tarde.
- Seu desgraçado! - Camila gritou, sua dor se transformando em uma fúria crua dirigida a Caio. - Você ficou lá e assistiu! Você a deixou quase se matar só para ficar longe de você! Você é um monstro!
- Camila, pare - disse eu, estendendo a mão para tocar o braço dela gentilmente. - Acabou. Está feito.
Ela se afastou de mim, balançando a cabeça.
- Não, não acabou! Não até que ele pague pelo que fez! Eu deveria estar aqui, Alice. Eu deveria ter te protegido. Eu deveria ter colocado algum juízo na cabeça daqueles seus pais patéticos!
- Está tudo bem - disse eu, minha voz suave. - Estou bem agora. Encontrei minha própria saída.
Camila fungou, olhando para mim com olhos cheios de lágrimas.
- Mas você não precisava passar por isso sozinha. Você não precisava se machucar.
- Isso me tornou mais forte - menti, uma pequena chama desafiadora no meu peito. - Me ensinou muito.
Empurrei a porta do carro.
- Preciso ir. Posso chamar um táxi daqui.
- Não! - A voz de Caio estava rouca, desesperada. Ele estendeu a mão para mim novamente, agarrando meu pulso. - Alice, por favor. Não vá. Deixe-me compensar você. Eu ainda posso compensar você. Sinto muito. Sinto muito mesmo. - O aperto dele foi surpreendentemente gentil desta vez, quase suplicante.
Olhei para o rosto dele manchado de lágrimas, sua expressão quebrada. O magnata da tecnologia arrogante, reduzido a uma bagunça chorosa. Era... patético. E totalmente pouco convincente.
- Sente muito? - zombei, uma risada seca e amarga escapando. - Sente muito pelo quê, Caio? Por proteger sua amante em vez de sua esposa grávida? Por deixar meus pais me usarem como moeda de troca? Por me ver sangrar só para me livrar de você? - Puxei meu pulso para soltá-lo. - Suas desculpas são tão inúteis quanto suas promessas eram.
Saí do carro, batendo a porta com uma finalidade que ecoou na noite silenciosa. Camila saiu correndo atrás de mim.
- Alice, espere! - gritou Caio, a voz desesperada, mas não olhei para trás. Chamei um táxi que passava, puxando Camila para o banco de trás comigo.
Enquanto eu me afastava, vislumbrei-o pelo espelho retrovisor, parado sozinho na calçada, uma figura solitária e quebrada sob o brilho de um poste de luz. Uma dor familiar ressoou no meu peito, não de saudade, mas dos ecos persistentes do que um dia foi, e do que nunca poderia ser novamente. Ele estava implorando por perdão, por uma chance de reescrever nossa história. Mas meu capítulo com Caio Bittencourt estava encerrado. Permanentemente. A cicatriz no meu pescoço era a prova disso.