Com uma súbita explosão de adrenalina, arranquei o soro do meu braço. A picada da agulha nem registrou. Tentei me levantar, depois caí para trás, uma dor aguda no meu lado. Meu corpo gritou em protesto. Mas eu tinha que fazer isso.
Empurrei-me para ficar de joelhos ao lado da cama, baixando a cabeça.
- Dra. Alice - raspei, minha voz fraca. - Peço desculpas pelo incômodo. Estou pronta para retomar meus deveres. Por favor, me diga o que a senhora precisa.
Alice engasgou, a mão voando para a boca. Ela estendeu a mão, os dedos pairando sobre o curativo no meu lado.
- Clarice, o que você está fazendo? - Os olhos dela estavam cheios de horror. Ela tentou me alcançar, um apelo desesperado no olhar.
Recuei, me afastando, um medo primitivo me dominando. Não me toque. Não me toque como eles fazem.
- Clarice, o que aconteceu com você? - A voz dela tremia. - Você nunca foi assim. - Os olhos dela procuravam os meus, buscando desesperadamente a mulher que um dia conheceu. - Eu não entendo.
Permaneci em silêncio, os olhos fixos no chão branco imaculado. Não havia nada para entender. Apenas para obedecer.
Meu silêncio foi quebrado pelo toque agudo do telefone de Alice. Ela tateou em busca dele, o rosto uma máscara de preocupação.
- Dra. Alice.
Uma voz estridente e histérica grasnou do outro lado. Karina.
- Ela sumiu! O bebê não para de chorar! Ele não cala a boca! O Breno é um inútil! O que eu devo fazer?! - A voz dela estava carregada de puro pânico, pura frustração.
Alice segurou o telefone longe do ouvido, fazendo uma careta.
- Karina, acalme-se. A Clarice ainda está se recuperando...
- Eu não me importo! Eu preciso dela! Ela tem que voltar! Agora! - A exigência de Karina era absoluta.
Alice olhou para mim, depois de volta para o telefone. Ela suspirou, um som profundo e cansado.
- Vou ver o que posso fazer.
Eu já estava me levantando, ignorando o latejar no meu lado.
- Estou pronta - disse, minha voz mal passando de um sussurro. - Preciso ir para casa.
Alice olhou para mim, uma mistura complicada de emoções nos olhos.
- Clarice, você não tem alta médica...
Nesse momento, Breno irrompeu no quarto, o rosto pálido, os olhos selvagens. Ele deu uma olhada no meu lado enfaixado, meu rosto pálido, os lençóis manchados de sangue.
- Clarice! O que você fez com você mesma?! - A voz dele estava grossa de acusação, mas também com um tremor de outra coisa. Medo. Culpa.
- O que aconteceu com o seu lado? - Ele exigiu, os olhos arregalados. - Quem fez isso?
Encontrei o olhar dele, um sorriso lento e arrepiante se espalhando pelos meus lábios.
- Você fez, Breno. - Minha voz era suave, quase inaudível. - Você me mandou limpar. E eu limpei. Exatamente como você instruiu.
O queixo dele caiu. Ele olhou para mim, os olhos arregalados com uma mistura de horror e descrença.
- Não. Não, eu não quis dizer...
O telefone na mão de Alice tocou novamente, cortando-o. Karina. A voz estridente dela já gritava através do receptor.
- Breno, onde você ESTÁ?! Venha para casa AGORA! O bebê está gritando!
Breno olhou de mim para o telefone, um cervo preso nos faróis. Ele olhou de volta para mim, um apelo desesperado nos olhos. Mas eu simplesmente sorri.
Alice, enquanto isso, capturou meu olhar. Ela deu um aceno sutil, um movimento de cabeça quase imperceptível. Uma confirmação silenciosa. É a hora.
De volta à mansão, Karina andava de um lado para o outro, o cabelo bagunçado, as roupas de grife amassadas.
- Finalmente! Por que demoraram tanto? - Ela gritou com Breno, depois me fuzilou com o olhar. - Ele está chorando há horas! Não sei o que fazer com ele!
Passei por ela, direto para o berçário. Léo estava de fato berrando, o rosto vermelho e manchado. Peguei-o no colo, aninhando-o perto. Ele se acalmou quase instantaneamente, enterrando o rosto no meu pescoço. Cantarolei uma canção de ninar suave, a que minha mãe costumava cantar para mim. A melodia familiar o acalmou e, logo, seu corpo minúsculo relaxou contra o meu. Ele estava dormindo.
Breno me observava, um olhar perdido e assombrado. Ele olhou de mim, segurando nosso filho, para Karina, que agora reclamava chorosa sobre sua unha quebrada.
Karina capturou o olhar de Breno.
- Breno, querido, por que você não leva a Clarice para o quarto dela? - Ela sugeriu, a voz falsamente doce. - Ela parece exausta. E... temos algumas coisas para discutir. - Os olhos dela cintilaram para mim, um aviso. Não escute. Não interfira.
Eu sabia o que ela queria dizer. Meu "quarto" era o pequeno aposento sem janelas na área de serviço. Uma jaula. Enquanto eu me afastava, ouvi os sons fracos e abafados da discussão deles. Acusações. Desespero. A aliança frágil deles estava rachando.
Fui para o meu quarto designado, um espaço minúsculo que cheirava levemente a poeira e negligência. A porta clicou atrás de mim. Uma jaula. Mas agora, era uma posição estratégica.
Da suíte master opulenta ao lado, um gemido abafado chegou aos meus ouvidos, seguido pela voz baixa de Breno. Karina. Eles estavam jogando seus jogos. A intimidade distorcida deles.
- Breno - Karina ronronou, a voz atravessando a parede fina. - Você foi tão bom esta noite. Você me faz esquecer tudo sobre ela. - As palavras dela eram destinadas a mim, uma provocação, um lembrete cruel do meu deslocamento.
Caminhei até a pequena janela suja, empurrando-a apenas uma fresta. O ar da noite estava fresco. Enfiei a mão no bolso, tirando um pequeno pacote embrulhado em papel alumínio. O presente da Dra. Alice. Não era o sedativo habitual que eles me forçavam a tomar. Era um placebo. Ela vinha me desmamando da medicação há semanas, substituindo-a por pílulas de açúcar.
Despejei o conteúdo do pacote pela janela, vendo o pó branco se dissolver na escuridão. Chega de entorpecer meus sentidos. Chega de borrar minha determinação.
Meu telefone escondido, uma linha vital de Alice, vibrou discretamente na minha mão. Uma mensagem. Agora.
Peguei Léo, que dormia profundamente no pequeno berço improvisado. O calor dele me preencheu, uma onda de amor feroz e determinação. Alcancei sob a tábua solta no canto do quarto, puxando uma mochila pequena e gasta. Dentro, uma muda de roupa, algumas fraldas e uma pilha grossa de documentos. Minhas provas. Os verdadeiros registros médicos do meu pai. As contas comerciais desviadas. Tudo.
Sob o manto da escuridão, deslizei para fora da mansão, um fantasma recuperando sua vida, seu filho, seu futuro. A noite era uma cúmplice silenciosa. Entrei no carro que esperava, o motor já ronronando suavemente. Alice estava lá, o rosto sério. Ela assentiu, os olhos cheios de compreensão silenciosa.
- Vamos - sussurrei, segurando Léo com mais força. A mansão, um símbolo do meu tormento passado, recuou na escuridão.
Eu estava livre. E eles nem saberiam que eu tinha ido embora até de manhã.