Ponto de Vista de Emerson:
Eu não tinha dormido. Os primeiros raios de sol da madrugada se infiltravam pelas cortinas da sala de estar de Beatriz, pintando as bordas dos móveis com uma luz pálida e implacável. Cada músculo do meu corpo doía, mas não era apenas fadiga. Era o resíduo de uma noite passada lutando com uma traição tão profunda que parecia que eu tinha sido esfolada viva. Mas com a luz da manhã veio uma clareza, uma determinação de aço que eu não sabia que possuía.
Não havia volta. Não a partir disso. Algumas coisas, uma vez quebradas, nunca mais poderiam ser inteiras. E Heitor, meu perfeito Heitor, me estilhaçou além do reparo. Meu amor não era para ser um prêmio de consolação, uma segunda opção para um homem que não suportava desapontar sua família.
Eu era Emerson Wiley. Eu sobrevivi a uma zona de guerra, enfrentei a morte e saí lutando. Eu não seria destruída por um mentiroso e sua família secreta.
"Preciso falar com o tio Ardell", eu disse, minha voz rouca de tanto chorar, mas firme.
Beatriz, que cochilava intermitentemente no sofá à minha frente, se mexeu. Seus olhos piscaram, instantaneamente alertas. "Ardell? Agora?"
Eu assenti, me levantando. Meu corpo protestou, mas minha vontade era mais forte. "Sim. Preciso ir para casa, pegar algumas coisas. Sair daqui."
Ela franziu a testa. "Você quer sair de Brasília? Emi, para onde você iria?"
"Apenas... para longe", eu disse vagamente. "Uma viagem curta. Para clarear a cabeça. Diga ao Heitor que vou visitar meu pai por alguns dias. Que eu precisava de uma mudança de ares."
O olhar de Beatriz era afiado. "Ele vai saber que algo está errado. Você nunca 'visita' seu pai em Manaus sem planejar por meses."
"Ele não vai exatamente me questionar agora, vai?", retruquei, uma risada amarga escapando dos meus lábios. "Se ele fizesse isso, ele se exporia."
Ela suspirou, sabendo que eu estava certa. "Ok. Eu ligo para ele. Ele vai entender."
Minha garganta se apertou. Eu sabia que Ardell, meu pai, o General Richardson, não entenderia. Ainda não. Ele adorava Heitor, o via como o filho que nunca teve. Dar essa notícia a ele seria outro golpe brutal, mas desta vez, seria no coração do meu pai. Eu não podia comprometer sua posição, não quando precisava de suas conexões, sua influência. Ainda não.
Beatriz concordou relutantemente em ligar para meu pai, inventando uma história sobre um desejo súbito de uma viagem de garotas para Manaus. Ardell, sempre o pai dedicado, expressou preocupação, mas acabou consentindo.
Juntei alguns itens essenciais, puxando uma pequena mala do fundo do armário. Minhas mãos se moviam mecanicamente, minha mente um turbilhão de dor e determinação crescente. Olhei no espelho. Meus olhos estavam inchados, meu rosto pálido e abatido. Joguei água fria no rosto, tentando apagar a evidência da minha guerra silenciosa.
Mais tarde naquela manhã, o filho de Beatriz, Léo, um menino de cinco anos de olhos brilhantes, entrou correndo na cozinha. "Tia Emi, você está se sentindo melhor?", ele perguntou, sua voz cheia de preocupação inocente. Ele me entregou um desenho de giz de cera de uma flor torta.
Uma pontada me atravessou. Este menino, tão cheio de vida, tão amado. Uma criança que eu nunca poderia ter. A ferida aberta da minha infertilidade, uma consequência de salvar Heitor, ardeu com uma agonia renovada. Meus próprios filhos, aqueles com quem sonhei, nunca existiriam.
Ajoelhei-me, puxando Léo para um abraço. "Muito melhor, querido. Obrigada." Forcei um sorriso. Seus pequenos braços ao redor do meu pescoço eram um bálsamo, um vislumbre da inocência que eu estava lutando para proteger.
Ao sair do apartamento de Beatriz, o ar da manhã parecia pesado, úmido com a chuva residual. Eu só precisava ir embora.
E então eu o vi.
Heitor. Parado ao lado do meu carro, encostado no para-lama, seu uniforme ainda impecável apesar da hora adiantada. Ele parecia cansado, com linhas marcadas ao redor dos olhos, mas sua postura era resoluta, determinada. Meu coração deu um salto, uma mistura doentia de pavor e um lampejo do antigo afeto. O que ele estava fazendo aqui?
Ele se afastou do carro, os olhos fixos em mim. Sua expressão era uma tempestade de preocupação e impaciência. Ele correu em minha direção, suas longas passadas diminuindo a distância rapidamente.
"Emerson! O que há de errado? Beatriz ligou. Ela disse que você estava doente." Ele me envolveu em seus braços, puxando-me para um abraço apertado. Seu cheiro, geralmente meu conforto, agora parecia enjoativo, sufocante.
Eu enrijeci, meu corpo se revoltando contra seu toque. Cada fibra do meu ser gritava em protesto. O calor de seu corpo, a pressão familiar de seus braços, antes um porto seguro, agora pareciam uma jaula. Era repulsivo.
Ele se afastou, a testa franzida. "Você está gelada. E pálida. O que aconteceu?"
Minha mente correu. Eu não podia contar a ele. Ainda não. Meu plano ainda estava informe, frágil. "Apenas uma noite ruim. Gripe, eu acho. Beatriz insistiu que eu precisava de uma mudança de ritmo. Liguei para o papai; ele disse que eu poderia ficar com ele por alguns dias." Tentei soar casual, mas minha voz vacilou.
Heitor pareceu aliviado, um lampejo de algo que eu não consegui decifrar em seus olhos. "Ok, bom. Eu estava preocupado. Interrompi meu treinamento. Ouvi sua voz ontem à noite, parecia estranha. Não consegui me concentrar." Ele tocou minha bochecha, seu polegar afastando uma lágrima perdida que eu não tinha percebido que estava caindo.
Eu recuei quase imperceptivelmente. "Você voltou por mim?" As palavras eram ocas, zombeteiras.
"Claro que voltei por você", disse ele, a voz rouca. "Você é minha esposa, Emerson. Você é tudo para mim." Ele fez uma pausa, parecendo genuinamente em conflito. "Eu só... tive que fazer uma parada rápida antes de vir aqui. Algo urgente surgiu."
Urgente. Meu coração se contraiu. Ela estava aqui também?
"Estou bem, Heitor. Sério", eu disse, afastando-me de seu toque. Eu precisava de espaço.
Ele me observou por um longo momento, depois assentiu lentamente. "Tudo bem. Mas me prometa que vai descansar. E me ligue todos os dias."
"Vou ligar", menti novamente, as palavras com gosto de veneno.
Ele se inclinou, beijando minha testa. "Eu te amo, Emi. Mais do que tudo."
Quando ele se virou para sair, uma onda de náusea me atingiu. Fechei os olhos, tentando me recompor. Ele estava prestes a entrar em seu carro quando a vi. Thaís. Parada a alguns metros de distância, perto do carro de onde Heitor acabara de sair. Ela estava nos observando, sua expressão indecifrável.
Heitor a viu também. Ele hesitou, depois deu a ela um aceno seco. "Já vou, Thaís."
Thaís. O nome ecoou em meus ouvidos, confirmando meus piores medos. Meu sangue gelou. Ele esteve com ela todo esse tempo. Ele acabou de deixá-la para vir me ver.
Forcei-me a respirar, a ficar parada. Não reaja. Não agora. Eu precisava saber mais. Precisava manter a calma.
Ele se virou para mim, seu sorriso forçado. "O dever chama. Se cuida, Emi." Ele deu um aperto rápido na minha mão, depois caminhou em direção a Thaís.
Ela sorriu para ele, um sorriso conhecedor e triunfante. Ela nem se deu ao trabalho de esconder. Enquanto ele abria a porta do carro para ela, ouvi sua voz, baixa e sedutora. "Tudo bem com... sua esposa?"
Meu sangue ferveu. Eu queria gritar, atacar, mas me contive. Não era a hora, não em público. Não quando eu mal estava me segurando.
Heitor murmurou algo que não consegui ouvir direito, e ambos entraram no carro. Enquanto passavam por mim, Thaís olhou em minha direção. Seus olhos, cheios de um divertimento frio, encontraram os meus. Ela me deu um pequeno aceno zombeteiro.
Então a janela dela se abriu. "Olá, Emerson. Thaís Collier. Eu só queria me apresentar adequadamente. Sou a mãe do Jamal. E do Heitor... bem, você sabe." Ela sorriu, um brilho predatório em seus olhos. "Ele tem estado tão ocupado com você, que mal tem tempo para sua família de verdade. Mas não se preocupe, agora que você está indo embora, nós cuidaremos bem dele."
Meu queixo caiu. A audácia. A crueldade descarada. Senti uma onda fria de adrenalina, aguçando meus sentidos. Minha cabeça parou de latejar. A névoa se dissipou.
"O que você disse?", exigi, minha voz tremendo com uma fúria que eu mal reconhecia.
Ela riu, um som curto e agudo. "Oh, querida. É exatamente o que parece. Não vamos a lugar nenhum. Esta é a nossa casa agora." O carro acelerou, deixando-me parada na rua deserta, a chuva começando a cair novamente.
Meu mundo, já estilhaçado, se partiu em um milhão de pedaços irreparáveis. Isso não era um mal-entendido. Isso era uma declaração direta de guerra.