Ponto de Vista de Emerson:
Na manhã seguinte, a casa estava estranhamente silenciosa. Passei a noite no quarto de hóspedes de Beatriz, olhando para o teto, cada terminação nervosa em frangalhos. O silêncio era perturbador, como a calmaria antes da tempestade. Finalmente me arrastei para fora da cama, meu corpo rígido e dolorido.
Entrei na cozinha, o cheiro de café já se espalhando. Thaís estava no balcão, cantarolando baixinho, arrumando meticulosamente um prato de panquecas. Seu cabelo estava preso em um coque frouxo, e ela usava uma camiseta simples e desbotada e jeans. Uma imagem de felicidade doméstica, cuidadosamente curada.
Ela ergueu os olhos, seu sorriso brilhante, quase brilhante demais. "Bom dia, Emerson! Dormiu bem?"
Meu estômago se rebelou. A pergunta, carregada de falsa alegria, me deu vontade de vomitar. Ela parecia quase... inocente. Como uma dona de casa recatada. Mas eu conhecia o brilho predatório em seus olhos, a mente calculista por trás da fachada.
E então eu vi. Sua mão esquerda. Em seu dedo anelar, brilhando sob as luzes da cozinha, estava o colar de diamantes que Heitor me deu em nosso quinto aniversário. Ele o colocou em meu pescoço, sussurrando promessas de eternidade. Era um design único e intrincado, feito sob medida. Não havia como confundir.
Uma onda de tontura me invadiu. Aquele colar. Lembrei-me de pedir a Heitor um semelhante para minha mãe, uma versão menor. Ele havia recusado, dizendo que era "muito pessoal", "muito especial". Mas agora, essa mulher o usava como um troféu.
Meu punho se fechou, minhas unhas cravando em minha palma. A dor era um zumbido distante comparado ao fogo que rugia em minhas entranhas. Senti-me uma tola. Uma tola ingênua e confiante. Quantos outros sabiam? Quantos dos colegas de Heitor, seus amigos, sua família, testemunharam sua vida dupla e não disseram nada? O pensamento era sufocante.
Sempre me orgulhei de ser inteligente, perspicaz. Mas eu tinha sido tão completa, totalmente cega. Cega pelo amor, pela confiança. Se Heitor queria tanto um filho, ele poderia ter me dito. Poderíamos ter adotado. Poderíamos ter explorado outras opções. Mas ele escolheu o engano. Ele escolheu construir uma vida secreta, zombar de nossos votos, profanar nosso futuro compartilhado.
A memória da noite anterior, das palavras ternas de Heitor para o filho de Thaís, a maneira como ele embalou o menino, queimava como uma marca. Eu queria que ele sofresse. Queria que ele sentisse cada grama de dor que ele me infligiu.
Naquele momento, Heitor entrou na cozinha. Ele parecia revigorado, de banho tomado, seu uniforme ainda impecável apesar dos acontecimentos da noite anterior. Ele trocou um olhar rápido e íntimo com Thaís, uma linguagem silenciosa que eles compartilhavam.
Ele me viu então, e seu sorriso forçado vacilou. "Emerson? Você está de pé. Como está se sentindo?" Sua voz estava carregada de uma preocupação ensaiada que não me enganava mais.
"Estou bem, Heitor", eu disse, minha voz perigosamente calma. "Só me perguntando o que exatamente está acontecendo aqui." Meus olhos piscaram para Thaís, depois de volta para ele.
Ele pigarreou, um gesto nervoso. "Emerson, sobre isso... eu posso explicar. Thaís e Jamal, eles são apenas... parentes distantes. Ela teve alguns problemas, e eu estava tentando ajudar. Obrigações familiares, sabe." Mentiras. Mais mentiras.
Minha raiva, fervendo logo abaixo da superfície, ameaçou transbordar. "Obrigações familiares? É assim que você chama, Heitor? Um menino de seis anos que te chama de 'papai' e uma mulher usando meu presente de aniversário?"
Seu rosto empalideceu. "Emerson, por favor. Não aqui. Não é o que parece." Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida.
Eu recuei como se ele estivesse doente. "Não é o que parece? O que parece, Heitor? Porque de onde estou, parece que você tem vivido uma porra de vida dupla!"
Ele se encolheu. "Emerson, fale baixo. Os vizinhos. Olha, minha família... eles sempre foram obcecados com linhagem, com um herdeiro. E depois do que aconteceu no Alemão... eu pensei... pensei que você não podia. Eu nunca quis te machucar. Eu só queria garantir o nome da família. Mas eu te amo. Só você. Jamal, ele é... eu posso mandá-los embora. Posso fazê-los desaparecer." Sua voz era desesperada, suplicante.
Mandá-los embora. As palavras eram uma zombaria. Meu estômago se revirou de nojo. Este era o homem que todos acreditavam ser tão dedicado a mim, tão loucamente apaixonado que desafiou sua família poderosa. O marido perfeito. Era doentio.
De repente, um choro irrompeu do quarto ao lado. Jamal. Ele correu para a cozinha, o rosto vermelho e manchado de lágrimas. "Papai! Ela está sendo má com a mamãe!" Ele apontou um dedo gordinho para mim.
"Jamal, chega!", Heitor rugiu, sua voz afiada e autoritária. O menino se aquietou instantaneamente, o lábio inferior tremendo. Heitor se ajoelhou, puxando o menino para um abraço apertado, sua expressão suavizando instantaneamente. "Volte para o seu quarto, filho. Falaremos sobre isso mais tarde."
Jamal, ainda fungando, saiu da cozinha, lançando um olhar venenoso em minha direção.
Thaís deu um passo à frente, os olhos arregalados de dor fingida. "Sinto muito, Emerson. Ele é apenas uma criança. Ele não entende." Ela até enxugou os olhos com um lenço de papel. Então, ela olhou para Heitor, os olhos cheios de um apelo desesperado. "Heitor, por favor. Ele precisa de você. Nós precisamos de você."
Heitor olhou de Thaís para mim, uma expressão conflitante em seu rosto. Ele gentilmente colocou o braço ao redor de Thaís, puxando-a para mais perto. "Está tudo bem, Thá. Estou aqui." Ele até enxugou uma lágrima da bochecha dela. O gesto, tão terno, tão íntimo, foi uma faca se retorcendo em minhas entranhas.
Meu peito se apertou, uma dor lancinante irradiando através de mim. Senti como se não pudesse respirar. Meu marido perfeito, confortando sua amante, depois que seu filho ilegítimo acabou de me chamar de má.
Desviei o olhar de sua exibição doentia. Não suportava olhar para ele, para eles, nem por mais um momento. "Cansei", sussurrei, minha voz mal audível.
Virei-me e fugi, correndo para o nosso quarto, batendo a porta com toda a minha força. Tentei trancar a fechadura, protegendo-a do mundo, dele.
As batidas frenéticas de Heitor na porta se seguiram quase imediatamente. "Emerson! Abra a porta! Deixe-me explicar! Vou mandá-los embora, eu juro! Apenas fale comigo!" Sua voz estava abafada, desesperada.
Deslizei pela porta, minhas pernas cedendo sob mim. O chão de madeira frio era bem-vindo contra minha pele em chamas. Mandá-los embora? Ele simplesmente os mandaria embora, como se fossem um pacote, um inconveniente. A pura audácia.
Um pequeno pedaço de papel apareceu sob a porta. A caligrafia bonita e elegante de Heitor. Dizia: "Emerson, por favor. Não faça isso. Eu te amo."
Amassei-o em meu punho, meu coração um vazio oco e dolorido. Amor. Ele falava de amor, enquanto suas mãos estavam em outra mulher, seu coração dividido.
Olhei para a janela, a luz fraca da casa de hóspedes dos Patrick visível através das árvores. Uma luz estava acesa no quarto principal. Meu sangue gelou, um pensamento horrível se enraizando em minha mente.
Aproximei-me sorrateiramente, pressionando o ouvido contra a parede. Uma risada abafada, depois a voz de uma mulher, baixa e rouca. Thaís. E então a voz de Heitor, distinta. "Você sabe que eu nunca a escolheria em vez de você, Thá. Ela foi apenas... um meio para um fim."
Meu mundo implodiu. O ar saiu dos meus pulmões. Meus joelhos fraquejaram. Cambaleei para trás, cobrindo a boca para abafar um grito. Um meio para um fim. Sete anos. Minha carreira. Meu corpo. Tudo isso. Um meio para um fim.
Corri para o banheiro, vomitando violentamente no vaso sanitário. Meu corpo se convulsionou, expelindo tudo, tentando expulsar o veneno de suas palavras, de sua traição.
Olhei para meu reflexo no espelho, meu rosto uma máscara distorcida de angústia e nojo. Meus olhos estavam vermelhos, meu cabelo desgrenhado. Eu parecia uma estranha. Mas naquele momento, um lampejo do meu antigo eu, a Emerson resiliente e inquebrável, se acendeu.
As lágrimas pararam. A náusea diminuiu. Uma determinação fria e dura substituiu a agonia. Eu não era um meio para um fim. Eu era Emerson Wiley. E Heitor Patrick estava prestes a aprender isso.
O sol estava apenas começando a nascer, pintando o céu em tons de laranja e roxo. Um novo dia. Um novo começo. Eu não me acovardaria. Eu não imploraria. Eu iria embora, de cabeça erguida. E eu o faria pagar. Isso acabou.