Ponto de Vista de Emerson:
Observei o carro desaparecer na esquina, minha mente girando. Thaís Collier. A mãe de Jamal. A... "bem, você sabe" do Heitor. As palavras se repetiam como um disco quebrado, cada batida uma nova facada no meu peito.
Beatriz correu até mim, seu rosto uma máscara de preocupação. "Emerson! O que foi isso? Quem era aquela mulher?"
Eu não conseguia falar. O choque me deixou muda. Meu corpo inteiro parecia dormente, mas cada terminação nervosa gritava. Voltei cambaleando para o apartamento de Beatriz, apertando o peito.
"Preciso de um minuto", ofeguei, passando por ela. Corri para o banheiro, batendo a porta. Encostei-me nos azulejos frios, minha respiração saindo em arquejos irregulares. Cravei as unhas nas palmas das mãos, tentando me ancorar, controlar a tempestade que se formava dentro de mim.
Pressionei a testa contra a porcelana fria da pia, tentando bloquear a imagem de Heitor com aquela mulher e aquela criança. Aquela criança. Jamal. Ele parecia tão pálido, tão pequeno.
Ele parecia doente.
Um lampejo de preocupação, rapidamente extinto pelo fogo da traição. Minha empatia era um luxo que eu não podia me permitir agora.
Ouvi a voz abafada de Beatriz do corredor. "Emerson, você está bem? O que aconteceu? Quem era aquela mulher?"
Eu não conseguia responder. Ainda não. Joguei água fria no rosto, de novo e de novo, tentando lavar a memória, a vergonha, a dor lancinante.
Uma batida na porta. Não era Beatriz. Uma batida hesitante, quase tímida.
"Emerson? É a mãe do Heitor." A voz dela estava tensa, forçada. "Eu ouvi... ouvi o que aconteceu. Você está bem, querida?"
Meu sangue gelou. A mãe do Heitor? Aqui? Ela sabia o tempo todo? Quantas pessoas estavam envolvidas nessa farsa elaborada? Minha raiva se intensificou.
"Estou bem", gritei, minha voz falsamente calma. "Só estou me sentindo um pouco indisposta."
"Oh, querida. Eu entendo. Uma situação tão estressante. Sinto muito que você tenha descoberto dessa forma." Suas palavras estavam carregadas de uma simpatia açucarada que me deu vontade de vomitar.
Descobrir dessa forma? Então ela sabia. Todos eles sabiam. E me deixaram viver uma mentira por seis anos. A traição coletiva era um peso esmagador.
"Preciso de um pouco de privacidade, Sra. Patrick", eu disse, minha voz afiada, não deixando espaço para discussão.
Houve um momento de silêncio, depois um suspiro. "Claro, querida. Estaremos lá embaixo. Heitor está... muito preocupado com você."
Preocupado. A palavra era uma zombaria. Ele não estava preocupado comigo. Ele estava preocupado com sua mentira perfeitamente construída se desfazendo.
Ouvi os passos deles se afastarem. Escutei por mais um momento, depois saí. Beatriz estava lá, com os olhos arregalados.
"O que foi isso?", ela sussurrou.
Eu apenas balancei a cabeça. "Preciso fazer as malas. Sair daqui." Minha voz era plana, sem emoção.
Beatriz me levou para o quarto de hóspedes. Comecei a tirar roupas da cômoda, enfiando-as desordenadamente em uma bolsa de viagem. Minhas mãos pareciam desajeitadas, desconectadas do meu corpo. Cada item que eu tocava trazia de volta uma memória, um fragmento da vida que eu pensei que tinha.
Então eu vi. Na mesa de cabeceira, uma pequena caixa de veludo. Minha aliança de casamento. Eu a tinha tirado na noite anterior, uma tentativa desesperada de cortar os laços, mesmo que simbolicamente.
Peguei-a, o metal frio um peso pesado na minha palma. Costumava simbolizar o amor eterno, um vínculo inquebrável. Agora, parecia uma algema.
"Bia", eu disse, estendendo a aliança. "Você pode... pegar isso? E me conseguir uma carona para o aeroporto?"
Ela ofegou, seus olhos se arregalando. "Emi! O que você está fazendo?"
"Estou indo embora", afirmei simplesmente. "E não vou voltar até que isso acabe. Seja lá o que 'isso' for."
O rosto de Beatriz se suavizou. Ela pegou a aliança da minha mão, seus dedos roçando os meus. "Você tem certeza disso, Emi?"
"Nunca tive tanta certeza de nada na minha vida", respondi, minha voz dura como pedra.
Fui até a janela, olhando para a rua castigada pela chuva. O mundo lá fora parecia tão sombrio quanto meu coração. Eu sempre fui tão forte, tão resiliente. Mas isso... isso parecia demais.
Meu celular, milagrosamente, ainda estava funcionando, embora rachado. Abri uma mensagem de Heitor, enviada momentos atrás. "Ainda pensando em você, meu amor. Espero que esteja descansando. Te ligo mais tarde hoje à noite."
Uma risada amarga escapou dos meus lábios. Ele estava mentindo. Ainda mentindo. Mesmo agora.
A chuva batia contra a vidraça, um ritmo implacável contra o tambor caótico do meu coração. Senti uma dor súbita e aguda no peito, uma dor física que espelhava a agonia emocional. Eu estava me afogando.
Um rosnado baixo retumbou em minha garganta. As palavras da mãe de Heitor, o rosto presunçoso de Thaís, a voz terna de Heitor para sua "meu bem". Era tudo uma tapeçaria de engano, tecida com os fios da minha confiança e lealdade.
Fechei os olhos, imaginando o dia do nosso casamento. Os votos, as promessas. "Até que a morte nos separe." Que irônico. Nosso amor, minha confiança, já estavam mortos.
Uma batida súbita na porta me assustou. Beatriz. "Emi, seu pai acabou de ligar. Ele disse que a mãe do Heitor contou a ele que você ia ficar comigo por alguns dias antes de ir para Manaus. Ele parecia confuso. Ele quer saber o que está acontecendo."
Meu pai. Eu tinha que protegê-lo dessa bagunça, mesmo que por mais um tempo. "Diga a ele que ligo para ele hoje à noite", eu disse, tentando manter a voz firme. "Diga a ele que eu só precisava de um tempo com você, minha melhor amiga."
Beatriz assentiu, o rosto sombrio. Ela sabia que eu estava ganhando tempo.
Virei-me de volta para a janela. A chuva havia diminuído para uma garoa constante. Meu reflexo me encarava, um fantasma do meu antigo eu. Mas em meus olhos, algo novo havia se acendido. Não desespero. Mas um fogo frio e calculista.
Eu não iria apenas embora. Eu o faria se arrepender de cada mentira.