Decidi que me mudaria no dia seguinte. Minhas coisas já estavam todas encaixotadas e prontas para serem enviadas. Eu já havia esvaziado o quarto, deixando para trás apenas a casca da vida que eu havia vivido ali. O divórcio, eu sabia, levaria mais algumas semanas para ser finalizado. Mas para mim, a separação já era um fato. Minha mente já havia se divorciado há muito tempo.
Enquanto revisava uma última gaveta vazia, meus dedos tocaram algo macio. Um álbum de fotos. Aquele álbum que Heitor insistira em preencher, uma foto a cada mês do nosso casamento. Uma fachada para o mundo, um registro para uma história de amor que nunca existiu. Eu folheei as páginas, vendo os sorrisos forçados, os abraços distantes. Ele me beijando na testa em uma praia, enquanto seus olhos estavam fixos no horizonte. Ele me segurando pela cintura em um evento de gala, enquanto seus pensamentos estavam na Bolsa de Valores.
Com um suspiro que carregava cinco anos de dor, eu o joguei na lata de lixo. O som abafado do plástico foi um hino à minha liberdade. O passado estava enterrado.
As duas semanas seguintes foram um borrão de trabalho e estudo. Eu me enfiei no laboratório, nos livros, na promessa de um futuro.
O toque do meu celular me arrancou de uma reunião com a reitoria. Era Heitor.
"Estou na frente do seu laboratório," sua voz cortou o ar, como sempre fazia. "Suba."
Meu coração deu um pulo. Por quê? Ele nunca vinha.
Desci as escadas, meu estômago embrulhado. Ele estava ali, encostado em seu carro de luxo, impecável como sempre. Abri a porta do carro, e o cheiro familiar de seu perfume amadeirado me atingiu. Quase me fez engasgar.
"Por que não está em casa?" ele perguntou, olhando para mim como se eu fosse um enigma.
"Estou ocupada com o trabalho. Pronta para a Suíça," menti, ou melhor, me esquivei. A verdade era que eu estava ocupada com a minha fuga.
"Regina acha que você está evitando-a," ele disse, seu tom neutro.
Eu bocejei, um bocejo sincero que eu nem tentei esconder. "A opinião da Regina não me diz respeito."
Ele apertou o volante, e um brilho de algo, talvez surpresa ou irritação, passou por seus olhos. Ele tentou dizer algo, mas desistiu. Eu fechei os olhos e fingi dormir, ansiosa para escapar daquela conversa, do cheiro dele, do passado. Minha mente já estava na Suíça, longe de tudo isso.
Os dias se arrastaram, cada um me aproximando da minha nova vida. Um dia, no supermercado, um desejo estranho me atingiu. Picles e sorvete de morango. Eu ri, pensando em Bia, minha melhor amiga, que diria que eu estava ficando louca.
Mas à medida que os dias se tornavam semanas, a piada perdeu a graça. Minha menstruação estava atrasada.
O teste de gravidez. Duas linhas. Minhas mãos tremiam tanto que quase deixei cair o pequeno bastão de plástico. Eu estava grávida.
O médico confirmou. Seis semanas. O tempo bateu com a única noite em que Heitor e eu havíamos sido mais do que estranhos sob o mesmo teto, em um momento de fraqueza, de solidão. Uma noite, antes do retorno de Regina, antes que ele se tornasse a sombra de si mesmo.
O medo me invadiu. Eu estava sozinha. Como eu faria isso?
Meu primeiro impulso foi ligar para Heitor. Eu precisava contar a ele. Ele tinha que saber.
Mas quando cheguei na clínica, o vi. Heitor. Em pé, ao lado de Regina, que estava sentada em uma cadeira de rodas, pálida, mas sorrindo para ele. Ele segurava a mão dela, e seus olhos estavam cheios de uma ternura que eu nunca havia visto em relação a mim.
Meu coração se quebrou em mil pedaços. Ele estava ali com ela. De novo.
Eu me escondi atrás de uma parede, minhas lágrimas escorrendo silenciosamente. O médico saiu da sala de Regina, segurando uma pequena imagem. Um ultrassom.
"Parabéns, Senhora Moreira," ele disse, sorrindo. "Seu bebê está saudável. E lembre-se, nada de estresse. Sem atividades extenuantes, sem sexo nas próximas semanas."
Regina. Grávida.
Eu balancei a cabeça em negação. Não podia ser. Aquela mulher manipuladora.
Heitor se inclinou e beijou a testa de Regina, um gesto tão íntimo, tão terno.
Eu não podia mais olhar. Eu não podia mais aguentar.
Virei-me para fugir, mas esbarrei em uma enfermeira, e a pasta com meus exames caiu no chão, espalhando os papéis.
Heitor me viu. Seus olhos se arregalaram, e o sorriso de Regina desapareceu.
"Luna?" ele perguntou, sua voz cheia de uma surpresa que me esdoçou. "O que você está fazendo aqui?"
Eu me agachei, tentando desesperadamente recolher meus papéis, a foto do meu próprio ultrassom escondida debaixo da minha jaqueta.
Regina, com um sorriso forçado, disse: "Ora, Heitor, a Luna deve estar apenas aqui para um check-up. Não é, Luna? Ou talvez você esteja com alguma doença contagiosa?"
Eu a ignorei. Meus olhos se fixaram na imagem de ultrassom que ela ainda segurava. Aquela pequena mancha, promessa de vida. E então, na imagem do meu próprio bebê, escondida sob minha jaqueta.
Heitor, pálido, tentou se aproximar. "Luna, eu posso explicar..."
"Não há nada para explicar, Heitor," Regina interrompeu, sua voz agora glacial. Ela apertou o braço de Heitor, e seus olhos me lançaram uma ameaça silenciosa. "Nosso futuro está seguro agora. Não precisamos de explicações para o passado."
Heitor hesitou, olhando de Regina para mim. A indecisão em seus olhos foi a minha resposta final. Ele não me escolheria. Nunca.
Eu me levantei, meus olhos fixos no vazio. Viver era mais doloroso do que morrer. Minha fuga não podia esperar.
Virei as costas para eles, meu coração em pedaços. Eu ouvi Heitor chamar meu nome, mas eu não parei. Eu não podia. As lágrimas escorriam, mas eu mantive a cabeça erguida. O som do elevador se fechando foi o último som que ouvi antes de ser engolida pela rua fria de inverno.
Eu estava sozinha. Completamente e irremediavelmente sozinha. Sem casa, sem marido, e agora, com um bebê que eu não sabia se conseguiria proteger.