Ele estava lá, encostado no SUV preto, tão imponente e atraente quanto sempre. Meu corpo, traidor, reagiu. Uma pontada de desejo, um resquício da mulher que eu fui, me atingiu. Mas eu abaixei a cabeça, fingindo me concentrar nos meus livros, como se a visão dele não me afetasse. Era apenas um reflexo, eu disse a mim mesma. Uma memória muscular de uma atração que eu tinha sufocado.
Ele tirou os óculos escuros, e seus olhos azuis me prenderam. "Luna. Jante comigo esta noite." Não era um pedido, era uma ordem.
Eu me lembrei da última vez que ele me convidou para jantar. Foi num evento de caridade, há meses. Eu passei a noite inteira sentada sozinha, enquanto ele flertava abertamente com Regina, rindo de suas piadas.
"Tudo bem," eu disse, para minha própria surpresa. Minha voz saiu estranhamente calma.
Por que eu havia aceitado? Talvez fosse a necessidade de confrontá-lo uma última vez. Talvez fosse a estratégia. Eu precisava ter certeza de que o divórcio estaria finalizado antes que eu contasse a ele sobre o bebê. Heitor, o homem que me via como uma posse, reagiria à notícia da gravidez com fúria controladora.
Eu tinha dois objetivos para o jantar: garantir que ele não soubesse sobre o bebê até o divórcio ser finalizado, e, se possível, fazê-lo assinar qualquer documento adicional que pudesse surgir.
O restaurante era a adega privada, o local do nosso primeiro "encontro" arranjado. Era um lugar lindo, com paredes de pedra e garrafas de vinho antigas.
Ele estendeu a mão sobre a mesa e, pela primeira vez, segurou a minha. Um choque percorreu meu corpo. Meu coração, que eu achava que estava morto para ele, deu um sobressalto.
"Luna," ele começou, sua voz suave, quase hesitante. "Eu... eu sei que as coisas têm sido difíceis. Com a Regina... eu posso explicar."
A porta se abriu bruscamente. Davi, pálido, entrou na sala.
"Sr. Mendes," ele disse, ofegante. "É a Regina. Ela... ela tentou se suicidar. Está no hospital."
O ar pareceu ser sugado dos meus pulmões. Meu estômago se revoltou.
A mão de Heitor soltou a minha. Ele se levantou, a cadeira rangendo contra o chão. Por um breve segundo, ele hesitou, olhando para mim.
"Davi, leve a Luna para o hospital," ele ordenou, sua voz agora urgente. "Certifique-se de que ela seja atendida."
Ele se foi, correndo, deixando-me para trás, novamente. A escuridão me engoliu.
As próximas horas foram um borrão. Eu estava na sala de emergência, sentindo uma dor excruciante no abdômen. Sons distorcidos, vozes abafadas. Um médico, uma enfermeira.
Você está grávida, Senhora Mendes. O que está acontecendo?
Eu me encolhi, as mãos apertando a barriga. Não, por favor, não.
Minha mente lutava para se manter consciente. Heitor veria meus exames. Ele saberia.
O celular de Davi tocou. Era Heitor. Ele o dispensou, com uma ordem rápida. Heitor estava focado em Regina.
O médico voltou, seu rosto grave. "Sinto muito, Senhora Mendes. Você perdeu o bebê."
O mundo desabou sobre mim. Meu bebê. Meu único laço com a esperança, com um futuro diferente. Se foi.
"Eu... eu não contei a ele," o médico disse, sua voz hesitante. "Sobre a gravidez. Ele me ligou, perguntando sobre a senhora, mas eu... não revelei."
"Obrigada," eu sussurrei, as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. "Por favor, mantenha segredo."
Horas mais tarde, ainda fraca, eu ouvia as enfermeiras cochicharem.
"A esposa do Mendes está aqui? Não, a socialite Regina Moreira. Ela tentou se matar, coitadinha. Mas agora está bem. E o Heitor Mendes, oh, ele é tão atencioso. Está ao lado dela o tempo todo."
"Sim, e parece que ela está grávida! Um herdeiro para os Mendes! Não é maravilhoso?"
Um choque gelado me percorreu. Um herdeiro para os Mendes. Com Regina. A ironia era cruel, insuportável. Eu havia perdido o meu, e ele estava lá, consolando a mulher que alegava carregar o filho dele.
Eu era uma sombra, esquecida, descartada.
Fui liberada do hospital. Minhas pernas mal me sustentavam. Fui direto ao cartório, onde meu advogado me esperava com a sentença de divórcio. Assinei os últimos documentos, sentindo uma estranha paz no vazio do meu peito.
"Por favor," eu disse ao meu advogado, minha voz rouca, "envie a cópia para Heitor Mendes daqui a um mês. Não antes."
Ele me olhou, confuso, mas assentiu.
Eu caminhei até a caixa de correio mais próxima e, com um suspiro, joguei meu bilhete para a liberdade. Um bilhete com a assinatura dele, sem ele saber. Um bilhete que agora carregava o peso do meu filho perdido. Ele nunca me encontraria. Não na minha nova vida.