"Cara Dra. Ortega," o e-mail começava, em um português perfeito. "Lamentamos profundamente sua perda. A Universidade de Berna e a Fundação Suíça de Biotecnologia Gostaríamos de expressar nosso total apoio neste momento. Sua bolsa está garantida, e faremos todos os ajustes necessários para que você tenha o tempo e o ambiente para se recuperar e, quando estiver pronta, brilhar. Você é uma cientista brilhante e valorizada. Conte conosco para tudo."
Lágrimas rolaram pelo meu rosto. Pela primeira vez em anos, eu não me sentia sozinha. Eu era vista. Eu era valorizada. Eu tinha esperança.
Eu digitei uma resposta curta, mas sincera, expressando minha gratidão. Era o suficiente. Eu tinha um futuro, mesmo que ele não incluísse um bebê.
No dia da viagem, o aeroporto era um labirinto de emoções. Medo, excitação, tristeza. Eu procurava pelo representante da fundação que me apanharia.
"Dra. Ortega?" Uma voz calorosa me chamou. Um homem de meia-idade, com um sorriso gentil e olhos amigáveis. "Sou Klaus, da Universidade de Berna. Bem-vinda à sua nova vida."
Ele pegou minha mala, como se fosse leve. "Seus assentos são prioritários. Primeira classe, para o seu conforto. A Fundação se preocupou com os detalhes."
Enquanto Klaus me conduzia, seu corpo alto bloqueou minha visão por um segundo. Quando ele se moveu, eu o vi.
Heitor. Ele estava na sala VIP, rindo. Regina estava ao lado dele, aninhada em seu braço, sorrindo de forma vitoriosa. Eles pareciam o casal perfeito, o futuro brilhante que eu nunca tive com ele.
Heitor de repente parou de rir. Ele olhou em volta, como se sentisse algo. Ele virou a cabeça na minha direção, seus olhos pesquisando a multidão.
"Você sentiu isso, Heitor?" Regina perguntou, sua voz um pouco irritada. "Parece que você viu um fantasma. Alguém mencionou a Luna para você?" Ela o puxou pelo braço, ajeitando a gravata dele. "Vamos, meu amor. Nosso voo sai em breve. Esqueça o passado."
Klaus me conduziu por entre a multidão, e eles desapareceram da minha vista.
No avião, Klaus continuou me explicando com entusiasmo sobre o laboratório. "Nós investimos pesado em equipamentos de última geração, Dra. Ortega. Especialmente para sua linha de pesquisa. Sua chegada é muito aguardada."
Ele também mencionou que a fundação havia feito arranjos para flexibilizar meus horários, dada a "recente dificuldade pessoal", para que eu pudesse me adaptar. Pela primeira vez, eu senti o peso da minha dor ser reconhecido, não ignorado. Eles me viam, eles me ouviam. Eu era mais do que a "esposa de papel" de Heitor Mendes.
Klaus me entregou um pacote de cartões-postais da Suíça. "Para você enviar para quem quiser. Para registrar sua nova jornada."
Eu olhei para os cartões. Para quem eu escreveria? Não havia ninguém.
Eu os joguei na lixeira do avião. O som do papel caindo no fundo da lixeira foi, para mim, um som de libertação.
"Ninguém para escrever?" Klaus perguntou, gentilmente.
Eu olhei pela janela. A imagem de Heitor e Regina, confortáveis e felizes em sua bolha, ainda estava fresca em minha mente. Aquele homem, minha família, meu passado. Tudo se misturava em uma imagem turva de abandono.
"Não mais," respondi, minha voz um sussurro. "Não mais."
O avião começou a se mover, deslizando pela pista. Klaus continuou falando sobre as montanhas, o chocolate, a nova vida que me esperava. Eu coloquei a mão na janela, sentindo a vibração suave do motor.
Adeus, passado. Adeus, Heitor. Adeus, velha Luna.