Ponto de vista de Seraphina Vitiello
O Uber ficou parado em frente aos enormes portões de ferro.
Era a manhã do casamento, e o ar vibrava com uma energia frenética.
Caminhões de entrega faziam fila para entrar. Flores. Buffet. Os arquitetos de um conto de fadas que eu estava prestes a arruinar.
Saí do carro.
Caminhei até a guarita, com a coluna rígida devido à dor persistente no corpo.
"Ligue para Dante", eu disse.
O guarda hesitou, seu olhar percorrendo meu corpo por um instante, antes de pegar o telefone.
Um minuto depois, Dante desceu a entrada da garagem.
Ele parecia acabado. Havia olheiras escuras e profundas sob seus olhos, como se não dormisse há dias.
Ele me viu e fez uma careta.
"Você deveria estar em um avião a caminho de Londres", disse ele.
Sua voz era rouca, um arranhar de cascalho.
"Perdi meu voo", menti.
Ele passou a mão pelos cabelos, um gesto de puro cansaço.
"Jesus, Seraphina. Você nunca vai parar de ser um fardo? Não tenho tempo para isso. Tenho que me casar daqui a quatro horas."
"Eu sei", eu disse.
Estendi a caixa branca.
"Eu só queria te dar isso."
Ele olhou para aquilo com desconfiança, sem fazer qualquer movimento para tocá-lo.
"O que é?"
"Um presente de casamento", eu disse, forçando a palavra a escapar dos meus lábios. "Para o meu cunhado."
Ele não aceitou.
Marco, seu subchefe, deu um passo à frente e pegou a caixa da minha mão.
"Verifique se há bombas", murmurou Dante.
Quase sorri.
É uma bomba, Dante, pensei. Só que não é do tipo que explode. É do tipo que não deixa nada para trás.
"Não vou para Londres", disse eu baixinho.
Ele olhou para mim então. Olhou mesmo para mim, seus olhos procurando nos meus o jogo que eu estava jogando.
"O que?"
"Vou embora", eu disse. "Para algum lugar onde você nunca me encontrará."
"Ótimo", disse ele.
A palavra pairou no ar entre nós.
Frio. Absolvente. Final.
Ele me virou as costas.
Ele voltou pela entrada de carros, caminhando em direção à casa onde minha irmã o esperava para se casar com ele.
Ele caminhou em direção à mentira que havia escolhido.
Eu o observei partir até que ele se tornou apenas um borrão contra a paisagem impecavelmente cuidada.
"Adeus, Dante", sussurrei.
Voltei para o Uber.
"Aeroporto", eu disse ao motorista.
Assim que entramos na rodovia, abaixei o vidro.
Retirei o cartão SIM do meu celular.
Com um estalo seco, eu o quebrei ao meio.
Joguei pela janela.
Eu vi o objeto quicar no asfalto e desaparecer na correria do trânsito.
O vento chicoteou meus cabelos contra meu rosto.
Respirei fundo.
Doía nas minhas costelas machucadas, mas o ar tinha um gosto diferente.
Não tinha gosto de sangue, nem de perfume caro, nem de medo.
Não tinha gosto de nada.
E nada era exatamente o que eu queria ser.
A jovem que amava Dante Moretti morreu em um porão em Chicago.
A mulher que desembarcasse em Sydney seria uma pessoa completamente diferente.
Fechei os olhos e deixei a distância me engolir por completo.