Ele já havia tirado o paletó do smoking. Agora, enrolava as mangas metodicamente, revelando as tatuagens em seus antebraços.
Meu pai estava sentado num banquinho de madeira no canto, fumando um charuto tranquilamente.
"Cinquenta chicotadas", disse meu pai, a fumaça envolvendo suas palavras. "Por roubo. Por desrespeito. E por estragar o brinde."
Eu estava de joelhos.
Minhas mãos estavam presas com abraçadeiras de plástico a um cano de água fria que corria ao longo do teto acima da minha cabeça.
Minhas costas estavam expostas ao ar úmido. O vestido preto caro havia sido rasgado do decote até a cintura.
Dante pegou uma tira de couro que estava sobre a mesa.
Isabella estava atrás dele, espiando do corredor.
Ela parecia animada, com os olhos brilhando com uma curiosidade cruel.
"Certifique-se de que ela aprenda, Dante", disse ela, com a voz aguda e exigente. "Ela precisa aprender o seu lugar."
Dante parou e olhou para ela.
"Espere lá fora, Isabella", ordenou ele, com voz monótona. "Isto é horrível. Você não deveria ver."
"Não, eu quero ficar", disse ela, fazendo beicinho e cruzando os braços.
"Então vire-se", ordenou ele. "Cubra os ouvidos."
Ele estava tentando proteger a inocência dela.
Mas ele estava prestes a arrancar a pele das minhas costas.
Ele caminhou atrás de mim.
Eu não implorei.
Eu não chorei.
Simplesmente encostei a testa na condensação do cano frio e fechei os olhos.
Um.
O couro estalou contra a minha pele com um estalo repugnante.
Uma dor lancinante e cegante explodiu sobre meus ombros.
Dois.
Três.
Ele entrou num ritmo.
Metódico. Preciso.
Ele era um profissional.
Pelo jeito de balançar o corpo, percebi que ele não estava fazendo isso por raiva. Ele estava fazendo isso por dever.
Isso piorou a situação.
Por volta da vigésima chicotada, eu já não conseguia distinguir os golpes individuais.
Era como uma parede contínua de fogo queimando minha carne.
O sangue começou a escorrer pelas minhas laterais. Ouvi o suave *pinga-pinga* quando atingiu o chão de concreto.
Mordi o lábio até sentir o gosto de cobre para não gritar.
Eu não lhes daria essa satisfação.
Forcei meus pensamentos a se afastarem. Pensei na passagem para Londres escondida no meu quarto.
Pensei no avião decolando, nos motores rugindo.
Pensei nas nuvens que pareciam algodão sob meus pés.
Quarenta e nove.
Cinqüenta.
Dante parou.
Ele estava respirando com dificuldade atrás de mim.
Ele deixou cair a alça.
Caiu no chão com um baque pesado e úmido.
"Corte-a", disse meu pai, levantando-se e sacudindo as cinzas das calças. "Deixe-a aqui para pensar nisso até o voo."
Dante tirou uma faca do cinto e cortou as abraçadeiras de plástico.
Desmaiei imediatamente.
Minhas pernas não me sustentavam.
Eu caí com força no chão molhado.
A dor era lancinante, irradiando da minha coluna até a ponta dos dedos.
Dante ficou parado sobre mim por um segundo.
Por um breve e delirante instante, pensei ter visto hesitação em seus olhos.
Ele estendeu a mão, pairando como se fosse tocar meu ombro.
Então Isabella chamou-o pelo nome da porta, com voz impaciente.
"Dante, já terminamos? Os fogos de artifício vão começar!"
Ele retirou a mão imediatamente.
"Terminamos", disse ele, com a voz desprovida de emoção.
Ele se virou e foi embora sem olhar para trás.
A pesada porta de metal bateu com força.
A fechadura engatou com um clique final e retumbante.
Eu estava sozinho no escuro.
De novo.
Fiquei ali deitada por um longo tempo, tremendo contra o concreto.
Eu estava esperando que a escuridão me envolvesse.
Mas não aconteceu.
Meu instinto de sobrevivência - a única coisa que eles não conseguiram arrancar de mim - entrou em ação com toda a força.
Arrastei-me pelo chão até o canto onde ficavam os materiais de limpeza.
Encontrei uma garrafa de vodka barata que os guardas do meu pai mantinham escondida atrás de um balde.
Encontrei um kit de costura na caixa de emergência.
Destapei a garrafa e derramei a vodka nas minhas costas doloridas.
O grito rasgou minha garganta naquele instante. Um som bruto, animalesco, que ecoou pelas paredes do porão.
Passei a linha pela agulha com os dedos trêmulos.
Não consegui alcançar tudo.
Mas costurei o que pude.
Costurei minha própria pele de volta na penumbra, com as mãos trêmulas e o coração que finalmente se transformara em pedra.
Meu celular vibrou no meu bolso.
Retirei o aparelho, e a tela iluminou o sangue em minhas mãos.
Uma mensagem de Isabella.
Era uma foto.
Ela e Dante, em pé sob a explosão dos fogos de artifício.
Ela estava beijando-o.
*Ele é finalmente meu*, dizia a legenda.
Fiquei olhando fixamente para a tela.
Não senti ciúmes.
Não senti tristeza.
Não senti nada.
O amor que eu sentia por ele morreu naquele chão de concreto, lavado junto com o sangue e a vodca barata.
Apaguei a foto.
Guardei o telefone.
Encolhi-me no chão frio, com a agulha ainda apertada na mão.
Eu não estava mais esperando por Londres.
Eu estava esperando a minha oportunidade.