A contusão no meu braço, uma lembrança de quando o soldado me arrastou até o necrotério, latejava.
Mas aquela dor não era nada comparada à dor da pulseira de pedra vulcânica contra meu pulso.
Era uma coisa barata.
Pedras pretas, ásperas e porosas, presas a um simples elástico.
Eu tinha conseguido entrar na casa segura.
Eu o coloquei no pulso de Dante quando a febre dele passou.
*Para te manter de pé*, eu lhe disse.
Ele me devolveu no dia em que partiu, antes de recuperar a visão.
*Guarde para mim, Sette. Até nos vermos.*
Mas ele nunca me viu.
Ele só viu Isabella.
Do outro lado da sala, vi o olhar de Isabella se voltar para mim.
Ela não estava olhando para o meu rosto. Ela estava fixada no meu pulso.
Seus olhos se estreitaram.
Ela sussurrou algo para Dante.
Ele se enrijeceu.
Eles começaram a caminhar em minha direção.
A multidão se abriu para eles como o Mar Vermelho.
Dante estava letal em seu smoking. Um predador em traje formal.
Isabella usava a máscara de vítima que sempre fingia ser.
"Aquela pulseira", disse Isabella, com a voz tremendo o suficiente para chamar a atenção.
Cobri meu pulso com a outra mão, um escudo inútil.
"É meu", eu disse.
"É aquele que eu fiz para Dante", mentiu ela. "Aquele que sumiu da minha caixa de joias."
Para ela, mentir era muito fácil.
Deslizou da língua dela como mel.
Os olhos de Dante se voltaram para a minha mão.
"Mostre-me", ordenou ele.
Eu não me mexi.
Ele estendeu a mão e agarrou meu pulso.
Seu aperto de mão era de ferro.
Ele levantou minha manga.
As contas pretas contrastavam fortemente com minha pele pálida.
"Você roubou isso dela?" perguntou Dante. Sua voz era baixa, ameaçadora.
Olhei para ele.
Procurei por um lampejo de reconhecimento.
Procurei pelo homem que havia beijado a ponta desses dedos no escuro.
"Eu que fiz isso", sussurrei. "Eu te dei."
"Mentiroso!" gritou Isabella.
Ela se virou para a multidão que se aglomerava, e lágrimas brotaram instantaneamente em seus olhos.
"Ela rouba tudo! Minhas roupas, minhas joias. Agora ela tenta roubar as lembranças de como eu te salvei, Dante!"
Os murmúrios começaram.
*A irmã ciumenta.*
*Aquele que é instável.*
O rosto de Dante endureceu como pedra.
"Tire isso", disse ele.
"Não", eu disse.
Foi a primeira vez que desobedeci a uma ordem direta de um Capo em público.
O ar foi sugado para fora da sala.
Meu pai apareceu ao nosso lado.
Seu rosto estava roxo de raiva.
"Dê isso à sua irmã, Seraphina. Não envergonhe esta família."
"É meu", repeti. "Eu sou Sette."
Meu pai não me deixou terminar.
Desta vez, ele não usou as costas da mão.
Ele usou o punho.
Ele me acertou em cheio no queixo.
A força do golpe me levantou do chão.
Eu voei para trás.
Eu bati com tudo na torre de champanhe.
Vidro estilhaçado.
Centenas de flautas de cristal explodiram ao meu redor.
Eu caí no chão com força.
Estilhaços de vidro cortaram meus braços, minhas costas, meu pescoço.
O champanhe encharcou meu vestido, ardendo nos cortes recentes.
Fiquei ali deitada, atordoada.
Sangue misturado com o vinho caro, formando uma poça no chão de mármore branco.
Olhei para cima através de uma névoa de dor.
Minha mãe estava parada sobre mim.
Ela segurava uma taça de vinho tinto.
Ela despejou aquilo no meu rosto.
"Que vergonha!", ela cuspiu as palavras.
O vinho escorreu para os meus olhos, ardendo como ácido.
Pisquei, tentando clarear minha visão.
Eu vi Dante.
Ele não estava olhando para mim.
Ele segurava as mãos de Isabella, examinando-as.
"Algum vidro te atingiu?", perguntou ele, com urgência.
"Não", ela soluçou. "Mas ela arruinou a festa, Dante. Ela arruinou tudo."
Ele a puxou para perto do seu peito.
"Não olhe para ela", disse ele.
Ele passou por cima das minhas pernas.
Ele estendeu a mão e arrancou a pulseira do meu pulso.
O elástico arrebentou.
As contas espalhadas pelo chão, rolando no sangue e no vinho.
Ele recolheu os poucos que restaram no fio e os entregou a Isabella.
"Sinto muito que ela tenha tirado isso de você", disse ele suavemente.
Eu jazia nos destroços da celebração.
Sangramento.
Quebrado.
E completamente invisível.