Quando cheguei ao prédio da cobertura dele, no centro da cidade, o porteiro me deixou entrar sem dizer uma palavra. Ele sabia quem eu era. Ou melhor, ele sabia quem era minha irmã; eu era apenas o fantasma que seguia seus passos.
A viagem de elevador foi uma subida suave e silenciosa.
Quando as portas se abriram, o som das risadas me atingiu como um golpe físico.
Isabella estava esparramada no sofá de couro, segurando uma taça de champanhe, enquanto Dante estava de pé junto à janela, olhando para as luzes da cidade.
Ele vestia um terno cinza-escuro, feito sob medida para ombros que pareciam largos o suficiente para sustentar o peso da cidade. Letal.
Ele se virou quando eu entrei.
Seus olhos eram escuros, inteligentes e completamente frios.
Não havia reconhecimento algum neles. Nenhuma lembrança das noites em que o abracei enquanto ele gritava de dor. Nenhum vestígio das promessas que ele sussurrara à garota no escuro.
"Você está atrasado", disse ele.
Sua voz era um murmúrio grave que vibrava profundamente em meu peito.
"Peço desculpas", eu disse baixinho.
Mantive os olhos fixos no nó da sua gravata. Não conseguia olhar para o seu rosto; doía demais ver um estranho me encarando.
Isabella se levantou e flutuou em direção a ele, colocando uma mão possessiva em seu braço.
"Não seja tão duro, Dante. Ela provavelmente se perdeu. Você sabe que Seraphina não é muito... esperta."
Ela sorriu para mim. Era um sorriso de predador, cheio de dentes e sem nenhuma ternura.
Dante olhou para a mão dela em seu braço e depois para mim.
Sem dizer uma palavra, ele enfiou a mão no bolso do paletó e tirou um envelope cor creme.
Ele me estendeu a mão.
Dei um passo à frente e peguei. Era pesado, impresso em papel cartão caro.
O convite de casamento.
*Dante Moretti e Isabella Vitiello.*
"Esperamos que você esteja lá", disse Dante, com um tom clínico. "Para demonstrar união. Os rumores sobre sua instabilidade mental estão afetando a imagem da família."
*Instabilidade mental.*
Essa era a versão da Isabella. A Seraphina é louca. A Seraphina inventa coisas. A Seraphina tem inveja.
Olhei para o convite. A fonte era uma caligrafia elegante, mas para mim, parecia uma inscrição em uma lápide.
"Entendido", eu disse.
Dante estreitou os olhos.
Ele se aproximou, invadindo meu espaço pessoal até que eu pudesse sentir seu cheiro. Sândalo e pólvora.
Era o mesmo cheiro que havia impregnado a casa segura - o cheiro que antes significava segurança. Agora, exalava perigo.
"É só isso que você tem a dizer?", perguntou ele.
"O que você gostaria que eu dissesse?", perguntei, mantendo a voz neutra. "Parabéns?"
Isabella riu - um som frágil e teatral.
"Viu? Ela está tão amargurada."
O maxilar de Dante se contraiu.
"Vamos ao clube", disse ele abruptamente. "Você virá conosco. Precisamos ser vistos em público como uma família."
Eu não queria ir, mas não tive escolha.
Descemos de elevador privativo até o carro que nos esperava.
Fomos de carro até o The Onyx, o clube que pertencia a Dante, onde os paparazzi já estavam à espreita como abutres.
Assim que as portas se abriram, flashes de luz explodiram como tiros.
Dante saiu primeiro, estendendo a mão para Isabella. Ela saiu, radiante, absorvendo a atenção como se fosse a luz do sol.
Eu o segui, mantendo a cabeça baixa.
Caminhamos em direção à entrada, sob o zumbido alto do letreiro de neon. *THE ONYX*.
Levantei o olhar justamente quando uma faísca caiu.
Então ouviu-se o guincho do metal se rasgando.
O pesado parafuso de sustentação se rompeu. A enorme letra 'O' se desprendeu da fachada de tijolos.
Estava caindo.
Diretamente em nossa direção.
"Cuidado!" gritou alguém.
O tempo pareceu se fragmentar.
Vi a reação de Dante. Seus reflexos eram apurados, quase sobre-humanos.
Ele estava entre mim e Isabella. Ele tinha uma fração de segundo para escolher.
Ele poderia ter nos empurrado a ambos. Ou poderia ter garantido a segurança absoluta de um de nós.
Ele não hesitou.
Ele deu um salto para a direita.
Ele envolveu Isabella em seus braços, protegendo-a com o próprio corpo, e mergulhou para longe da zona de impacto.
Ele me deixou ali plantada.
Eu não me mexi. Não tentei correr. Apenas observei enquanto ele a escolhia.
A placa de metal bateu com força no asfalto.
Atingiu meu ombro e fraturou minha tíbia esquerda.
A dor era intensa, cegante e absoluta.
Eu desmaiei.
O mundo se transformou num turbilhão de vozes gritando e luzes piscando.
Eu estava deitada no concreto frio, com o gosto de cobre na boca. Através da névoa da dor, virei a cabeça.
Eu vi Dante se levantando.
Ele estava examinando Isabella freneticamente.
"Você está ferida?", perguntou ele, com a voz carregada de pânico. "Deixe-me ver suas mãos."
Isabella chorava, agarrada a ele, embora não tivesse um arranhão sequer.
Dante segurou o rosto dela entre as mãos, enxugando suas lágrimas.
Ele não olhou para mim.
Nem uma vez.
Fechei os olhos e deixei a escuridão me envolver.