Ponto de vista de Seraphina Vitiello
A porta se abriu com um rangido, o som de metal rangendo ecoando contra as paredes de concreto.
Uma luz intensa e repentina invadiu o ambiente, cegando-me.
Eu estava encolhida num canto, com os lábios azulados e o corpo tremendo incontrolavelmente.
Dante estava parado na porta.
Ele estava seco agora, impecável em um terno novo.
Ele olhou para mim com evidente desgosto.
"Levante-se", disse ele.
Eu tentei. Mas minhas pernas não respondiam; estavam dormentes, um peso morto embaixo de mim.
Ele suspirou, impaciente.
Ele se aproximou e me puxou pelo braço sem nenhuma delicadeza.
Meus membros congelados gritaram em protesto enquanto o sangue retornava rápido demais.
"Você se arrependeu?", perguntou ele.
Eu olhei para ele.
Seus olhos eram duros como pedra.
"Sim", sussurrei. Minha voz era um rouco entrecortado.
"Ótimo. Porque hoje à noite é o baile de noivado. Você estará lá. Você vai sorrir. E vai pedir desculpas à sua irmã."
Ele me arrastou para fora do necrotério.
Ele não me ofereceu um casaco.
Voltamos à propriedade em silêncio.
Assim que entrei, fui direto para o meu quarto.
Tomei um banho escaldante, tentando esfregar o cheiro de morte da minha pele.
Minha pele ficou irritada e vermelha, mas eu ainda sentia frio por dentro.
Depois de me secar, fui até meu closet.
Peguei uma caixa de sapatos na prateleira de trás.
Continha tudo.
Uma flor seca do jardim da casa segura.
Um pedaço de gaze ensanguentada que eu havia guardado de quando cuidei dos ferimentos dele.
Uma foto que tirei dele dormindo, com os olhos vendados.
Eu olhei para eles.
Lixo.
Era tudo lixo.
Levei a caixa até o tubo de lixo no corredor.
Dante estava passando por perto quando me aproximei. Ele parou.
"O que é isso?", perguntou ele.
"Lixo", eu disse.
Abri a calha.
Eu inclinei a caixa.
As lembranças despencaram na escuridão.
Ouvi o barulho do impacto final no compactador, três andares abaixo.
"É melhor se livrar da bagunça", disse Dante, ajustando os punhos da camisa com indiferença. "Você vai para Londres daqui a dois dias, de qualquer forma."
"Sim", eu disse, com a voz oca. "Só bagunça."
Voltei para o meu quarto e me vesti.
Escolhi um vestido preto.
Mangas compridas para esconder os hematomas de onde os soldados me agarraram.
Uma gola alta para esconder a marca do anel do meu pai.
Eu parecia uma viúva.
Desci até o salão de baile.
Estava repleto da elite do submundo do crime.
Lustres de cristal cintilavam no teto. Torres de champanhe refletiam a luz.
Isabella estava vestida de branco. Claro.
Ela parecia um anjo.
Meu pai bateu com a mão no copo.
Um silêncio profundo tomou conta da sala.
"Estamos aqui para celebrar a união das famílias Vitiello e Moretti", anunciou ele.
Irromperam aplausos e vivas.
Dante subiu ao palco. Pegou o microfone.
Ele olhou para Isabella com um olhar possessivo que me deu ânsia de vômito.
"Isabella é a luz da minha vida", disse ele, com voz suave. "Ela me salvou quando eu estava na escuridão."
Ele se virou para ela e tirou uma caixinha de anel do bolso.
Um enorme diamante brilhava em seu interior.
"Case comigo, Isabella."
"Sim!" ela gritou.
Ela o beijou.
A multidão rugiu.
Fiquei no fundo, escondida perto da porta da cozinha.
Eu vi o homem que amava prometer sua vida à mulher que queria colher meus órgãos.
Senti uma estranha sensação de paz.
A esperança havia morrido.
E com a morte da esperança, a dor finalmente cessou.
Eu era apenas um fantasma agora.
E fantasmas não choram em seus próprios funerais.