Ponto de vista de Andrius
O pátio estava um caos barulhento.
Alunos corriam de um lado para o outro, conversas animadas enchiam o ar, bandejas de comida eram equilibradas com pressa. Alguns professores almoçavam ao ar livre, outros se misturavam com os alunos. Mas eu não fazia parte dessa confusão. Nunca fiz.
Equilibrando uma pilha de livros nos braços, atravessei o corredor com passos firmes. Eu só queria um pouco de silêncio. Não tinha paciência para almoçar no mesmo espaço que os outros. Meu plano era me trancar na sala dos professores, revisar algumas provas e, acima de tudo, evitar qualquer interação desnecessária.
Mas então, eu o vi.
Tomas.
Ele estava do lado de fora, sentado com outros dois professores, rindo de algo que um deles disse. Sua postura estava mais relaxada do que eu jamais o havia visto. Ele gesticulava enquanto falava, os olhos brilhando de animação.
E aquilo me irritou.
Fechei a cara instantaneamente. Depois da cena no banheiro, eu esperava que ele estivesse mais... afetado. Que se recolhesse. Mas ali estava ele, conversando, sorrindo.
Como se eu não tivesse causado nada nele.
Isso deveria me deixar aliviado. Mas, por algum motivo, não deixou.
Entrei na sala dos professores e fechei a porta com mais força do que o necessário. O ambiente era silencioso, com apenas alguns papéis espalhados pelas mesas e o aroma de café pairando no ar. Larguei os livros sobre a mesa e soltei um suspiro pesado, passando a mão pelo rosto.
Mas meus olhos voltaram para ele.
Do vidro da janela, eu ainda podia vê-lo.
E então aconteceu.
Tomas passou a mão pelo cabelo de um jeito distraído, mordendo o lábio inferior enquanto ouvia alguém falar.
Meu peito apertou.
Meu corpo inteiro ficou tenso.
Por um instante, foi como se o tempo tivesse se dissolvido.
Porque aquilo... aquele gesto... era exatamente algo que Tom fazia.
Lembrei-me de Tom sentado no gramado da universidade, o sol iluminando seus cabelos escuros, sorrindo para mim daquele mesmo jeito, passando a mão pelo cabelo de forma distraída antes de dizer: "Andy, para de me encarar assim, parece que quer me devorar vivo."
Eu fechei os olhos, sentindo o coração martelar contra as costelas.
Aquilo não podia estar acontecendo.
Tomas não era Tom.
Mas meu corpo, minha mente-meu coração estúpido-não conseguiam entender essa diferença.
Apertei os punhos.
Respirei fundo, tentando ignorar a dor que se espalhava dentro de mim como um veneno lento.
Eu estava perdendo o controle.
E isso era perigoso.
Ponto de vista de Tomas
No instante em que entrei na sala, o silêncio me envolveu como um manto pesado.
Andrius estava sentado à mesa, olhos fixos em um livro, rabiscando algo com concentração intensa. Parecia completamente alheio à minha presença, mas eu sabia que não era verdade. Ele sempre sabia quando eu estava por perto.
Então, sem tirar os olhos da página, ele disse três palavras.
- Você não vai durar aqui.
Simples. Cruel. Direto.
Meu peito apertou. Não só pela hostilidade evidente naquelas palavras, mas pelo tom. Ele queria que eu fosse embora. Ele queria que eu desistisse.
Mas eu não sou covarde.
E por algum motivo, algo dentro de mim-talvez uma raiva latente, talvez um desejo de enfrentá-lo-me fez responder sem hesitar:
- Eu não sou tão frágil quanto você pensa.
Minha voz saiu firme, sem tremores.
Andrius finalmente ergueu o olhar, e naquele instante, algo mudou.
Ele me olhava como se tivesse levado um soco no estômago. Como se tivesse visto um fantasma.
O ar na sala ficou pesado, elétrico.
E então percebi.
Ele não estava olhando para mim. Não de verdade. Ele estava vendo alguém mais.
Tom.
Seus olhos azuis se estreitaram, e seu maxilar ficou tenso. Por um breve momento, vi algo que parecia medo misturado com raiva. Como se ele estivesse lutando contra algo dentro de si.
Eu deveria me desculpar? Deveria recuar?
Não.
Porque pela primeira vez desde que conheci Andrius, eu senti que tinha algum poder sobre ele.
E talvez... só talvez... ele estivesse mais perdido do que eu.