"Aqui", disse ele, me entregando um envelope pardo.
Eu o abri. Um passaporte. Uma carteira de motorista. CPF. Tudo em nome de Catarina Alves.
"Por quê?", perguntei.
"Porque você é a melhor lavadora de dinheiro que esta cidade já viu", disse ele, a voz baixa e áspera. "E porque Dante é um tolo que jogou fora um diamante para pegar um caco de vidro."
Peguei o envelope. Não agradeci. No nosso mundo, gratidão era uma dívida, e eu já estava no vermelho.
Voltei para o hotel antes do amanhecer.
Dante estava me esperando na sala de estar da suíte. Ele andava de um lado para o outro, um copo de uísque na mão, o líquido âmbar balançando contra as paredes do copo.
"Onde você estava?", ele exigiu.
"Andando", eu disse, mantendo a voz firme. "Tentando lembrar quem eu sou."
Ele se abrandou instantaneamente. Pousou o copo e veio até mim. Cheirava a colônia cara e ao perfume fraco e enjoativo de Sofia.
"Senti sua falta, Elena. Todos os dias."
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma caixa de veludo. Abriu-a.
Dentro havia um enorme diamante amarelo em forma de coração. Era cafona. Era chamativo. Era tudo que eu odiava.
"Para você", disse ele. "Para substituir os anos que perdemos."
Estendi a mão. Ele deslizou o anel no meu dedo.
Não parou. Deslizou direto pela junta do meu dedo e girou frouxamente na base.
Era grande demais.
Eu tenho dedos finos. Dedos de pianista, Dante costumava dizer. Sofia tem mãos de camponesa, grossas e fortes.
Dante congelou. Ele tentou ajustá-lo, o rosto ficando vermelho.
"Deve ser... você perdeu peso", ele gaguejou. "Por causa do coma."
Puxei minha mão de volta. O anel caiu no tapete com um baque surdo.
"Foi ajustado para ela, não foi?", perguntei, minha voz fria. "Você comprou isso para ela, ela não gostou, então você deu para o fantasma."
"Elena, não, não é isso-"
Eu o cortei. "Se as famílias entrarem em guerra hoje, Dante, agora mesmo... quem você salva? Eu? Ou a mãe do herdeiro?"
Ele abriu a boca para responder.
Seu telefone tocou.
O toque era específico. Era o que ele usava para assuntos de alta prioridade da família.
Ele olhou para a tela. Seus olhos se moveram para mim, depois de volta para o telefone.
"Preciso atender", disse ele. "É urgente."
"É ela, não é?"
"É assunto de família, Elena. Volto já."
Ele saiu para a varanda, fechando a porta de vidro. Observei-o atender a chamada. Vi sua postura relaxar. Vi-o sorrir.
Ele não estava negociando uma guerra. Estava acalmando um ataque de birra.
Olhei para o anel no tapete. Brilhava sob as luzes do lustre, um milhão de reais de carbono comprimido que não significava absolutamente nada.
Eu o peguei.
Fui até a lixeira da pequena cozinha.
Joguei-o dentro. Ele bateu contra uma lata de refrigerante vazia com um som final e oco.
"Eu não sou um prêmio de consolação, Dante", sussurrei para a sala vazia.
Fui para o quarto e arrumei as poucas roupas que tinha. Coloquei os documentos de Catarina Alves no forro da minha bolsa.
Quando Dante voltou, ele parecia aliviado.
"Desculpe, amor", disse ele. "Apenas um pequeno problema com uma remessa. Agora, sobre o anel..."
Apontei para a lixeira.
"Não serviu", eu disse. "Assim como eu não sirvo mais aqui."