O espelho interno devolveu sua imagem: Postura impecável, maquiagem leve, cabelo perfeitamente preso. Por fora, controle absoluto. Por dentro, um campo de batalha.
Quando as portas se abriram, o andar executivo estava ainda vazio, silencioso demais para um prédio que normalmente pulsava de energia desde cedo.
Isabela deu poucos passos quando viu a porta de vidro fosco do escritório de Alexander já entreaberta.
A luz acesa denunciava que ele estava lá, esperando por ela.
Ela bateu duas vezes para anunciar sua chegada.
"Entre." Veio a voz grave, sem emoção aparente.
Isabela empurrou a porta e entrou.
Alexander estava sentado atrás de sua enorme mesa de vidro, já vestido com um terno escuro impecável. À sua frente, pilhas de documentos, um tablet aberto e duas xícaras de café fumegante.
Ele levantou o olhar assim que ela entrou.
Por um instante, quase imperceptível, seus olhos percorreram o rosto dela como se quisessem ler algo além da máscara profissional que ela carregava.
"Você veio cedo." Disse ele.
"Você me chamou cedo." Ela retrucou, caminhando até a cadeira diante dele.
Alexander inclinou a cadeira com um gesto breve.
Isabela sentou-se, cruzando as pernas com elegância calculada.
O silêncio entre eles era denso, quase palpável.
Alexander encostou-se levemente na cadeira, entrelaçando os dedos sobre a mesa.
"Dormiu bem?" perguntou, inesperadamente.
Isabela ergueu uma sobrancelha.
"Você acha mesmo que alguém pode dormir bem, depois de virar manchete nacional?
Um leve brilho, quase divertido, passou pelos olhos dele.
"Justo."
Ela pegou a xícara de café a sua frente e deu um pequeno gole, tentando ganhar tempo.
"Então" começou ela "vamos direto ao ponto. Você me chamou aqui para...?"
Alexander inclinou-se para frente.
O ar mudou imediatamente.
"Para deixar claro o que está em jogo." Disse ele, a voz baixa, firme. "E para formalizar minha proposta.
Isabela pousou a xícara.
"Já ouvi sua proposta ontem. Casamento por contrato, por doze meses. Uma loucura completa."
Ele não recuou.
"Uma solução estratégica."
Ela riu, sem humor.
"Você chama isso de estratégia?"
Alexander a estudou por alguns segundos antes de responder:
"Chamo isso de sobrevivência corporativa."
Isabela cruzou os braços.
"Sobrevivência sua, você quer dizer." Corrigiu.
Ele não negou.
"Minha, da empresa, e... sua."
A palavra 'sua' ecoou de forma diferente.
Isabela sentiu um arrepio.
"Por favor, não tente pintar isso como altruísmo de sua parte." Disse ela, mais dura do que pretendia. "Você quer proteger seu império e eu sou apenas um meio para isso.
Alexander respirou fundo.
"Você não é só um 'meio', Isabela.
Seu nome, saindo dos lábios dele, fez algo apertar em seu peito.
Ele continuou:
"Você é a única pessoa em quem confio completamente, dentro dessa empresa, para algo dessa magnitude.
Ela piscou, surpresa, mas não deixou isso transparecer em sua expressão.
"Que honra" respondeu, seca. "Mas está se esquecendo que, ao fazer isso, está me tornando alvo de fofocas dentro da empresa.
Isabela ficou tensa ao pensar em todos os olhares que receberia pelos corredores, a partir de agora.
No dia anterior ela tivera um gostinho de como seria dali em diante, mas manteve o queixo erguido a todo instante.
Alexander levantou-se e caminhou lentamente até a janela de vidro, parando de costas para ela.
A vista da cidade parecia pequena diante da presença dele.
"Desde que assumi essa empresa," disse ele "sempre houve pessoas tentando me derrubar. Rivais, acionistas descontentes, antigos sócios traídos. Esse escândalo não é aleatório.
Isabela franziu o cenho.
"Você acha que alguém armou isso tudo de propósito?"
Ele se virou lentamente.
"Tenho certeza."
Isabela se empertigou na cadeira.
"Quem?"
Alexander apoiou a mão no vidro, o olhar distante.
"Ainda não sei. Mas vou descobrir."
Isabela ficou em silêncio por um momento.
Ela pensou nas fotos, nas manchetes, na rapidez com que tudo havia se espalhado.
"E porque eu?" perguntou, finalmente. "Porque não escolher qualquer outra mulher para esse teatro?"
Alexander deum um passo em sua direção.
A proximidade o fez parecer ainda mais quente.
"Porque você já está no centro da narrativa." Disse ele. "E porque ninguém acredita em você como figurante."
Isabela ergueu o queixo.
"Você quer dizer que ninguém acreditaria em mim como esposa de fachada?"
Ele a encarou intensamente.
"Pelo contrário. Todos acreditariam."
O silêncio caiu novamente.
"Porque não chamar a mulher que estava com você àquela noite?" ela sugeriu, lembrando-se da mulher ao lado nas fotos.
"Não havia mulher alguma comigo, naquela noite." Ele respondeu, sério. "Apenas nos encontramos por acaso e eu a acompanhei para fora."
Isabela o encarou por um momento, decidindo se acreditava nele ou não.
"O que exatamente espera de mim nesse casamento?" perguntou, decidindo deixar o assunto sobre a mulher para outra hora.
Alexander voltou para trás da mesa e abriu uma pasta preta à sua frente.
"Aparições públicas." Começou ele. "Eventos, jantares, viagens de negócios. Fotos juntos. Entrevistas controladas. Uma imagem de estabilidade e compromisso."
Ele deslizou o documento pela mesa, em sua direção.
Isabela o pegou.
Era um contrato.
Extenso. Detalhado. Frio como o homem que o editara.
"Você realmente preparou tudo." murmurou, folheando rapidamente as páginas.
"Eu nunca improviso." Ele respondeu.
Ela leu alguns trechos, em silêncio. Cláusulas sobre confidencialidade, comportamento em público, restrições de imagem...
Compensação financeira.
Então algo chamou sua atenção.
"Temos mesmo que morar juntos, na mesma casa?" ela questionou, encarando-o.
Ele assentiu.
"Como eu falei antes, precisamos manter a credibilidade." Ele respondeu.
Morar na mesma casa que ele durante doze meses? Ela pensou, angustiada.
Ela fechou o contrato e o empurrou de volta.
"Para mim, isso seria invasão de privacidade."
Ele não piscou.
"É parte do acordo."
Isabela se levantou de repente, andando até a janela ao lado dele.
Ela precisava de espaço, e ainda assim parecia impossível fugir da presença dele.
"E o que acontece se eu disser não?" ela perguntou, sem olhar para ele.
Alexander ficou em silêncio por alguns segundos, antes de responder.
"Então a imprensa continuará destruindo sua reputação." Disse ele, com uma franqueza brutal. "E eu encontrarei outra maneira de resolver o meu problema, apesar de perder o contrato internacional."
Isabela fechou os olhos por um momento. Ela odiava quando ele estava certo.
Quando os abriu novamente, encontrou o reflexo dos dois no vidro. Ela, rígida e controlada; ele, poderoso e inabalável.
"Você não tem coração. Poderia apenas dizer a verdade e tudo se resolveria."
Alexander respirou fundo.
"Eu tenho. Apenas aprendi a não usá-lo nos negócios. Além disso, você sabe muito bem que de nada adiantaria dizer a verdade."
Ela se virou para encará-lo.
A proximidade entre eles era quase insuportável.
"E isso seria o quê?" ela perguntou, apontando para o contrato. "Negócios ou vida?"
Ele a observou com intensidade.
"As duas coisas."
Isabela sentiu algo estremecer dentro dela.
Ela voltou para a cadeira e se sentou lentamente, pegando o contrato novamente.
Dessa vez ela leu com mais atenção. Cada linha parecia amarrá-la mais ao destino que ela tentava evitar.
Por fim, fechou o documento com um suspiro.
"Tenho condições." Disse ela, firme.
Alexander inclinou a cabeça, interessado.
"Estou ouvindo".
Ela endireitou a postura.
"Primeiro: nada de tentar controlar a minha vida pessoal fora das aparências públicas."
Ele assentiu lentamente.
"Aceito."
"Segundo: privacidade respeitada. Meu quarto separado, minhas regras dentro dele."
Um leve brilho passou pelos olhos dele.
"Por enquanto." Disse ele.
Ela o fulminou com o olhar.
"Sem brincadeiras, Alexander."
Ele ergueu as mãos em sinal de rendição.
"Continue."
"Terceiro: proteção jurídica total para mim. Se isso der errado, meu nome precisa estar limpo."
Ele assentiu imediatamente.
"Feito."
"E quarto..." ela hesitou por um segundo "... quero um cargo de diretoria ao final do contrato.
Alexander não parecia surpreso, afinal, fora o que ele havia lhe oferecido no dia anterior, ao sugerir o acordo.
"Tem a minha palavra." Ele disse, estendendo a mão.
Isabela encarou a mão dele por um instante.
Grande. Firme. Segura.
Algo dentro dela vacilou.
Ela respirou fundo e apertou sua mão.
O toque foi instantâneo, quente, elétrico e perturbador.
Ela quase puxou a mão de volta rápido demais.
Alexander também pareceu sentir algo, mas mascarou imediatamente.
"Então está decidido." Disse ele, soltando-a. "Você será minha esposa... no papel."
Isabela engoliu em seco.
"Não se acostume com a ideia."
Um canto da boca dele se ergueu minimamente.
"Não sou eu quem precisa se acostumar."
Antes que ela pudesse responder, o interfone da mesa tocou.
Alexander apertou o botão.
"Sim?"
"Senhor Capell" disse Marina, do outro lado, "a imprensa já está na porta. Querem uma declaração imediata.
Alexander olhou para Isabela.
"Está pronta para entrar em cena?" ele perguntou.
Ela respirou fundo, preparando-se.
"Eu nasci pronta."
Ele abriu um leve sorriso. Raro, quase perigoso.
"Então venha."
Eles caminharam juntos até a porta do escritório, mas antes de sair, Alexander parou e olhou para ela.
"Isabela..." disse ele, mais baixo. "não subestime o que isso vai exigir de você."
Ela o encarou, com determinação.
"E você, não subestime o que eu sou capaz de fazer."
Por um segundo, algo como respeito brilhou nos olhos dele.
Eles saíram juntos.
No saguão, câmeras já estavam preparadas em uma tela interna. Jornalistas aguardavam lá embaixo, famintos por qualquer detalhe.
Alexander colocou a mão levemente na parte baixa das costas dela, gesto sutil, possessivo, calculado.
Isabela enrijeceu por um instante, mas não se afastou.
Quando as portas do elevador se fecharam, ela sentiu o coração bater mais rápido.
"Apenas siga o meu ritmo." Disse ele.
Ela ergueu o queixo.
"Eu não sigo ninguém. Eu acompanho."
O elevador começou a descer.
O silêncio entre eles era carregado de algo que nenhum dos dois ousava nomear.
Quando as portas se abriram no térreo, o caos os aguardava.
Flashes, gritos e perguntas.
E, no meio de tudo isso, Alexander apertou suavemente a mão de Isabela, não por contrato, mas por instinto.
Ela olhou para ele, e pela primeira vez percebeu que aquele acordo seria muito mais perigoso para seu coração do que para sua carreira.
O jogo havia mudado, e ela acabara de entrar nele por completo.