O burburinho em torno deles não é exatamente sobre faturamento ou expansão internacional, embora isso exista. O que chama atenção é a CEO. Dizem que é uma mulher fascinante. Inteligente. Estratégica. Aclamada em eventos e capas de revista. O detalhe que poucos fazem questão de destacar é simples e irritante: nada é dela. Tudo pertence ao marido. Está no nome dele. Ela administra, executa, aparece. No papel, porém, é apenas uma funcionária muito bem vestida.
Hipocrisia corporativa sempre me deu náuseas.
A última conferência do dia começou às dezenove horas. Tarde demais. Meu nível de tolerância já estava perigosamente baixo. A sala estava cheia: diretores, conselheiros, representantes do Grupo Holles conectados por videoconferência. Luzes frias, ar-condicionado alto demais, café requentado.
- Vamos direto ao ponto - eu disse, sem rodeios. - Quero números reais, não projeções otimistas.
Um dos diretores pigarreou.
- Senhor Sterling, acreditamos que a associação trará visibilidade e...
- Visibilidade não paga prejuízo - interrompi. - Fale de dados.
A tela mudou. Gráficos surgiram. Crescimento moderado. Risco médio. Dependência estratégica elevada. Tudo o que eu odeio.
- O Grupo Holles tem uma imagem sólida no mercado - disse uma voz feminina do outro lado da tela. - Nossa CEO tem conduzido a empresa com excelência.
Cruzei os braços.
- Excelência sem propriedade é apenas gestão terceirizada - respondi, seco. - Quem assina no fim do dia?
Silêncio.
- O marido dela - alguém respondeu, em tom constrangido.
Senti a irritação subir como um incêndio lento.
- Então parem de vender essa narrativa como empoderamento - falei, elevando o tom. - Aqui tratamos de poder real. Controle. Assinatura. Responsabilidade.
- Senhor Sterling, com todo respeito - disse outro executivo - sua colocação pode soar agressiva.
Inclinei-me para frente, apoiando as mãos na mesa.
- Agressivo é perder dinheiro por romantizar estruturas frágeis.
Minha voz ecoou pela sala. Alguns desviaram o olhar. Outros fingiram anotar algo.
- Estamos falando de uma mulher extremamente competente - insistiu alguém.
- Competência não muda fatos - retruquei. - Ela não é dona de nada. Trabalha para o império de outro homem. Não confundam imagem com poder.
O clima ficou pesado. Eu sabia. Não me importei.
- Charles, talvez possamos avançar com cautela - sugeriu um conselheiro. - Um projeto-piloto, quem sabe.
Soltei uma risada curta, sem humor.
- Cautela é o que pessoas sem convicção pedem quando estão com medo de decidir.
O silêncio voltou. Denso. Incômodo.
Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço latejar atrás dos olhos. Eu estava exausto. Não fisicamente, mentalmente. Cansado de repetir o óbvio. Cansado de ser o único disposto a dizer verdades desconfortáveis.
- Encerramos por hoje - anunciei, num tom duro. - Quero uma análise revisada até amanhã cedo. Sem floreios. Sem discursos inspiradores. Só fatos.
- Entendido - responderam, quase em coro.
A tela se apagou. A sala esvaziou. Fiquei sozinho, encarando a cidade iluminada pela janela de vidro. Luxo, poder, controle absoluto, e um peso constante sobre os ombros.
Ajustei o paletó e respirei fundo.
Eu não construí esse império para dividi-lo com ilusões. E definitivamente não tenho paciência para histórias bonitas que escondem verdades pequenas.
O dia tinha acabado. Mas a pressão nunca acaba.
Cheguei à minha mansão envolto em um silêncio absoluto. Exatamente do jeito que eu preciso. Nada de vozes desnecessárias, nada de perguntas, nada de presença humana além do indispensável. Silêncio é luxo. E eu pago caro por ele.
Fui direto ao bar da sala. Servi uma dose generosa de whisky, sem gelo, como sempre. O líquido desceu queimando, trazendo um alívio breve para a tensão acumulada do dia. Fiquei alguns segundos parado, olhando a cidade pelas janelas de vidro, antes de subir para o quarto.
O banho quente caiu sobre meus ombros como um anestésico. Deixei a água correr, tentando desligar o cérebro, tarefa quase impossível. Troquei o terno por uma roupa leve, confortável, algo que raramente me permito usar. Quando desci novamente, o jantar já estava servido.
E foi ali que algo saiu completamente do eixo.
Desde quando há entrada?
Franzi o cenho, desconfiado. Provei. Depois o prato principal. Depois a sobremesa. Cada garfada parecia milimetricamente pensada. Texturas que se encaixavam, sabores equilibrados, nada excessivo, nada banal. Era, sem exagero algum, a melhor comida que já provei na vida.
Comi tudo.
Sem distrações. Sem pressa. Sem aquela sensação automática de apenas me alimentar por obrigação. Pela primeira vez em anos, prestei atenção no que estava no prato.
Subi para o quarto com uma estranha sensação de conforto. Dormi como um anjo. Profundamente. Sem sonhos. Sem sobressaltos. Algo que não acontecia há muito tempo.
Nos dias seguintes, percebi o padrão.
A comida não era da Ella.
Conheço os hábitos dela. Os temperos, os pratos, a repetição confortável. Aquilo era diferente. Cada dia um prato novo. Uma experiência nova. Um abraço direto no estômago e, inexplicavelmente, em algum outro lugar que eu não queria admitir.
Isso começou a me irritar.
Não gosto de mudanças. Muito menos de mudanças que me afetam sem permissão.
No fim da semana, chamei o mordomo.
- Quem está cozinhando agora? - perguntei, interrompendo o jantar.
O mordomo hesitou. Isso me irritou.
- Responda.
- A nova chefe de cozinha, senhor. Ela assumiu recentemente.
- Nome.
- Ivy Parker, filha da Sra. Ella.
O nome não me disse nada. Mas o desconforto permaneceu.
Não gosto de surpresas. Não gosto de coisas fora do meu controle. E definitivamente não gosto da ideia de alguém mexendo comigo sem sequer se apresentar.
- Quero conhecê-la.
- O senhor deseja, agora?
- Eu não costumo repetir ordens.
Silêncio. Passos apressados. A casa inteira parecia conter a respiração. Seja quem for essa mulher, ela está prestes a entrar no meu território.
Pela primeira vez em muitos anos, sinto que algo está prestes a sair do controle.
E eu odeio perder o controle.
Ela entrou na sala de jantar e parou a poucos passos da mesa, postura impecável, mãos firmes à frente do corpo. Profissional. Controlada. A primeira coisa que notei foi o cabelo loiro, preso de forma simples, nada espalhafatosa. Depois, os olhos. Azuis. Profundos demais para alguém que deveria apenas cozinhar. Havia algo ali que não pedia permissão, apenas existia.
A postura arrogante sem esforço. Como uma deusa que não precisa provar nada a ninguém. Aquilo me irritou imediatamente.
Ninguém deveria me causar esse tipo de impacto dentro da minha casa.