Engoli em seco. Meu primeiro impulso foi dizer que estava cansada, que aquilo podia esperar, que não era urgente. Mas eu sei que, nessa casa, nada que envolve Charles Sterling pode esperar.
Assenti em silêncio, lavei as mãos com calma exagerada e segui o mordomo pelos corredores longos e silenciosos da mansão. Meus passos ecoavam no piso impecável enquanto minha mente gritava que eu não queria estar ali. Não queria ser analisada, questionada ou julgada por um homem que eu já detesto sem sequer conhecer direito.
A sala de jantar era grande, fria e elegante. Charles Sterling estava sentado à cabeceira da mesa, postura relaxada demais para alguém que claramente controla tudo ao redor. Parei a alguns passos de distância, mantendo a coluna ereta, o rosto neutro.
- Boa noite, senhor - me apresentei. - Ivy Parker.
Ele não respondeu de imediato.
Os olhos dele me percorreram dos pés à cabeça. Devagar. Minuciosamente. Nada discreto. Senti como se estivesse sendo avaliada como um objeto raro, uma peça fora do lugar. Não desviei o olhar. Não abaixei a cabeça. Se ele queria me intimidar, escolheu a pessoa errada.
O silêncio se estendeu por segundos demais.
Então ele pigarreou.
- Onde está a sua mãe? A Sra. Parker. - perguntou, com a voz baixa e controlada.
- Minha mãe está com problemas de saúde - respondi, firme. - Ela precisou se afastar para fazer exames e iniciar um tratamento.
Esperei o desprezo. O comentário ríspido. A impaciência. O tom ácido que eu já imaginava existir naquele homem. Os olhares anteriores não prometiam nada de bom.
Mas ele me surpreendeu.
- Sua mãe pode ficar de licença pelo tempo que precisar - disse, simples, como se estivesse falando do clima.
Piscar foi quase inevitável, mas me controlei rápido. Mantive a expressão neutra, profissional.
- Obrigada, senhor.
Ele me observou mais uma vez, agora com algo diferente no olhar. Avaliação. Interesse. Controle.
- Porém - continuou, apoiando o antebraço na mesa -, isso vem com uma condição.
Meu corpo inteiro se tensionou, mas meu rosto não demonstrou nada.
- Qual condição? - perguntei.
- Quero você cozinhando para mim em todas as refeições, por tempo indeterminado, até eu dizer que não quero mais. - disse, direto. - Café da manhã, almoço e jantar.
O impacto foi imediato, interno. Surpresa pura. Meu coração acelerou, mas eu não permiti que isso aparecesse. Não ergui as sobrancelhas. Não arregalei os olhos. Não dei a ele o prazer de perceber que aquela exigência me pegou desprevenida.
- Entendo - respondi, após um breve segundo. - Se essa é a condição, eu aceito.
Ele me encarou como se estivesse procurando alguma reação escondida. Algo que denunciasse medo, insegurança ou submissão. Não encontrou nada.
- Ótimo - disse, levantando-se. - Pode se retirar.
Assenti com um leve movimento de cabeça e me virei para sair, sentindo o peso daquele olhar ainda queimando nas minhas costas. Caminhei pelo mesmo corredor, mantendo o passo firme, até desaparecer da vista dele. Só aceitei pela minha mãe, terei que pedir demissão do restaurante. Era só o que me faltava, deixar um restaurante renomado. Para cozinhar para um prepotente, presunçoso. Lindo, egoísta. Filho da mãe.
Só quando fechei a porta do quarto da minha mãe atrás de mim foi que soltei o ar preso nos pulmões.
Charles Sterling não é apenas rabugento.
Ele é perigoso.
E, a partir daquele momento, eu estou oficialmente dentro do mundo dele.
Tomei um banho demorado, deixando a água quente escorrer pelas costas como se pudesse levar embora o peso daquele encontro. Vesti um pijama confortável, simples, e me joguei na cama estreita do quarto da minha mãe. O silêncio ali era diferente do da mansão. Mais humano. Mais real.
Peguei o celular e liguei para ela.
- Está tudo bem? - foi a primeira coisa que perguntei.
- Está, sim. Já estou deitada. - respondi, tentando soar tranquila. - E a você, como está?
- Cansada.
Conversamos um pouco mais. Falei sobre o dia, sobre os funcionários, sobre como todos tinham sido gentis comigo. Não mencionei o olhar de Charles Sterling nem a forma como ele me analisou como se eu fosse um problema a ser resolvido.
- Eu só vou voltar pra casa no sábado, tá? - avisei. - Quero garantir que estou dominando a situação.
- Fico mais tranquila sabendo disso - ela disse, com a voz cheia de carinho.
Desejamos boa noite uma à outra e desliguei. Apoiei o celular no criado-mudo e me deitei de lado, puxando o lençol até o queixo. O corpo estava cansado, mas a mente insistia em trabalhar.
Fechei os olhos, mas a imagem de Charles Sterling surgia sem convite. A postura. O olhar calculista. A voz firme demais para alguém que dizia tão pouco. Ele é exatamente o tipo de homem que eu evito: controlador, frio, acostumado a mandar.
Sei reconhecer quando algo tem potencial para sair do controle. Eu já vivi isso antes. Prometi a mim mesma que manteria distância emocional, profissionalismo absoluto e limites claros. Ele é o dono da casa. Eu, apenas a cozinheira.
Mesmo assim, um pensamento insistente se infiltrou antes que o sono chegasse.
- E se Charles Sterling não me deixar folgar, se ele me prender aqui?
Virei de lado, buscando uma posição mais confortável. O cansaço, enfim, venceu.
Enquanto o sono me envolvia, uma certeza se formava silenciosa: essa mansão guarda mais do que luxo e silêncio.
E eu acabei de entrar em um jogo que ainda não conheço as regras.