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O CEO rabugento e a filha da empregada
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Capítulo 2 Ivy

Ivy Narrando

Meu nome é Ivy Parker, tenho vinte e seis anos e sou formada em gastronomia.

Mas antes de qualquer diploma, título ou reconhecimento, eu sou uma sobrevivente.

Trabalho desde os quinze anos de idade. Não porque quis ser precoce, mas porque precisei. Sempre soube que, se quisesse ser alguém na vida, ninguém faria isso por mim. A realidade nunca foi gentil, então aprendi cedo a ser mais dura do que ela.

A culinária entrou na minha vida antes mesmo de eu entender o que era futuro. Com doze anos, eu já cozinhava em casa. Não por hobby, não por diversão, por necessidade. Minha mãe trabalhava fora o dia inteiro e eu ficava responsável pela casa, pela comida e pela minha irmã mais nova, Irina.

Lembro perfeitamente do cheiro de alho refogando enquanto eu fazia o dever de casa na mesa da cozinha. Da panela de feijão borbulhando enquanto eu ajudava Irina com as tarefas da escola. Eu era criança, mas nunca tive o luxo de agir como uma.

Minha mãe sempre fez o possível. Sempre. Trabalhou duro a vida inteira, nunca reclamou, nunca se fez de vítima. Talvez por isso eu tenha aprendido a não esperar nada de ninguém.

Irina e eu somos completamente diferentes.

Ela sempre gostou de coisas caras, mesmo sem saber o valor real delas. Sempre sonhou com uma vida de luxo, mas nunca quis lutar por isso. Enquanto eu trabalhava, estudava e chegava em casa exausta, Irina se preocupava com roupas de marca, festas e aparências.

Hoje, ela é casada com um CEO.

Um homem que não a ama.

Um homem que só está com ela pela beleza e pela imagem de bom feitor que ela ajuda a sustentar. E o pior? Ela permite que ele minta por aí dizendo que sustenta nossa família.

- Ivy, deixa pra lá - ela já me disse uma vez. - Isso não muda nada na sua vida.

Muda sim.

- Porque eu me sustento. Minha mãe trabalha até hoje. E ninguém nunca nos deu nada de graça.

Eu e Irina já brigamos muito por causa disso. Discussões feias. Palavras duras. Silêncios longos. Mas cada uma seguiu seu caminho, mesmo que eu não concorde com as escolhas dela.

Eu escolhi lutar.

Me formei em gastronomia com muito esforço. Trabalhando de dia, estudando à noite, dormindo pouco e sonhando muito. Cada prato que eu criava era uma forma de provar, primeiro pra mim mesma, que eu era capaz.

Quando terminei a faculdade, tomei a decisão mais difícil da minha vida: ir embora.

Me mudei para outra cidade, a cem quilômetros da minha cidade natal. Precisava de distância. De espaço. De um lugar onde eu não fosse apenas a filha da empregada, a irmã da bonita, a menina esforçada.

Queria ser só Ivy.

Minha mãe sempre vem me visitar nas folgas dela. Sempre com um sorriso cansado e os olhos cheios de orgulho. Eu nunca mais voltei pra lá. Não por mágoa. Mas porque minha mãe gosta de vir pra cá.

- Aqui você parece feliz, filha - ela disse, sentada à minha mesa.

E eu sou.

Eu amo recebê-la com a mesa farta. Cozinhar pra ela é minha forma de agradecer por tudo. Cada prato tem uma história. Cada tempero carrega amor.

Mas minha vida não foi feita só de conquistas.

Eu já fui noiva.

Trabalhei em um restaurante quatro estrelas Michelin. Era uma filial, mas o peso do nome era enorme. Foi lá que conheci meu ex-chefe. O gerente da unidade. Um homem carismático, seguro, admirado por todos.

Nos apaixonamos.

Ou pelo menos foi o que eu achei.

Nosso relacionamento avançou rápido demais. Namoro virou noivado. Noivado virou mudança. E, quando percebi, estava morando com um homem que eu já não reconhecia.

Ele mudou.

Ficou ciumento. Controlador. Agressivo.

- Você está demorando demais na cozinha - ele dizia.

- Eu trabalho na cozinha. - eu respondia, tentando manter a calma.

- Não preciso que fique se exibindo pra cliente nenhum.

No começo, eu tentei entender. Relevar. Ajustar. Depois, veio o medo. As discussões aumentaram. O tom de voz subiu. Os olhares ficaram duros.

Até que eu cansei.

Terminei o noivado.

E ele não aceitou.

Fui perseguida. Observada. Segui com medo por meses. Até que criei coragem e acionei a polícia. Quando ele percebeu que aquilo poderia ficar feio pro lado dele, recuou.

Eu pedi demissão.

Não porque estava errada. Mas porque precisava me proteger.

E, ironicamente, foi a melhor decisão que tomei.

Logo consegui trabalho em outro restaurante, tão renomado quanto o anterior. Recomecei do zero. Sem olhar pra trás. Sem carregar culpas que não eram minhas.

Hoje, sigo minha vida plena e feliz.

Sou realizada fazendo o que escolhi. Tenho meu apartamento. Financiado, sim. Mas meu. Tenho meu carro. Financiado também. Mas conquistado com o meu suor.

Tudo o que eu tenho foi construído por mim.

E isso importa.

Muito.

Eu não devo nada a ninguém. Não preciso me apoiar em homem nenhum pra existir. Não preciso de luxo emprestado, nem de sobrenome famoso pra validar quem eu sou.

O telefone tocou no meio da tarde, bem na hora em que eu finalizava um prato que exigia atenção absoluta. O nome da minha mãe piscou na tela e, antes mesmo de atender, um aperto estranho se formou no meu peito.

- Mãe? Aconteceu alguma coisa?

- Fui ao médico hoje, filha - a voz dela saiu baixa, cansada. - Não é nada simples, eu tô doente e vou precisar fazer uns exames investigativos.

O mundo pareceu desacelerar. Encostei no balcão da cozinha, respirando fundo para não perder o controle.

- Doente como? Por que não me ligou antes?

- Eu não queria te preocupar.

Naquele instante, eu já sabia o que precisava fazer. No mesmo dia, chamei meu gerente para conversar. Expliquei tudo, sem rodeios: minha mãe estava doente e precisava de mim. Ele foi compreensivo, pediu detalhes, desejou melhoras e me concedeu afastamento imediato. Saí do restaurante com o coração apertado, mas com a certeza de que estava fazendo a coisa certa.

Arrumei uma mala às pressas e dirigi de volta para minha cidade natal. Cem quilômetros pareceram eternos. A cada pensamento, a raiva crescia dentro de mim.

Quando cheguei, descobri o que me tirou do sério de vez: minha mãe estava trabalhando. Na mansão de Charles Sterling. Doente.

Sem pensar duas vezes, entrei no carro e fui direto para lá.

Assim que estacionei, vi minha mãe saindo pela porta dos fundos. Magra, abatida, mas ainda tentando manter a postura. Ela me viu e abriu os braços antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. O abraço veio forte, apertado, desesperado.

- Você não devia estar aqui - eu disse, com a voz embargada. - A senhora vai se tratar. Acabou.

Ela me olhou com aquele sorriso teimoso que eu conhecia tão bem.

- Eu não posso deixar o sr. Charles sozinho, filha.

Foi aí que eu entendi: aquela batalha estava só começando.

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