Suas costas estavam eretas, as mãos postadas ao lado do corpo, e as expressões eram máscaras perfeitas de profissionalismo. No entanto, por baixo dessa compostura, o choque e a descrença se agitavam como uma maré alta.
O incidente foi rapidamente abafado, sob camadas de autoridade e silêncio.
Mesmo assim, a verdade sempre dava um jeito de escapar pelas menores frestas. Naquela mesma noite, em um grupo privado na internet reservado exclusivamente para as personalidades mais poderosas da cidade, uma única foto desfocada apareceu.
A imagem estava com baixa qualidade, distorcida pelo movimento e pela iluminação ruim, mas inconfundível. Os ombros largos, o perfil marcante, o porte inconfundível de autoridade - era o Presidente. E em seus braços, bem apertada contra ele, estava uma mulher.
O chat explodiu.
"Estou alucinando? Esse é o nosso Presidente ascético?"
"Nossa! Mas não era de conhecimento geral que o Presidente é alérgico a mulheres?"
"Apostas abertas. Quem é a garota misteriosa que ele está carregando?"
Enquanto isso, várias mulheres da elite - as que há muito se imaginavam como a futura Primeira-Dama - perderam a compostura, todas ao mesmo tempo. Taças de cristal se despedaçaram em suas mãos fechadas, e o líquido vermelho se espalhou pelo chão de mármore.
...
Valerie se mexeu ligeiramente nos braços de Leland, soltando um som fraco e aflito.
Leland colocou a mão nas costas dela, dando tapinhas de leve até que sua respiração se normalizasse e ela adormecesse novamente.
Ao lado deles, Terry Simpson, chefe da equipe de segurança presidencial, engoliu em seco.
Em cinco anos de serviço impecável, ele nunca havia visto o Presidente demonstrar esse tipo de cuidado com mulher alguma.
Incapaz de conter a curiosidade, Terry diminuiu o ritmo, ficando um passo atrás. Ele se aproximou de Emma, que caminhava ao lado, e sussurrou: "O que está acontecendo? Nunca vi o Presidente tratar uma mulher dessa forma. Quem é ela?"
Os lábios de Emma se curvaram ligeiramente, em um sorriso discreto e enigmático. "Talvez o Presidente logo arrume uma namorada."
Momentos antes, quando Leland entrou no elevador, Sarah, finalmente livre da barreira invisível de segurança, surgiu da esquina.
Quando viu a mulher nos braços do filho, ela mal conseguiu conter o sorriso.
Graças a Deus! Seu filho finalmente se interessou por uma mulher!
Uma hora depois, Emma saiu do consultório particular de Leland após terminar de tratar o ferimento de Valerie. Ela se aproximou para dar o relatório.
Leland estava no meio de uma videoconferência de alto nível. Ao vê-la, ele fez um gesto para que sua equipe encerrasse e perguntou: "Como ela está?"
Ao vê-lo dispensar uma conferência inteira por causa de uma mulher, Emma instintivamente reavaliou a importância de Valerie.
Ela fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. "Com base na profundidade e na direção do corte, o ferimento parece ter sido autoinfligido."
A expressão de Leland se fechou instantaneamente. Ele se lembrava claramente de como Valerie havia rasgado o ferimento para combater os efeitos da droga.
Para uma mulher tão determinada, tirar a própria vida não era uma opção.
Ele se viu intrigado, muito mais do que gostaria de admitir. No entanto, esse interesse não lhe dava o direito de ser invasivo. Se ela não quisesse conhecê-lo, ele não forçaria o destino. Eles poderiam continuar sendo apenas estranhos cujos caminhos se cruzaram por um breve momento.
"Leve-a para o hospital", ele disse após um momento. "Cuidem dela até que acorde. E não a deixem saber quem eu sou."
Dito isso, Leland se virou e foi embora.
...
Valerie estava perdida em um sonho encharcado de tiros.
Ela estava sozinha, vestida com um traje tático, e o chão sob seus pés tremia com as balas que rasgavam o ar.
Inimigos avançavam em formação - membros de um grupo mercenário rival - cercando-a como lobos que se aproximam de uma presa ferida!
"Phantom! Renda-se agora! Serei rápido!", gritou o comandante inimigo.
A resposta dela foi um único e impiedoso tiro. Em seguida, a cabeça do homem foi para trás, e seu corpo caiu no chão antes que o eco desaparecesse.
Valerie se moveu como uma força da natureza. Seus disparos eram frios, precisos e implacáveis. Um por um, eles caíram, até o campo de batalha silenciar.
Mas seu sangue encharcava a terra. Com o resto de suas forças, ela enviou suas coordenadas para sua equipe. Logo depois, um caminhão a atropelou.
Valerie despertou de supetão, se sentando na cama, com os olhos vermelhos de fúria.
Havia um traidor. Ela o encontraria e quando o fizesse, não haveria piedade!
Seu olhar se desviou para a bolsa de soro ao lado da cama. Sem hesitar, ela arrancou a agulha do braço e se levantou, indo direto para o banheiro.
O espelho a recebeu com uma verdade cruel.
Metade do seu rosto era liso e impecável, mas a outra metade estava arruinada, com cicatrizes vermelhas e irregulares que se contorciam em sua pele, destruindo toda a simetria.
Ela ergueu a mão e traçou o lado cicatrizado lentamente, com a testa franzida.
Quando Valerie era Phantom, só o seu nome já tinha peso no submundo - perigosa, bonita e letal, uma combinação sussurrada com admiração e medo.
Ela era obcecadamente meticulosa consigo mesma. Para ela, a aparência não era vaidade, mas disciplina. Mesmo em meio a missões encharcadas de sangue e pólvora, ela nunca permitia que um único detalhe ficasse fora de ordem.
No entanto, as cicatrizes nesse rosto eram estranhas. Não eram o resultado natural de uma lesão ou batalha, mas carregavam a marca horrível de produtos químicos - irregulares e assimétricas, o resultado inconfundível de uma droga forçada em seu corpo.
A dona original desse corpo havia vivido sob o peso dessas cicatrizes como uma maldição.
Como filha legítima da família Todd, ela nunca ousara competir com a filha adotiva deles por qualquer coisa.
Alguém havia arruinado seu rosto propositalmente, transformando-a no que os outros chamavam cruelmente de "aberração".
Desintoxicar a substância teria sido fácil para Valerie, mas no momento em que o fizesse, sua verdadeira identidade viria à tona, arrastando o perigo diretamente para sua porta.
Agora não era a hora. Ela teria que esperar.
Fragmentos das memórias da dona anterior vieram à tona: ser deixada de lado, ver oportunidades roubadas, o afeto ser entregue a outra pessoa, suportar bullying e humilhação implacáveis...
Um calafrio percorreu as veias de Valerie, cujo olhar se endureceu.
"Descanse em paz, Valerie. Estou aqui agora. Farei com que cada um dos seus inimigos pague com sangue", ela murmurou baixinho para o reflexo que a encarava.
Depois, ela voltou para a Mansão Todd de táxi e assim que saiu do carro, uma empregada de olhos aguçados a avistou.
Lucy George se moveu rapidamente, se posicionando bem no caminho de Valerie. "Valerie, como se atreve a ficar fora a noite toda! Você não está autorizada a entrar!"
Sem nem olhar para ela, Valerie continuou andando.
Furiosa, Lucy estendeu a mão e agarrou o braço de Valerie. "Estou falando com você! É surda por acaso ou..."
Os olhos de Valerie se tornaram gélidos. Com um movimento ágil, ela segurou o pulso de Lucy e o torceu com força.
Um estalo agudo cortou o ar. Lucy gritou e caiu no chão, segurando a mão consumida pela dor.
Valerie olhou para ela, com os lábios curvados em um sorriso leve e inquietante. "Quem te deu permissão para falar comigo dessa forma?"
Os outros empregados congelaram no lugar.
A garota tímida e obediente que eles haviam intimidado por anos havia desaparecido, dando lugar a alguém assustadoramente calmo.
Tremendo de dor e raiva, Lucy cuspiu entre dentes cerrados: "Sua pirralha do mato, você acha que pode..."
Valerie a interrompeu com um tapa.
O golpe, de uma força brutal, arrancou-lhe vários dentes e a derrubou no chão, onde ela se contorceu.
Valerie varreu os funcionários com um olhar cortante como uma lâmina. "Escutem com atenção, sou a herdeira legítima desta família. Paulina está em um lugar que não lhe pertence. Se algum de vocês ousar me desrespeitar novamente, farei com que se arrependa."
Sua mera presença foi suficiente para esmagar qualquer resistência. Os empregados tremiam, acenando com a cabeça freneticamente, com o medo estampado nos rostos.
Ninguém ousou impedi-la quando ela entrou na casa.
Lá dentro, a família Todd estava sentada confortavelmente à mesa de jantar.
Kayden Harper, seu noivo, cortava cuidadosamente um pedaço de bife para Paulina Todd, a filha adotiva.
Para um observador externo, eles pareceriam o casal de noivos.
Valerie sorriu discretamente. "Ora, todos comendo. E ninguém pensou em perguntar se eu já comi?"
As risadas morreram no mesmo instante.
Todos os rostos se voltaram para ela em choque, como se estivessem vendo alguém que não deveria existir.
Para a família Todd, Valerie sempre era invisível. Se ela comia ou passava fome, vivia ou morria... isso nunca importava.
Nessa casa, até o cachorrinho mimado de Paulina tinha um lugar mais elevado do que Valerie.
Com um leve sorriso zombeteiro, Valerie ignorou os olhares atônitos, puxou uma cadeira e se sentou com uma calma imperturbável. Em seguida, estendeu a mão sobre a mesa, pegou um pedaço de bife e o jogou no prato de Paulina.
"Corte para mim. Estou com fome", Valerie disse friamente.