Dante se virou para mim. Seus olhos eram poços negros, as pupilas totalmente dilatadas. Não havia reconhecimento neles, nenhuma memória dos dez anos que passamos juntos. Havia apenas a fúria alimentada por drogas de um protetor defendendo sua matilha.
"Qual é o seu problema?", ele cuspiu.
Segurei meu pulso, a pele se descascando em tiras raivosas. "Dante, ele derrubou a sopeira", gaguejei. "Ele me queimou."
"Mentirosa!", gritou Jade. Ela correu para o lado de Dante, acariciando o cabelo de Léo. "Ela está com ciúmes, Dante. Com ciúmes porque ela é defeituosa. Porque não pode te dar o que eu te dei."
O olhar de Dante caiu para o meu estômago. A expressão de nojo em seu rosto estilhaçou o que restava do meu coração.
"Você é um monstro", disse ele, sua voz baixa e venenosa. "Você ataca uma criança por causa do seu próprio fracasso?"
"Meu fracasso?", sussurrei, minha voz tremendo. "Você jurou me proteger."
"Eu protejo minha família", Dante rosnou. "Suma da minha frente. Se você tocar nele de novo, Alina, vou esquecer quem você foi para mim."
Ele virou as costas. Ele se afastou, carregando o menino que sorria maliciosamente por cima de seu ombro. Jade o seguiu, parando na porta para olhar para trás, para mim.
Ela não disse uma palavra. Apenas sorriu, uma volta da vitória em silêncio.
Fiquei ali, congelada, por um longo tempo. A sopa estava secando, pegajosa e dura na minha pele. A queimadura latejava no ritmo do meu coração, uma agonia distinta e rítmica.
Fui até a pia da cozinha. Deixei a água fria correr sobre minha mão. Enrolei-a em uma toalha. Fiz tudo mecanicamente, como um robô programado apenas para sobreviver.
Lembrei-me de uma vez em que um garçom derramou vinho no meu vestido. Dante quebrou os dedos do homem. Agora, eu era a inimiga.
Subi para o meu quarto. Sentei-me na beirada da cama que costumávamos compartilhar.
Uma hora depois, a porta se abriu. Dante estava lá. Ele parecia exausto, a energia maníaca se transformando em um colapso químico.
"Vou dormir no quarto do Léo hoje", disse ele. "Ele está traumatizado."
Eu não olhei para ele. Encarei o curativo branco na minha mão.
"Tudo bem", eu disse.
Ele demorou. Talvez esperasse uma briga. Talvez, no fundo, o verdadeiro Dante estivesse gritando para sair. Mas as drogas eram mais fortes.
"Bom", disse ele.
Ele saiu.
Deitei-me no escuro. As paredes da mansão eram grossas, mas não o suficiente.
Ouvi a porta da ala de hóspedes se abrir. Ouvi a voz de Jade, baixa e murmurante. Ouvi o ronco profundo de Dante.
E então ouvi o rangido rítmico das molas da cama. Os sons do meu marido levando outra mulher para a cama na casa que meu pai construiu.
Eu não chorei. Lágrimas eram para os vivos. Meu casamento era um cadáver, e eu só estava esperando o enterro.