"Vamos sair", ele anunciou, sem perguntar. "Um dia em família. Jade precisa de coisas para o menino."
"Eu não vou", eu disse.
O som do batedor parou instantaneamente. Ele pousou a tigela com um baque pesado e deliberado.
Ele caminhou até mim, diminuindo a distância em duas passadas, e agarrou meu queixo. Seus dedos cravaram na minha mandíbula, pressionando o osso até eu sentir o gosto de cobre.
"Você vai", ele sussurrou, o rosto a centímetros do meu. "Somos uma frente unida. Você vai mostrar respeito."
Eu me vesti. Coloquei uma blusa de manga comprida para esconder a queimadura.
A SUV estava esperando na entrada. Jade e Léo já estavam no banco de trás. Dante abriu a porta do passageiro da frente para mim, uma zombaria de cavalheirismo.
Dirigimos até a Rua Oscar Freire. Dante colocou música. Léo cantou junto. Eu olhava pela janela, vendo a cidade se transformar em um borrão, contando os minutos até poder escapar.
Dentro do shopping de luxo, Dante era um rei. Ele jogava dinheiro como confete, comprando lealdade a cada passada de seu cartão black. Comprou um novo console de videogame para Léo. Comprou um casaco de pele até o chão para Jade.
Ele me comprou um lenço.
De seda. Caro. Impessoal.
Entramos na joalheria. O gerente correu até nós, praticamente se curvando para o Don.
Dante olhou para a vitrine, seu olhar varrendo o ouro e a platina até se fixar em um colar. Era um pingente de safira cercado por um halo de diamantes. Era de um azul profundo, como o oceano à noite, frio e sem fundo.
"É lindo", eu disse, as palavras escapando involuntariamente. Era o tipo de peça que um Don comprava para sua Donna em um aniversário importante.
Dante assentiu. "Embrulhe", disse ele ao gerente.
Ele pegou a caixa de veludo. Virou-se para mim. Por uma fração de segundo, meu coração vacilou. Pensei que ele ia se desculpar. Pensei que esta era a oferta de paz, o suborno para me manter obediente.
Então, ele passou por mim.
"Para você", disse ele, entregando a caixa para Jade. "Para combinar com seus olhos."
Os olhos de Jade eram castanhos.
Ela gritou e jogou os braços ao redor dele. Os funcionários da loja olharam para o chão, envergonhados pela crueldade descarada. Eu fiquei ali, sentindo o calor subir em minhas bochechas, queimando mais forte que a ferida no meu braço. Eu era a esposa, parada nas sombras da amante.
"Vou para o carro", eu disse, minha voz oca.
Dante nem olhou para cima. "Leve as chaves. Estaremos logo atrás de você."
Eu saí. O ar na garagem era abafado e frio, cheirando a escapamento e concreto úmido. Eu precisava respirar. Precisava correr.
Ouvi-os atrás de mim. A risada de Jade ecoou pelas paredes de concreto, um som agudo e irritante.
Destravei a SUV.
De repente, pneus cantaram. Um carro esportivo branco dobrou a esquina rasgando, acelerando na contramão. Estava se movendo rápido, o motor roncando, mirando diretamente no grupo.
Jade congelou. Ela estava diretamente no caminho.
Eu estava mais perto do carro. Estava bem ao lado da porta aberta.
Dante não hesitou. Ele não olhou para mim.
Ele se lançou. Ele me empurrou para o lado, com força.
Não foi um empurrão para me salvar. Foi para abrir caminho. Bati no espelho lateral da SUV, a carcaça de metal cravando no meu quadril, e caí no chão.
Dante jogou seu corpo sobre Jade e Léo, protegendo-os enquanto o carro desviava no último segundo e acelerava em direção à saída.
O silêncio se seguiu. Pesado e sufocante.
Dante se levantou rapidamente. Ele verificou Jade. Verificou Léo. Passou as mãos sobre eles, frenético, desesperado.
"Você está ferida? Ele te atingiu? Meu Deus, Jade."
Eu estava deitada no asfalto. Meu quadril latejava com uma dor surda e nauseante. Minha mão queimada havia raspado no chão, reabrindo a ferida, o curativo se rasgando.
"Dante", sussurrei.
Ele não se virou. Estava beijando a testa de Jade, murmurando palavras de conforto, procurando por arranhões que não existiam.
Levantei-me. Recuei mancando.
Ele não apenas os escolheu. Ele me usou como um obstáculo, um detrito humano a ser jogado de lado, para salvá-los.
Virei-me e comecei a andar em direção à rampa de saída.
Não olhei para trás. Não liguei para o médico da família. Apenas andei.