Desci as escadas sentindo o peso familiar daquela casa, que ainda parecia tão grande quanto eu achava que era na infância. Algumas coisas nunca mudam. O escritório de Roberto Moretti ficava no fim da ala leste, tudo muito sóbrio, mogno escuro, cheiro de charutos cubanos e couro envelhecido. Quando empurrei as pesadas portas duplas, a apreensão que eu carregava se dissipou por um breve momento.
Ele estava de pé perto da lareira apagada, sem o paletó do terno, as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos. Apesar das sombras de exaustão sob os olhos e da tensão que a "reunião" na fronteira sul claramente havia lhe cobrado, o rosto endurecido do meu pai se iluminou assim que me viu.
- La mia principessa - ele abriu os braços, a voz rouca e calorosa.
Caminhei até ele e me deixei ser envolvida por um abraço apertado e protetor. Por um instante, fechei os olhos, sentindo o cheiro familiar da loção pós-barba misturado ao uísque e à fumaça. Ali, ele era apenas meu pai. O homem que me ensinou a andar de bicicleta nas colinas de Palisades e que costumava me trazer doces de suas viagens a negócios.
- Senti sua falta, papai - murmurei contra o ombro dele.
- E eu da minha garotinha. A casa fica vazia demais sem você e sua mãe. - Ele recuou um passo, segurando meus ombros com as mãos pesadas e calejadas, avaliando-me dos pés à cabeça com um sorriso orgulhoso. - Mas olhe só para você. A Europa lhe fez bem, Serena. Você partiu uma menina e voltou uma mulher deslumbrante. Sua avó deve ter tido muito trabalho para manter os rapazes italianos longe dos portões.
Ri fraco, uma resposta automática.
- A Nonna sabe ser mais intimidadora que os seus soldados quando quer.
Ele soltou uma risada genuína, caminhando até o pequeno bar de cristal para servir dois dedos de uísque. Mas, enquanto o líquido âmbar caía no copo, o clima na sala começou a mudar sutilmente. O sorriso do meu pai não desapareceu, mas seus olhos escureceram, assumindo aquela frieza analítica que ele reservava para a mesa de negociações.
Ele caminhou para trás de sua imponente mesa de trabalho. Não se sentou, mas apoiou uma das mãos na madeira polida e usou a outra para apontar a cadeira de couro do lado oposto.
- Sente-se, Serena.
A transição foi cirúrgica. O momento "pai e filha" havia acabado, agora, eu estava diante de Roberto Moretti, o capo. Obedeci, cruzando as pernas e mantendo a postura ereta, o rosto o mais impassível que consegui.
- Daniel foi buscá-las hoje à tarde - ele comentou, dando um gole lento na bebida.
- Sim. Ele foi muito gentil em se oferecer.
- Foi um gesto de respeito com a nossa família, e eu aprecio isso. Mas não se iluda achando que os Barone fazem favores por cortesia - ele suspirou, sentando-se finalmente em sua poltrona. - É por isso que mandei trazê-la de volta, Serena. O tabuleiro está mudando. Precisamos solidificar nossas alianças.
Meu estômago afundou, mas assenti.
- O senhor já escolheu alguém?
- Ainda não. Estou avaliando as opções. Você tem o sangue de um dos capitães mais temidos da Costa Oeste, e agora tem a beleza e a postura de uma verdadeira dama da Cosa Nostra. Você é um prêmio, Serena, e eu não vou entregá-la a qualquer um.
Ele girou o copo de uísque, parecendo pesar as palavras.
- Em um mundo perfeito - Roberto continuou, a voz baixando um tom -, um dos herdeiros seria o ideal. Unir o sangue Moretti diretamente à coroa Barone. Um casamento com Daniel ou com Enzo elevaria nossa família ao topo absoluto da hierarquia.
A menção do nome de Daniel fez a lembrança daquele olhar no retrovisor queimar a minha nuca novamente. Prendi a respiração, esperando o veredito.
- Mas? - perguntei, a voz controlada.
- Mas, os homens da família que podem e irão assumir a organização um dia não estão procurando esposas. Enzo é um cão selvagem, imprevisível demais. E Daniel... - Meu pai balançou a cabeça, um misto de admiração e cautela. - Daniel é focado no poder. Por enquanto, ele foge de compromissos oficiais. O tipo de garota que atrai a atenção dele no momento não é o tipo de garota com quem se casa, são distrações. Mulheres que não exigem uma aliança assinada com sangue. Ele não está pronto para a coleira do matrimônio, e eu não vou expor minha filha a uma rejeição tentando forçar um acordo com o Don.
Apertei as mãos no colo, o tecido do meu vestido amassando sob os meus dedos. Distrações. Outro tipo de garota. A avaliação do meu pai fazia todo o sentido tático e lógico. Era assim que os homens do nosso mundo operavam.
Mas enquanto ele continuava a falar sobre outras famílias menores de Nova York e Chicago, minha mente voltou para o interior do Bentley. Para o cheiro amadeirado. Para a tensão elétrica no ar e para a risada genuína que ele havia compartilhado com a minha mãe, momentos antes de cravar os olhos escuros em mim através do espelho.
Meu pai era o melhor estrategista que eu conhecia, mas, por um segundo, me perguntei se, talvez, ele estivesse subestimando Daniel Barone.
A batida na porta foi tão discreta que, por um instante, eu pensei ter imaginado.
- Entra - meu pai disse, sem erguer o tom, como se a casa inteira funcionasse no volume dele.
Caterina entrou como se estivesse cruzando um palco que já conhecia de olhos fechados. Minha mãe era elegância sem esforço, ela conseguiria manter sua postura até mesmo sob ameaça de morte. Ela fechou a porta atrás de si e, antes de se aproximar da mesa, pousou a mão no meu ombro, um toque breve, íntimo, como se dissesse eu estou aqui sem palavras.
- Roberto - ela começou, com a doçura calibrada. - Você voltou tarde.
Meu pai levantou os olhos, e por um segundo eles suavizaram. Não muito; só o suficiente para eu perceber que o homem diante de mim ainda era capaz de separar a família do resto do mundo... quando queria.
- Eu voltei quando pude - ele respondeu. - E agora estamos todos aqui.
A frase parecia acolhedora, mas, não conversávamos na sala, e sim em seu ambiente, seu escritório, aliás aquilo mais parecia uma reunião, do que um homem recebendo sua esposa e filha depois de anos. Eu já tinha recebido o abraço. Agora eu tinha a cadeira do outro lado da mesa.