Meu pai fez um som curto, quase um assentimento.
- Daniel é educado quando quer - ele respondeu, girando devagar o copo de uísque na mão. - E ele sabe quando convém.
Eu me mantive quieta. Quieta demais, talvez. Mas naquele mundo, falar no momento errado era o equivalente a se expor com o pescoço descoberto.
Caterina cruzou as pernas, postura impecável.
- Há duas coisas que precisamos alinhar, Roberto. Antes que as próximas semanas comecem a engolir a Serena.
O olhar do meu pai pousou nela com atenção real, como se Caterina tivesse puxado uma linha de raciocínio que ele respeitava.
- Fale.
Minha mãe respirou uma vez, com controle.
- Primeiro, a Signora Barone vai receber as senhoras para um chá.
Meu estômago deu uma volta em si mesmo e papai arqueou a sobrancelha.
- Ela chamou você?
- Ela chamou algumas de nós. - Caterina corrigiu, suave. - Jovens em idade de casamento, e suas mães.
Eu consegui manter o rosto impassível, mas por dentro a imagem se formou nítida demais, porcelana fina, arranjos de flores, risos educados, e olhos avaliando. Olhos que medem o valor de uma mulher do mesmo jeito que estudam uma proposta.
- A viúva do executor - meu pai comentou, como se estivesse falando de um título oficial, e não de um homem que, em vida, provavelmente tinha decidido destinos com um aceno de queixo. - Ela ainda gosta de se mostrar útil.
Caterina inclinou a cabeça, concordando apenas no essencial.
- Ela gosta de manter a casa dela como território neutro. - A voz da minha mãe ficou ainda mais educada, mais polida. - E ela gosta de observar com os próprios olhos.
Eu sabia o que aquilo significava. A mãe de Daniel e Enzo não recebia jovens e mães por capricho social. Recebia porque queria ver, pessoalmente, quem estava se aproximando do sangue dela. Quem tinha o direito de respirar perto do sobrenome Barone.
Meu pai pousou o copo no descanso de madeira, sem força, mas com um fim definitivo.
- Serena vai - ele disse.
Não foi pergunta. Não foi sugestão.
Caterina não discutiu. Ela só olhou para mim, por um segundo antes de voltar a atenção para ele novamente.
- Ela vai - minha mãe concordou. - E deve causar uma impressão. Uma boa impressão, eu espero, já que todos sabemos que a Sra. Barone é um tanto exigente, e que a opinião dela pesa consideravelmente quando se trata de alianças de casamento.
Meu pai me encarou, e ali veio o Roberto que eu conhecia desde criança: o homem que conseguia fazer um elogio soar como uma ordem.
- Você sabe se portar - ele disse, como se isso resolvesse tudo. - A Europa lhe ensinou boas maneiras. A casa Barone gosta disso.
Eu quis rir. Um riso pequeno e amargo. Boas maneiras. Como se fosse isso que eles estavam avaliando. Não o meu silêncio, não a minha obediência, não o quanto eu conseguiria sorrir enquanto alguém decidia meu futuro como se escolhesse cortinas para uma sala.
Caterina continuou, sem perder a delicadeza.
- Segundo, nas próximas semanas teremos uma ocasião na casa de Marco.
Ao ouvir o nome do consigliere, meu pai ficou pensativo. Não era medo. Era respeito. Respeito pela mente por trás de muitas decisões.
- O que ele está planejando? - Roberto perguntou.
- Um jantar - Caterina respondeu. - Uma noite... bem selecionada. Ele quer reunir algumas famílias, algumas esposas, alguns jovens. Sem muita pompa. Só o suficiente para ver como as peças se encaixam quando estão na mesma sala.
Meu pai soltou um som baixo, que poderia ser aprovação.
- Marco sempre gostou de ver a coisa funcionando ao vivo.
Meu coração apertou de leve, porque eu entendi o que aquilo significava: não era só sobre eu "aparecer". Era sobre eu ser posta ao lado de certas pessoas, perto de certos nomes, no alcance de certos olhares. O resto viria como vem em todas as histórias do nosso mundo, com sorrisos, promessas e algemas invisíveis.
Caterina virou o rosto na minha direção por um instante.
- Serena precisa entender o protocolo desses encontros - ela disse, e havia um cuidado firme na voz. - Não é só sobre vestir algo bonito. É sobre saber quando falar, quando não falar, para quem sorrir, quem evitar, e como sair de uma conversa antes de parecer desesperada. ou desinteressante.
Meu pai a observou, e eu percebi que ele ouvia minha mãe como se ela fosse uma conselheira. Não uma esposa decorativa. Caterina sabia como esse mundo funcionava, porque ela tinha vivido dentro dele por tempo demais.
- Ela vai aprender rápido - Roberto respondeu. - Ela é minha filha.
A frase deveria ter me aquecido. Em vez disso, me deu a sensação de que eu era um projeto. Um investimento.
E, ainda assim... eu queria que meu pai se orgulhasse. Isso era o mais cruel. A parte de mim que ainda era menina queria o sorriso dele, o "você fez bem", o "você é forte". Mesmo que a força que ele admirasse fosse a mesma que me prendia.
Caterina pareceu escolher as palavras com ainda mais cuidado antes de tocar no que realmente estava no ar desde o prólogo.
- Roberto... e Daniel?
Meu pai inclinou a cabeça, como se ela tivesse perguntado sobre um clima instável. Perigoso. Imprevisível.
- Daniel não está procurando esposa - ele disse, com aquela franqueza que não era brutal; era prática. - Ele está construindo outra coisa. Poder. Território. Nome.
Eu lembrei do Bentley. Das mãos dele no volante. Do jeito que ele parecia, mesmo dirigindo o carro do meu pai, estar no comando de tudo. Caterina não discordou. Ela só acrescentou, com a precisão de quem conhece homens como Daniel há décadas.
- Às vezes, homens assim se interessam por algo que não estavam procurando.
Meu pai soltou um riso curto, quase sem humor.
- Se ele se interessar, eu vou saber. - Então ele olhou para mim, e a sala pareceu diminuir. - E você vai saber também. Porque eu vou dizer a você. É de meu interesse que você tenha um bom casamento.
Eu respirei e, sem planejar, minha voz saiu.
- E se ele não se interessar?
Meu pai me encarou por um segundo longo demais. Depois, a expressão dele fico quase paciente.
- Então não será ele - Roberto respondeu, simples. - Não faltam homens querendo subir na hierarquia.
Minha mãe pôs a mão sobre a minha, debaixo da mesa, escondida. O copo de uísque do meu pai voltou para a mão dele. Ele se levantou, e o movimento foi o sinal de encerramento - como se o capítulo familiar tivesse sido fechado e guardado numa gaveta.
- Nós vamos ao chá - ele concluiu. - E vamos ao jantar do Marco. Caterina, você vai orientar a Serena sobre o que for necessário. Eu confio no seu bom senso.
Minha mãe assentiu com a serenidade de sempre.
- Claro.
Meu pai caminhou até nós, e por um segundo eu achei que ele fosse me tocar de novo, repetir o abraço, devolver alguma ternura. Em vez disso, ele apenas passou a mão de leve pelo meu cabelo, como um gesto antigo, quase automático, carinho, sim, mas sua mente já estava em outro lugar.
- Vão descansar - ele disse, e foi quase gentil. - Hoje foi um dia longo.
Eu me levantei junto com minha mãe, obediente. Já perto da porta, ouvi a voz dele mais uma vez.
- Serena.
Virei. Roberto ergueu o copo, o olhar firme.
- Bem-vinda de volta.
Foi tudo. Sem "senti sua falta" de novo. Sem palavras fáceis. Saí com Caterina, e a porta se fechou atrás de nós silenciosamente.
Do corredor, ainda pude vê-lo por uma fresta de vidro: meu pai de volta ao uísque, de volta ao silêncio, como se aquela sala fosse o único lugar onde ele pudesse existir inteiro.
E eu entendi com uma clareza dolorosa que, para Roberto Moretti, até o amor vinha com regras. E eu tinha acabado de ser colocada de volta no lugar onde essas regras importavam mais do que qualquer saudade.