Na segunda semana aconteceu, eu estava na sala envidraçada que dava para o jardim dos fundos, a luz suave atravessando as cortinas claras, o cheiro discreto de limão e jasmim, quadros, enquanto tentava decidir o que começaria a ler. Marta entrou discretamente, anunciando as visitas.
Vieram três garotas que eu conhecia desde sempre, as poucas com quem eu continuei falando, mesmo durante o tempo na Europa.
Bianca foi a primeira a me abraçar, perfumada e elétrica, rindo alto demais para quem cresceu ouvindo que paredes têm ouvidos. Logo atrás dela, Sofia, impecável, sorriso pequeno, olhos atentos, e Valentina, que parecia ter saído de uma capa de revista, linda, calma, e perigosamente bem-informada.
- Serena Moretti. Finalmente - Bianca disse, recuando só para me olhar inteira. - A Europa te deixou absurdamente linda! Você tá... adulta.
- Vocês também - respondi, e não era gentileza automática. Estavam mais afiadas, de um jeito que não tinha a ver com maquiagem ou vestidos. - Devem estar movimentando as possibilidades de alianças no meio, sem a menor dúvida!
Sofia aceitou a xícara que uma criada lhe ofereceu e me estudou por cima da porcelana.
- Conta tudo. Itália, França, as festas, os homens...
Valentina riu, baixinho.
- Começa pelo que dá para contar sem a sua mãe te matar.
Eu sorri, porque era mais fácil do que explicar o que a Europa tinha sido de verdade, liberdade com prazo de validade. Ainda assim, falei de coisas seguras, museus, cafés, a vila da minha avó, professores exigentes, a sensação de andar na rua sem escolta. E sem escolta, não quer dizer que eu não tinha alguém me vigiando, principalmente porque elas deveriam saber tão bem quanto eu que ao menor sinal de aproximação de alguém do sexo oposto, brotaria alguém para afastá-lo. Elas reagiam com exclamações e invejas ensaiadas, como se aquilo fosse o centro do mundo. Mas não era isso o que elas queriam saber.
Bianca inclinou o corpo para frente, os olhos esverdeados brilhando.
- Ok, agora as fofocas! Você não tem noção do que aconteceu aqui enquanto esteve longe.
Eu deixei que ela falasse, era a coisa certa a se fazer porque Bianca era um rio. Se você tenta barrar, transborda, mas se deixa correr, entrega o caminho.
- Lembra do Luca Rinaldi? - ela disparou. - O filho do Rinaldi de San Diego. Ele terminou com a Giselle. Terminou mesmo. Foi feio.
Sofia fez um som de reprovação que não escondeu a curiosidade.
- Não foi bem um término, o pai dele tinha outros planos e proibiu.
Valentina mexeu o chá com delicadeza, como se a colher pudesse medir a gravidade do que diziam.
- Dizem que o Luca se meteu em dívida. Dívida de verdade.
Eu mantive o rosto neutro, mas por dentro as peças começaram a se alinhar. Filho de homem com território. Um sobrenome que meu pai respeitava. Uma crise que podia virar oportunidade.
- E o Matteo DeSantis? - Sofia perguntou, como quem muda de assunto, mas não muda a intenção. - Ele voltou de Vegas. Tá "limpo", segundo ele.
Bianca revirou os olhos.
- "Limpo" é o jeito bonito de dizer que alguém mandou ele sair de lá antes que a situação toda se tornasse pública.
Valentina me olhou, finalmente, direto.
- Seu pai ainda está trabalhando muito?
Havia cuidado demais naquela pergunta. E eu reconheci o formato do interesse, o contorno do que ninguém dizia em voz alta: ele trouxe você de volta por quê?
Eu sorri com um pouco mais de doçura do que sentia.
- Meu pai sempre trabalha muito.
Sofia inclinou a cabeça.
- Mas agora é diferente, né?
O silêncio que se seguiu foi curto. Não chegou a ser constrangedor - era apenas uma pausa entre o que pensávamos que poderia acontecer e o que realmente seria decidido. A verdade era que todas nós ainda tínhamos a ilusão que talvez amor e dever pudessem caminhar juntos, mas raramente acontecia.
Bianca foi quem quebrou primeiro, como sempre.
- Ok. Então a gente vai ser direta. - Ela ergueu a xícara, como se brindasse. - Quem você acha que teu pai vai escolher?
Meu estômago deu um pequeno nó que eu escondi com um gole de água.
- Não sei - respondi. Eu não fazia ideia do que se passava na cabeça de Roberto.
Valentina sorriu, educada.
- Podemos ajudar com isso. A lista de solteiros atualizou.
E então vieram nomes, um atrás do outro, embalados em comentários que pareciam leves, mas que nos faziam pensar no que representavam dentro do meio.
Filhos de capos menores. Sobrinhos de associados. Homens jovens demais com ambição demais. Homens mais velhos com um tipo de estabilidade que parecia prisão. Um ou outro viúvo, dito com a naturalidade mórbida de quem cresceu sabendo que luto e oportunidade podem dividir a mesma mesa.
Enquanto elas falavam, eu fazia o que sempre fiz. Observei.
Bianca gostava de homens bonitos e perigosos, mas tinha medo real de casamento. Sofia queria poder, e isso a tornava paciente, e consciente de seu valor e papel em um casamento. Valentina sabia de coisas, muitas coisas, e escolhia com cuidado suas palavras, assim como certamente poderia dissimular para conseguir o que quer.
Em algum ponto, Bianca soltou um suspiro dramático.
- Mas os melhores... os melhores mesmo... - ela baixou a voz, como se o teto pudesse ouvir. - São os Barone.
Sofia quase se engasgou com o chá.
- Bianca.
- Ué, eu estou mentindo? - Bianca deu de ombros, as unhas impecáveis tocando a xícara. - Daniel e Enzo. Se qualquer um deles se interessar por uma garota do meio, é praticamente certa a união.
Valentina não pareceu escandalizada. Só pensativa.
- Daniel está em outro patamar - ela disse, com cautela. - Ele não é o tipo que se apaixona. Ele escolhe.
O calor subiu pelo meu pescoço por um segundo, e eu odiei o meu corpo por reagir. Daniel era atraente, e devia ter um dossiê detalhado sobre cada garota em idade de casamento, fosse para escolher ou evitar!
Sofia inclinou o rosto na minha direção, curiosa demais.
- E você? Chegou agora. Já viu ele?
Eu demorei uma fração de segundo a mais do que deveria.
- Vi - respondi.
Três pares de olhos se fixaram em mim com a mesma intensidade com que homens avaliam um investimento.
- E? - Bianca sussurrou, teatral.
Eu fiz o que aprendi com minha mãe: sorri sem oferecer nada.
- Ele foi educado.
Bianca fez uma careta, frustrada.
- Serena, educado não é fofoca.
Eu ia responder quando um som atravessou a casa, não era alto, mas carregado de autoridade. A voz do meu pai, vindo do corredor principal, grave e controlada, aquela presença que alterava o ar mesmo antes de ele aparecer.
Sofia endireitou a postura. Valentina ficou imóvel. Bianca arregalou os olhos com uma empolgação quase infantil, como se algo importante estivesse para acontecer.
E então eu ouvi as outras vozes, duas, três, mais pesadas, curtas, o jeito de homens treinados para não conversar demais. Soldados. O som de passos sincronizados. O som de casa em estado de alerta disfarçado de rotina.
As meninas trocaram olhares, e Bianca aproximou a boca do meu ouvido.
- Meu Deus, é ele?
Eu não perguntei quem, mas era óbvio que ela não estava falando do meu pai.
A comitiva dobrou o corredor e entrou no campo de visão da sala envidraçada, como se a casa tivesse sido construída para enquadrá-los. Roberto vinha à frente, sem pressa, mas com aquela urgência de quem nunca está realmente livre. Dois homens atrás dele, terno escuro, postura tática, olhos varrendo o ambiente.
E ao lado... Enzo Barone.
Ele tinha a beleza fácil de quem sabe exatamente o efeito que causa, o tipo de homem que entra num lugar e muda a temperatura do ambiente. Terno caro, mas com um relaxamento calculado, a gravata um pouco mais solta do que seria permitido para qualquer outro, a arrogância sutil de quem pode quebrar etiqueta. O sorriso dele era claro, solar, e isso só o tornava mais perigoso.
Bianca soltou um som minúsculo, um suspiro que tentou virar tosse.
Sofia sibilou, baixinho:
- Se comporta. Você está na casa Moretti.
Valentina, porém, não desviou os olhos. Ela só murmurou:
- Ele é ainda mais bonito pessoalmente.
Continuei quieta, com a certeza de que ele sabia a impressão que causava. Quando passou pela sala, ele olhou na nossa direção como se tivesse escutado nossos pensamentos. E sorriu, um sorriso preguiçoso e confiante.
- Boa tarde - Enzo disse, a voz projetada sem esforço, como se cumprimentar de longe fosse uma forma de dominar a sala inteira.
Bianca acenou tão rápido que quase derrubou a xícara. Sofia se recompôs e devolveu um sorriso perfeito. Valentina fez um aceno mínimo, elegante.
Eu apenas sustentei o olhar por um segundo a mais do que seria prudente, porque alguma parte de mim queria lembrar que eu ainda podia escolher ao menos isso: não baixar os olhos imediatamente.
Enzo, como se tivesse gostado do desafio, piscou uma única vez. E seguiu, acompanhando meu pai, ainda sorrindo.
Roberto não diminuiu o passo. Não parou para apresentações. Ele nem olhou para as minhas visitas. A casa continuava funcionando ao redor dele como um mecanismo antigo, eficiente, silencioso, obediente.
As meninas só voltaram a respirar quando eles desapareceram no corredor.
Bianca agarrou meu pulso com dedos frios.
- Serena... você tem noção do acabou de acontecer?
Não, naquele momento eu não imaginava o que um sorriso e uma piscadela poderiam significar.
Mas, pela primeira vez desde que voltei, eu tive a sensação clara de que meu pai não estava apenas preparando um futuro para mim. Ele estava trazendo o perigo para mais perto - e o perigo, tinha sorriso bonito e sobrenome Barone.