Eu me virei. Arthur Gomes, o chef principal, estava parado perto do freezer. Ele era um homem enorme, com mais de um metro e noventa, com cicatrizes nos antebraços e olhos tão escuros quanto obsidiana. Ele era um Renegado - um lobo sem alcateia - contratado por Caio porque sua comida era a melhor da cidade.
Mas ele não se movia como um cozinheiro. Ele estava montando um prato com a precisão cirúrgica de um médico de campo ou um atirador de elite, colocando a guarnição com pinças que pareciam brinquedos em suas mãos enormes.
A maioria das pessoas tinha pavor dele. Ele irradiava uma pressão silenciosa e letal.
"Eu não tenho", eu disse, minha voz tremendo.
Arthur não falou. Ele enfiou a mão no bolso e me jogou uma pequena lata. Eu a peguei com minha mão boa.
"Aplique. Enfaixe", ele comandou. Não era um Comando de Alfa, mas carregava uma autoridade natural.
Antes que eu pudesse agradecer, as portas de vaivém se abriram com um estrondo.
Jade entrou marchando. Ela parecia deslocada em meio ao aço inoxidável e à gordura. Torceu o nariz.
"Cheira a cachorro molhado aqui", ela reclamou. Caminhou direto para o passe, onde Arthur estava montando um bife.
"Isso está ao ponto", disse ela, cutucando a carne. "Eu queria mal passado. E coloque um pouco de caviar. Do tipo caro."
Arthur não levantou o olhar. "Não."
Jade piscou. "Com licença?"
"O bife está perfeito. Caviar estraga o equilíbrio. Saia da minha cozinha."
O rosto de Jade ficou roxo. Ela pegou o celular. "Eu vou fazer você ser demitido. Vou ligar para o Caio agora mesmo!"
Ela apertou o botão de chamada de vídeo. Eu esperava que fosse para a caixa postal, dada a importante reunião de Caio. Mas segundos depois, a linha conectou. Caio não estava na cabeceira da mesa; estava no corredor, parecendo apressado e irritado, segurando uma pilha de arquivos.
"Jade, eu te disse, estou com os representantes da Rocha Vermelha", Caio sibilou, olhando por cima do ombro.
"Caio!", Jade lamentou, virando a câmera para o rosto dela. "Eles estão me intimidando! Primeiro sua garçonete tentou me queimar, e agora esse cozinheiro Renegado está se recusando a me alimentar!"
"Não tenho tempo para isso", Caio retrucou, esfregando as têmporas. "Apenas dê a ela o que ela quer para que eu possa voltar para dentro."
"Passe para a Maya", Caio ordenou.
Jade virou a câmera para mim. Eu estava segurando a lata de pomada, minha mão enrolada em uma toalha manchada de pus amarelo e sangue.
"Caio", eu disse, levantando minha mão. "Ela usou prata. Olhe para isso."
Caio viu. Eu vi seus olhos se arregalarem. Ele sabia o que prata significava. Por um segundo, eu vi culpa. Mas então Jade soluçou alto: "Estou com medo, Caio! Ela está me olhando como se quisesse me matar! E o Marcos disse que ela estava ameaçando os convidados!"
Caio olhou de volta para a porta fechada da sala de reuniões. Ele estava perdendo a paciência. Ele precisava que esse problema desaparecesse para que pudesse garantir seu financiamento.
Seu rosto endureceu.
"Maya", disse ele, sua voz baixando uma oitava. O ar na cozinha de repente ficou pesado. A gravidade pareceu dobrar.
"Peça desculpas para a Jade. De joelhos. Agora."
Era o Comando de Alfa.
Uma onda de compulsão me atingiu. Era uma força física, tentando dobrar meus joelhos. Meus músculos se contraíram. O imperativo biológico de obedecer ao Alfa estava tecido em nosso DNA.
Arthur parou de picar. Ele olhou para mim, sua faca pairando no ar.
Meus joelhos se dobraram. A dor era excruciante. Mas então, outra coisa surgiu.
Meu sangue. O sangue da linhagem da Pedra da Lua. O sangue dos Reis.
*Um Alfa não se curva a um tolo.*
Cerrei os dentes. Travei minhas pernas. Eu tremia violentamente, o suor escorrendo pelo meu rosto enquanto eu lutava contra o Comando. Parecia que meus ossos iam quebrar.
Mas eu não me ajoelhei.
Encarei a lente da câmera, meus olhos ardendo.
"Não", sussurrei.
Estendi a mão e toquei no botão 'Encerrar Chamada' no telefone de Jade. A tela ficou preta.
O silêncio na cozinha era ensurdecedor. Jade parecia aterrorizada. Ela esperava que eu desmoronasse. Em vez disso, eu estava mais alta do que antes.
Virei-me para Arthur. O adesivo supressor no meu pescoço estava coçando insuportavelmente. Estava feito. A farsa havia acabado.
"Chef", eu disse, minha voz estranhamente calma. "Tranque a porta."