"Aurora", sua voz era como cascalho moendo fumaça. "Há uma Reunião marcada. Amanhã à noite. Na Boate Ônix. Você precisa assinar os papéis."
"Que papéis?", perguntei, minha voz um coaxar rouco.
"A transferência", ele disse, seu tom desprovido de empatia. "Montenegro nos contatou. Ele está assumindo a dívida do seu pai. E está te levando. Finalizamos os termos há uma hora. Você vai se casar com o Dom."
Era real. Eu tinha feito isso. Eu me vendi para salvar um fantasma.
"Estarei lá", eu disse.
"Boa garota. Não nos envergonhe." A linha ficou muda.
Eu estava olhando fixamente para a cruz de neon de uma farmácia 24 horas quando meu celular vibrou novamente.
*Caio.*
Meu polegar pairou sobre o botão de recusar, tremendo. Mas então uma mensagem apareceu.
*Ajuda. Doente. Boate Ônix. Não consigo dirigir.*
Velhos hábitos não morrem facilmente; eles gritam. Por quatro anos, eu fui a salvadora designada. Era eu quem o buscava quando o uísque o afogava, quem limpava o vômito e o sangue.
Pânico, frio e agudo, explodiu no meu peito. Se ele estava na Boate Ônix, ele estava exposto. Vulnerável. Um alvo.
Em um piscar de olhos, esqueci a traição. Esqueci o vestido de noiva. Apenas me lembrei do homem que uma vez levou um tiro por mim.
Chamei um táxi, praticamente me jogando para dentro. "Boate Ônix. Rápido."
Corri pelos seguranças que conheciam meu rosto, ignorando seus olhares surpresos. Empurrei as pesadas portas duplas, sendo instantaneamente assaltada pelo baixo pulsante e pelas luzes estroboscópicas desorientadoras da área VIP.
"Caio!", gritei, minha voz engolida pela música.
Então eu o encontrei.
Ele não estava doente. Ele não estava ferido.
Ele estava esparramado em um sofá de veludo, uma garrafa de vodca balançando frouxamente em sua mão, rindo à toa.
Karina estava empoleirada em seu colo, de frente para ele, com as pernas possessivamente enroladas em sua cintura.
Eles estavam cercados por seus soldados - homens para quem eu cozinhei jantares de domingo, homens com quem eu ri. Todos estavam aplaudindo.
Caio olhou para cima. Seus olhos se fixaram nos meus, e seu sorriso se alargou. Não era um sorriso de alívio; era desleixado, cruel e triunfante.
"Viram?", ele gritou para seus homens, gesticulando para mim com a garrafa. "Eu disse a vocês! Leal como um cachorro. Assobie e ela vem correndo."
Os soldados rugiram de tanto rir.
Eu fiquei paralisada, ofegante, meu cabelo despenteado e emaranhado pelo vento, meu rímel provavelmente marcando lágrimas pretas em minhas bochechas. Eu devia estar um caco. Um caco desesperado e patético.
"Você disse que estava doente", eu disse, minha voz mal audível sobre a batida.
"Eu estou doente", Caio arrastou as palavras, seus olhos pesados. "Doente de ver você deprimida. Venha aqui. Junte-se à festa."
Karina virou a cabeça, olhando para mim com um divertimento predatório, como um gato brincando com um rato.
"Estamos jogando Copo do Rei", ela ronronou. "Caio acabou de tirar uma carta. Mas como ele está ocupado..." Ela roçou os quadris contra ele, marcando seu território. "...você pode jogar por ele."
"Estou indo embora", eu disse, virando nos calcanhares.
"Fique!", Caio latiu. O comando estalou como um chicote, congelando meus pés. "Não me desrespeite na frente dos meus homens, Aurora."
Eu me virei lentamente. "Você está se desrespeitando."
Karina pegou o baralho de cartas espalhado na mesa. Ela virou uma com um floreio.
*Rei.*
"Regra do Rei", ela anunciou, sua voz cortando o barulho. Ela apontou um dedo com a unha feita para mim. "O Rei ordena que a plebeia... entretenha as tropas."
Ela mudou seu olhar para um soldado chamado Marco. Um homem que sempre me olhou por tempo demais, com olhos que me davam arrepios.
"Marco", disse Karina. "Vá tocá-la. Só um pouco. Vamos ver se ela é macia."
Marco hesitou, olhando para seu chefe.
Eu olhei para Caio, implorando silenciosamente. "Caio. Pare com isso."
Caio deu de ombros, tomando um gole de vodca. "Karina tirou o Rei, meu bem. Hierarquia. Ela está acima de você."
Ele não ia parar. Ele ia assistir.
Marco se levantou, um sorriso de escárnio brincando em seus lábios enquanto ele se aproximava de mim.
"Não me toque", eu avisei, recuando até bater em uma mesa.
"Ou o quê?", Marco riu, diminuindo a distância. "O papai não está aqui para te salvar."
"Beba a prenda", Karina gritou, entediada. "Se você não quer jogar, beba o copo do centro. Essa é a regra."
Eu olhei para o centro da mesa. Uma grande caneca de vidro cheia de uma mistura vil de tudo que todos estavam bebendo. Cerveja. Vodca. Uísque.
E o vinho tinto. O barato. O tipo carregado de sulfitos.
Eu olhei para Marco, sua mão se estendendo. Eu olhei para Caio, que estava cheirando o pescoço de Karina, entediado com meu sofrimento.
Veneno ou ele. Não era uma escolha.
Eu agarrei a caneca.
"Saúde", eu sussurrei.
Eu a esvaziei.
O líquido era uma lama, queimando todo o caminho para baixo. Tinha gosto de bile, cinzas e arrependimento.
Eu bati o copo na mesa, o som quebrando a tensão.
Marco parou, impressionado. "Caramba, garota."
Eu me virei para sair.
Dei três passos antes que minha garganta começasse a fechar.
Começou como um arranhão, depois se transformou instantaneamente em um aperto de torno esmagando minha traqueia. Meu peito se contraiu como se estivesse amarrado por faixas de ferro. Minha visão turvou.
Eu tropecei, minhas pernas virando água.
"Aurora?", ouvi um soldado dizer, sua voz soando a quilômetros de distância.
Eu caí de joelhos. O chão estava pegajoso de álcool derramado.
Eu não conseguia respirar. Sem ar. Eu precisava de ar.
Eu arranhei minha garganta, minhas unhas cravando na minha pele, tentando arrancar as mãos invisíveis que me sufocavam.
Através da névoa, vi Caio se levantar. Ele parecia irritado, balançando um pouco.
"Levante-se, Aurora. Você não está tão bêbada assim."
Eu desabei de lado, com a bochecha pressionada contra a sujeira. A escuridão estava se aproximando nas bordas da minha visão, uma vinheta fechando a cena.
A última coisa que vi foi Karina revirando os olhos, e Caio olhando para mim, não com preocupação, mas com a inconveniência de um homem forçado a limpar um derramamento.