Quando implorei com os olhos para que ele me assumisse, para me salvar da humilhação pública, ele não hesitou. Apenas se inclinou para seu subchefe, com a voz amplificada pelo silêncio.
"Karina é para o poder. Aurora é para o prazer. Não confunda os ativos."
Meu coração não apenas se partiu; ele foi incinerado. Ele esperava que eu ficasse como sua amante, ameaçando desenterrar o túmulo da minha falecida mãe se eu me recusasse a ser seu bichinho obediente.
Ele achou que eu estava encurralada. Achou que eu não tinha para onde ir por causa das enormes dívidas de jogo do meu pai.
Ele estava errado.
Com as mãos trêmulas, peguei meu celular e mandei uma mensagem para o único nome que eu nunca deveria usar.
Heitor Montenegro. O Dom. O monstro debaixo da cama de Caio.
*Estou invocando o Juramento de Sangue. A dívida do meu pai. Estou pronta para pagá-la.*
A resposta dele chegou três segundos depois, vibrando na minha palma como um aviso.
*O preço é o casamento. Você pertence a mim. Sim ou Não?*
Eu olhei para Caio, que ria com sua nova noiva, pensando que era meu dono.
Eu olhei para baixo e digitei três letras.
*Sim.*
Capítulo 1
POV Aurora
Por quatro anos, eu toquei a cicatriz de bala no peito de Caio e a chamei de recibo do seu amor. Eu acreditava que era a prova de que ele sangraria para me manter segura.
Mas enquanto eu estava parada no centro do salão de festas, afogada no vestido de seda branco que ele me mandou usar, observando-o deslizar um diamante no dedo de outra mulher, eu percebi a verdade.
Aquela cicatriz não era uma promessa. Era apenas uma distração enquanto ele afiava a faca para as minhas costas.
Caio Ferraz é um Capo. Ele é um homem cujo nome abre portas e fecha caixões nesta cidade. Ele é o herdeiro de um império construído sobre sangue e silêncio, um predador que se camufla em ternos de lã italiana.
Por quatro anos, eu fui a civil que ele protegeu daquele mundo. Ou assim eu pensava.
"Feliz aniversário, meu bem", dizia a mensagem, brilhando na minha tela às 8h da manhã. "Use branco. Esta noite muda tudo."
Eu li *muda tudo* como um voto. Um anel. Um lugar permanente em sua mesa.
Passei a tarde esfregando minha pele até ficar em carne viva, como se pudesse me polir até me tornar algo digno do mundo dele. Enrolei meu cabelo nas ondas suaves que ele gostava. Pratiquei a palavra "Sim" no espelho até que ela tivesse gosto de açúcar.
Eu parecia uma noiva. Eu me sentia uma rainha.
Agora, sob o peso esmagador dos lustres de cristal do Grande Baile de Gala do Clã, eu me sinto como um cordeiro levado ao matadouro.
O salão está sufocado pelo cheiro de dama-da-noite e homens perigosos. O ar está denso, vibrando com o tipo específico de tensão que precede um assassinato - ou uma fusão.
Eu vejo a faixa pendurada acima do palco antes de vê-lo. As letras são ousadas, pretas e finais.
*Aliança Ferraz & Valente.*
Minha respiração falha, presa em uma garganta subitamente apertada demais para engolir.
Caio está no palanque. Ele está devastadoramente bonito em seu smoking, as luzes fortes do palco realçando o ângulo afiado e predatório de sua mandíbula.
Mas ele não está olhando para mim.
Ele está olhando para Karina Valente.
Karina é a filha de uma família rival. Ela é elegante, afiada e cruel - uma Princesa da Máfia criada para empunhar o poder como um chicote, enquanto eu fui criada para ser educada.
"Ao futuro", diz Caio. Sua voz é amplificada pelo microfone, ecoando pelo silêncio como o bater de um martelo. "E à união de nossas famílias."
Ele tira uma caixa de veludo do bolso.
Não é um anel qualquer. É o anel de sua mãe. A joia de safira que ele me disse ser frágil demais para usar, a herança que ele jurou estar guardando para o momento certo.
Ele mentiu. Não era frágil demais. Eu que era temporária demais.
Ele o desliza no dedo de Karina.
O salão explode em aplausos. O som é ensurdecedor, um pelotão de fuzilamento de mãos batendo palmas.
Eu fico paralisada, um fantasma assombrando seu próprio funeral.
Caio desce as escadas com Karina em seu braço. Eles se movem como a realeza, suaves e predatórios como tubarões. Quando chegam ao final, seus olhos finalmente se fixam nos meus.
Não há culpa neles. Apenas um aviso frio e calculado.
Ele guia Karina em minha direção. A multidão se abre, sentindo o cheiro de sangue.
"Karina", diz Caio, sua voz suave, desprovida do calor que ele costumava derramar em meu ouvido. "Quero que conheça Aurora Mendes. Ela é uma... amiga da família muito próxima."
*Amiga da família.*
As palavras arrancam a pele dos meus ossos. Quatro anos dormindo em sua cama, cuidando de suas feridas, amando-o quando ele era impossível de amar. Reduzida a uma nota de rodapé.
Os lábios de Karina se curvam em um sorriso de escárnio que não alcança seus olhos mortos. Ela sabe. Todos nesta sala sabem.
"Aurora", ela diz, saboreando meu nome como um vinho barato que pretende cuspir no tapete. "Caio me falou tanto sobre você. Ele diz que você é muito... prestativa."
Ela se inclina, seus brincos de diamante capturando a luz, me cegando.
"Eu aceito o acordo", ela sussurra, baixo o suficiente para que a humilhação seja apenas nossa. "Todo Rei precisa de uma plebeia para aquecer sua cama quando a Rainha está ocupada. Você pode ficar, passarinho. Apenas mantenha seu canto em um sussurro."
Meu estômago revira, o ácido subindo pela minha garganta.
Eu olho para Caio. Imploro com os olhos para que ele diga algo. Para me assumir. Para dizer a ela que está errada.
Ele se inclina para seu subchefe, sem se dar ao trabalho de baixar a voz. "Karina é para o poder. Aurora é para o prazer. Não confunda os ativos."
Algo dentro de mim se quebra. Não é um estalo alto. É o som silencioso e final de uma espinha se enrijecendo em aço.
Eu não sou um ativo.
Eu pego meu celular na minha bolsa. Minhas mãos estão tremendo, mas minha determinação é de ferro.
Há um nome salvo nos meus contatos que eu nunca deveria usar. Um fantasma das dívidas de jogo do meu pai. Um monstro que faz homens como Caio olharem debaixo da cama.
*Sr. Montenegro.*
Heitor Montenegro. O Dom. O Bicho-Papão.
Eu digito a mensagem, meus polegares se movendo sobre o vidro.
*Estou invocando o Juramento de Sangue. A dívida do meu pai. Estou pronta para pagá-la.*
Eu aperto enviar.
Não espero uma resposta. Não imediatamente. Homens como Heitor Montenegro não respondem mensagens. Eles enviam matadores.
Mas o celular vibra na minha palma três segundos depois.
*O preço é o casamento. Você pertence a mim. Sim ou Não?*
Eu olho para cima. Caio está rindo de algo que Karina disse, sua mão repousando possessivamente na base das costas dela. Ele parece feliz. Ele parece um estranho que roubou quatro anos da minha vida.
Eu olho para a tela.
Posso ser a amante de um traidor ou a esposa de um monstro.
Eu digito três letras.
*Sim.*