Eu observei a varanda envidraçada enquanto os funcionários descarregavam minhas malas discretas, porque eu não trouxe quase nada, apenas o essencial, algumas roupas, documentos, fotos do meu pai que eu não tive coragem de deixar no hospital, e uma caixa pequena com coisas que ainda não tive força para abrir.
Dante já estava lá quando cheguei, encostado na bancada da cozinha como se a posição fosse natural, camisa social branca ajustada ao corpo, mangas dobradas até o antebraço, relógio impecavelmente alinhado no pulso, postura relaxada demais para quem tinha acabado de casar por contrato. Ele me observou atravessar a sala ampla com piso frio, luz natural invadindo o ambiente, e eu senti aquele olhar verde analisando cada detalhe, não de forma invasiva, mas calculada, como se estivesse avaliando uma variável importante.
- Pontual - ele comentou, sem sair do lugar.
- Eu não dramatizo atrasos - respondi, tirando os óculos escuros e apoiando a bolsa sobre o sofá.
Ele quase sorriu.
- Vai se acostumar rápido aqui.
- Não vim me acostumar - retruquei, cruzando os braços por instinto. - Vim cumprir um acordo.
Ele assentiu lentamente, como se aquilo fosse exatamente o que esperava ouvir, mas os olhos demoraram um segundo além do necessário sobre meu rosto, depois desceram involuntariamente até a altura da minha cintura, onde o vestido de linho claro marcava mais do que eu tinha planejado quando saí de casa. Eu percebi. Ele percebeu que eu percebi. E voltou o olhar para o meu, impassível.
Isso não ajuda, pensei.
A cobertura era grande demais para duas pessoas que fingiam indiferença, sala integrada com cozinha americana, corredor longo levando às suítes, varanda ampla com vista direta para o mar cinza daquela tarde, o céu carregado prometendo tempestade. Eu caminhei pelo espaço em silêncio, analisando cada detalhe, cada obra de arte minimalista nas paredes, cada móvel escolhido com precisão, porque Dante não parecia o tipo de homem que deixaria algo ali por acaso.
- Seu quarto é o do lado esquerdo - ele informou, apontando com um gesto discreto. - O meu fica no final do corredor.
Eu parei.
- Nosso - corrigi, porque o acordo previa aparência pública de casamento legítimo.
Ele sustentou meu olhar, avaliando a provocação.
- Em eventos, sim - respondeu, com calma irritante. - Aqui, precisamos de limites claros.
Limites claros.
Eu mordi o lábio para não rebater algo mais ácido, porque parte de mim se incomodou com a facilidade com que ele delimitou espaço, como se a distância fosse confortável demais.
- Ótimo - eu disse. - Gosto de limites.
Mentira parcial.
Ele empurrou uma pasta fina sobre a bancada.
- Agenda da semana. Jantar na mansão da Urca amanhã, reunião com o conselho na segunda, evento beneficente no Copacabana Palace sexta que vem.
Eu folheei rapidamente.
- Já querem me expor?
- Precisam ver você - ele explicou. - Precisam entender que o casamento é sólido.
Eu ergui o olhar.
- E é?
O silêncio dele durou dois segundos longos, densos, carregados de algo que não estava no contrato.
- Será convincente - respondeu por fim.
Eu respirei fundo, aproximando-me da varanda, porque precisava de ar, porque a presença dele preenchia o ambiente de um jeito difícil de ignorar, e quando abri a porta de vidro senti a umidade da maresia tocar minha pele, o som das ondas subindo mais forte à medida que o vento começava a virar. A cidade lá embaixo pulsava, buzinas distantes, helicóptero cruzando o céu pesado, o Rio seguindo indiferente à minha decisão imprudente.
- Murilo vai estar no jantar - Dante acrescentou atrás de mim.
Eu não me virei, apenas perguntei:
- Ele sabe do acordo?
- Sabe o suficiente.
- E o suficiente é?
- Que eu casei.
Eu soltei uma risada curta.
- Ele deve estar adorando.
- Ele nunca adorou nada que não pudesse controlar.
Eu virei o rosto, observando a expressão dele com mais atenção, e ali estava uma tensão discreta no maxilar, algo que denunciava mais do que as palavras.
- Isso tá com cheiro de problema - murmurei.
- Eu resolvo - ele respondeu automaticamente.
Eu o encarei.
- Não me testa, Dante.
Ele sustentou meu olhar por segundos silenciosos, depois desviou, passando a mão pelo cabelo num gesto rápido que denunciava cansaço ou irritação contida.
- Você não é parte frágil disso - afirmou, mais baixo.
Eu não sou mesmo.
Mas também não sou blindada.
A tempestade caiu poucos minutos depois, grossa, intensa, as gotas batendo no vidro da varanda com força, o céu escurecendo antes do horário normal, e eu fechei a porta, voltando para dentro enquanto ele ajustava o relógio no pulso, gesto quase imperceptível, mas repetido sempre que algo o tensionava.
- Amanhã precisamos parecer alinhados - ele disse.
- Parecer ou estar?
- Parecer já é suficiente por enquanto.
Eu me aproximei alguns passos, porque não gosto de falar de longe, porque confronto exige proximidade, e quando parei a menos de um metro dele senti o calor do corpo, o cheiro discreto do perfume misturado com a maresia que entrou antes, senti o ambiente diminuir, como se a sala tivesse ficado pequena demais.
- E se alguém testar essa aparência? - questionei, mantendo o tom estável.
- Então você segura minha mão - ele respondeu, sem piscar.
Eu arqueei uma sobrancelha.
- Só isso?
- Por enquanto.
O vento fez a luz da sala oscilar por um segundo, a tempestade engrossando lá fora, e eu percebi que o casamento por contrato estava começando a ganhar textura real demais para ser apenas estratégia, porque dividir um teto com Dante não era a mesma coisa que assinar um papel numa sala envidraçada no Centro.
Mais tarde, já noite fechada, eu estava no meu quarto organizando algumas roupas quando ouvi passos pelo corredor, firmes, ritmados, e segundos depois a porta foi levemente batida.
- Pode entrar - eu disse, mantendo o tom neutro.
Ele entrou sem blazer, apenas de camisa social aberta no primeiro botão, gravata afrouxada, e o detalhe mínimo fez diferença maior do que eu gostaria de admitir, porque o colarinho revelava parte do peito amplo, e eu precisei desviar o olhar para não parecer óbvia.
- O conselho pediu relatório antecipado - informou, apoiando-se no batente da porta. - Quer revisar comigo?
Eu respirei fundo.
- Agora?
- Melhor agora do que amanhã de manhã.
Eu peguei o tablet da mesa e me aproximei, ficando lado a lado com ele no corredor iluminado por luz indireta, e quando nossos braços quase se tocaram senti uma descarga pequena demais para justificar reação, grande demais para ignorar.
Ele percebeu, porque o maxilar tensionou discretamente.
Eu também percebi isso.
E a guerra que estávamos prestes a enfrentar ainda nem tinha começado direito.
Nós acabamos na sala, sentados lado a lado no sofá amplo demais para duas pessoas que fingiam neutralidade, o tablet apoiado entre nós exibindo gráficos financeiros do Grupo, projeções de contratos públicos e movimentações recentes do conselho, mas a proximidade era o verdadeiro foco, não os números. Eu me inclinei levemente para frente enquanto analisava a planilha de investimentos hospitalares e senti o braço dele quase roçar no meu, um toque inexistente que ainda assim parecia concreto, e quando ajustei a postura nossos ombros finalmente encostaram de leve, nada que justificasse afastamento brusco, mas o suficiente para que eu percebesse o calor da pele dele atravessando o tecido da camisa.
- Murilo votou contra a expansão em Recife - eu observei, deslizando o dedo pela tela.
- Ele quer enfraquecer os hospitais regionais - Dante respondeu, voz baixa, concentrada. - Se o foco ficar só nos contratos federais, ele controla melhor os repasses.
Eu virei o rosto para encará-lo.
- Então ele já está mexendo as peças.
- Ele nunca parou.
A tempestade do lado de fora engrossava, trovões distantes ecoando sobre o mar, luzes da orla refletindo nas janelas envidraçadas, e eu pensei que aquele cenário parecia apropriado demais para o que estávamos discutindo, porque guerra corporativa no Rio nunca acontece sob céu azul perfeito, ela cresce no abafamento, na umidade, na sensação constante de que algo está prestes a desabar.
- E Bianca? - eu perguntei, mantendo o tom casual demais para alguém que estava genuinamente curiosa.
Ele demorou um segundo antes de responder, tempo suficiente para que eu registrasse a microtensão no maxilar.
- Diretora de marketing eficiente - disse por fim.
Eu arqueei a sobrancelha.
- Só isso?
Ele me lançou um olhar lateral.
- O que quer saber exatamente?
- Nada - respondi, voltando a atenção para o tablet. - Só estou mapeando o campo de batalha.
Ele soltou um leve sopro de ar pelo nariz, quase um riso contido.
- Ela vai testar você amanhã.
- Ótimo - retruquei. - Gosto quando deixam claro quem é oposição.
Ele fechou o tablet e o colocou sobre a mesa de centro, girando levemente o corpo na minha direção, o que diminuiu ainda mais o espaço entre nós.
- Não subestime Bianca - advertiu, voz mais grave. - Ela não joga para perder.
- Eu também não.
O silêncio que se seguiu foi diferente, menos técnico, mais pessoal, carregado de algo que não estava nos relatórios. Eu senti o olhar dele descer por um instante para a minha boca antes de voltar aos meus olhos, rápido demais para ser flagrante, lento demais para ser inocente.
Não olha, eu pensei.
- Você está nervosa? - ele perguntou, analisando minha expressão.
Eu cruzei os braços por reflexo.
- Qual foi? Está me avaliando?
- Sempre avalio riscos.
- Eu não sou risco.
- Ainda estou decidindo.
Eu ri, incrédula.
- Fala sério.
Ele não riu de volta.
- Você entrou numa guerra que não começou agora, Aurora - afirmou, mais sério. - E eu não posso perder o controle disso.
Eu sustentei o olhar.
- Então não perde.
A energia entre nós ficou densa demais, o ar carregado da tempestade entrando pelas frestas da varanda, e por um segundo eu tive a impressão de que ele ia dizer algo além do estratégico, algo que escapasse do contrato, mas ele apenas se levantou, passando a mão pelo cabelo como fazia quando estava exausto.
- Dorme cedo - recomendou. - Amanhã vai ser longo.
- Eu resolvo - respondi automaticamente.
Ele parou por um segundo, virando levemente o rosto.
- Não precisa resolver tudo sozinha.
Eu não respondi.
Ficar em silêncio quando estou magoada ou confusa é um vício antigo, e naquele momento eu não soube definir qual das duas coisas estava sentindo.
A mansão na Urca parecia saída de um catálogo de famílias que não aceitam envelhecer, fachada branca iluminada, jardim impecável, vista privilegiada para a Baía de Guanabara, o Pão de Açúcar imponente ao fundo sob um céu ainda carregado de nuvens da tempestade da noite anterior. O calor voltara com força, abafado, fazendo o tecido do meu vestido de seda aderir levemente à pele, e eu respirei fundo antes de sair do carro, porque aquela não era uma simples apresentação social, era a primeira exibição oficial do nosso casamento.
Dante desceu primeiro, contornou o carro e abriu a porta para mim, gesto ensaiado, postura impecável no terno escuro sob medida que destacava os ombros largos e a linha reta das costas. Quando estendi a mão, ele a segurou com firmeza controlada, dedos quentes envolvendo os meus com naturalidade convincente demais.
- Lembra do que combinamos - murmurou, aproximando-se o suficiente para que só eu ouvisse.
- Não dramatiza - respondi, mantendo o sorriso social. - Eu sei atuar.
Ele quase sorriu.
Entramos sob olhares atentos, murmúrios discretos, cumprimentos formais demais para serem espontâneos. O conselho já estava reunido no salão principal, copos de whisky em mãos, conversas baixas, clima aparentemente cordial, mas eu senti o peso da avaliação assim que cruzamos a porta.
Murilo foi o primeiro a se aproximar, sorriso torto estampado no rosto, palmas lentas ecoando pelo ambiente com teatralidade calculada.
- Finalmente conheço a famosa esposa - disse ele, aproximando-se além do necessário. - Aurora, não é?
Eu descruzei os braços com esforço para não parecer defensiva e sustentei o olhar dele.
- Em pessoa.
Ele inclinou levemente o corpo para frente, invadindo espaço sutilmente.
- Rápido demais, não acha? - comentou, lançando um olhar lateral para Dante.
Dante apertou o maxilar, imperceptível para quem não o observava com atenção, mas eu observei.
- Estratégico - respondeu, frio.
Murilo soltou um riso curto.
- Claro. Estratégico.
Antes que eu pudesse replicar, uma presença feminina elegante se aproximou pelo outro lado, perfume marcante anunciando antes mesmo da voz.
- Então você é a Aurora - disse Bianca, sorriso controlado, olhos azuis avaliando cada detalhe do meu vestido, do meu cabelo, da minha postura. - Ouvi falar muito de você.
Eu sorri de volta, educada.
- Espero que coisas úteis.
Ela inclinou levemente a cabeça.
- Depende do ponto de vista.
A mão dela tocou o braço de Dante com naturalidade íntima demais, ajustando discretamente a gravata dele.
- Essa cor fica melhor em você - comentou, suave.
Eu senti minha mão fechar em punho ao lado do corpo, mas mantive o sorriso intacto.
- Eu que escolhi - declarei, sem alterar o tom.
Os olhos dela brilharam por um segundo, surpresa quase imperceptível.
- Que bom gosto - respondeu.
Murilo observava a cena com diversão mal disfarçada, e naquele instante eu soube, com certeza absoluta, que havia mais ali do que rivalidade corporativa, havia algo subterrâneo, silencioso, que conectava os dois de forma perigosa.
Dante aproximou a mão da minha cintura, gesto firme, possessivo o suficiente para marcar território, discreto o bastante para parecer apenas protocolo social.
- Vamos jantar - ele disse.
Enquanto caminhávamos para a mesa longa do salão, eu senti o peso da guerra começando a se desenhar com mais clareza, não apenas nos relatórios financeiros, mas nos olhares trocados, nos toques calculados, nos sorrisos falsos.
Eu não amava Dante.
Eu repetia isso mentalmente enquanto ele puxava a cadeira para mim e se posicionava ao meu lado com postura impecável.
Era só contrato.
Só negócio.
Mas ninguém segura sua cintura daquele jeito por puro negócio.
E ninguém aperta o maxilar daquela forma quando outro homem - no caso, Murilo - elogia demais a esposa dele. A guerra tinha começado.
E eu tinha acabado de entrar oficialmente nela