Dante estava ao meu lado, terno grafite impecável, camisa branca ajustada demais nos ombros largos, aquele relógio caro que ele ajusta quando está irritado. Ele não dizia nada, mas o maxilar travado entregava.
- Você vai deixar o Murilo falar primeiro? - perguntei, quebrando o silêncio.
Ele inclinou levemente o rosto na minha direção.
- Vou deixar ele se comprometer - respondeu, a voz baixa, controlada.
- E a Bianca?
Ele soltou um sopro quase impaciente.
- Ela vai tentar transformar em narrativa institucional.
Eu balancei a cabeça.
- Ela me chamou de elemento instável ontem.
Ele arqueou a sobrancelha.
- Chamou?
- Com palavras mais educadas - expliquei, cruzando os braços. - Mas chamou.
Ele me analisou como se estivesse recalculando algo.
- Não reage.
- Não dramatiza? - provoquei.
Um quase sorriso apareceu.
- Não me imita.
A porta do elevador abriu direto no andar executivo. O ar-condicionado estava frio demais, aquele tipo de frio que tenta parecer eficiência. Funcionários circulavam em passos contidos, cumprimentos discretos, olhares que demoravam meio segundo a mais em mim. Eu sabia o que estavam pensando, casamento estratégico, cláusula de testamento, nova herdeira. Eles só não sabiam que eu não tinha pedido nada disso.
Na sala do conselho, Murilo já estava sentado, paletó azul escuro, sorriso torto no lugar, tamborilando os dedos na mesa de madeira maciça.
- Que pontualidade admirável - comentou, levantando as sobrancelhas.
- Educação básica - retruquei.
Ele abriu os braços como quem recebe provocação com prazer.
Bianca estava ao lado dele, vestido bege impecável, cabelo loiro liso caindo como propaganda de shampoo caro. Ela segurava uma pasta fina, postura reta demais, expressão neutra demais. Quando nossos olhares se cruzaram, ela inclinou a cabeça minimamente.
Mentira tem postura elegante, eu pensei.
Dante puxou a cadeira na cabeceira e sentou sem pressa.
- Vamos começar - declarou.
Murilo pigarreou teatralmente.
- Como todos sabem, há questionamentos sobre algumas movimentações financeiras nos setores hospitalares.
Eu senti a ironia escorrendo na voz dele.
- Questionamentos que partiram do seu setor - acrescentei.
Ele sorriu.
- Transparência nunca é demais, Aurora.
Dante abriu uma pasta e espalhou documentos pela mesa.
- Concordo - afirmou. - Por isso antecipei a auditoria interna e trouxe os relatórios consolidados.
Murilo piscou, rápido demais.
Bianca não se mexeu, mas eu vi o microajuste na respiração dela.
- Antecipou? - Murilo perguntou, forçando leveza.
- Ontem à noite - Dante esclareceu. - E já comuniquei aos acionistas minoritários.
Silêncio.
Eu quase podia ouvir o ego de Murilo recalculando rota.
- Isso é precipitado - Bianca interveio, finalmente falando. - A narrativa externa precisa ser preparada.
- Não estamos falando de narrativa - Dante respondeu, firme. - Estamos falando de números.
Ela cruzou as mãos sobre a mesa.
- Números mal comunicados geram pânico.
- Números desviados geram prisão - eu acrescentei.
Murilo riu, lento.
- Você está insinuando algo sério demais.
Eu sustentei o olhar.
- Eu não sou idiota.
Ele aproximou o corpo para frente.
- Cuidado com acusações sem prova.
Dante apoiou os cotovelos na mesa.
- As provas estão aqui.
Ele deslizou uma folha específica na direção de Murilo. Eu acompanhei o movimento com atenção. Transferências indiretas. Empresas terceirizadas recém-criadas. Valores fracionados.
Murilo não perdeu a expressão.
Treinado.
- Isso precisa de análise técnica - comentou, devolvendo o papel com calma exagerada.
- Já foi analisado - Dante respondeu.
Bianca respirou fundo.
- Antes de transformar isso num escândalo interno, sugiro alinharmos discurso.
Eu virei para ela.
- Discurso para quem? Para a imprensa ou para a polícia?
Ela me encarou com frieza contida.
- Você está sendo impulsiva.
- E você está sendo conveniente.
O clima ficou afiado.
Dante se levantou devagar.
- A auditoria começa hoje. A partir de agora, qualquer contrato novo precisa de dupla assinatura.
Murilo levantou também.
- Isso é desconfiança formalizada.
- Isso é governança - Dante retrucou.
Eu observei Bianca. Ela não discutiu. Só fechou a pasta, ajeitou um fio de cabelo atrás da orelha e disse, quase suave:
- Então vamos jogar direito.
Não era concordância. Era desafio.
A reunião terminou com tensão civilizada. Do lado de fora, o Centro fervilhava, buzinas, ambulantes, executivos atravessando a rua como se o mundo não estivesse prestes a explodir numa guerra societária.
Dentro do carro, eu soltei o ar.
- Eles não esperavam isso - comentei.
- Murilo vai reagir - Dante afirmou.
- E a Bianca?
Ele demorou meio segundo.
- Ela é mais perigosa.
Eu virei para ele.
- Você sabe que ela quer você, né?
Ele me olhou, surpreso pelo ataque direto.
- Isso não é relevante.
- É sim.
Ele segurou o volante com mais força.
- Aurora.
- Qual foi? - rebati. - Eu vejo como ela encosta em você.
Ele suspirou.
- Isso é teatro.
- Então corta a cena.
Silêncio.
Ele estacionou na garagem da cobertura e desligou o motor.
- Você está com ciúme?
Eu ri, sem humor.
- Do quê?
Ele se inclinou um pouco na minha direção.
- De mim.
Eu cruzei os braços.
- Não dramatiza.
Mas o jeito como ele me olhava não era provocação. Era leitura.
Subimos. A porta da cobertura se fechou atrás de nós e, pela primeira vez no dia, o mundo externo ficou distante. O apartamento estava iluminado pelo pôr do sol que entrava pelas janelas envidraçadas da varanda, refletindo no chão claro, mar ao fundo, o barulho constante das ondas lá embaixo.
Dante tirou o blazer, pendurou na cadeira, afrouxou a gravata. Eu observei sem querer observar. A camisa ajustava no peito, as mangas marcavam os braços, o movimento simples de abrir o primeiro botão parecia lento demais.
Isso não ajuda.
Ele passou a mão pelo cabelo, exausto.
- Eu vou tomar um banho - avisou.
- Vai lá - respondi rápido demais.
Ele me olhou por um segundo a mais antes de seguir pelo corredor.
Eu fiquei parada na sala, olhando para o nada, mas ouvindo tudo. A água do chuveiro ligando. O eco leve pelo corredor. Minha mente repetindo a reunião, os olhares trocados entre Murilo e Bianca, o perigo concreto agora documentado.
E, misturado a isso, a imagem de Dante ajustando a gravata enquanto Bianca tocava o braço dele.
Ridículo.
Eu andei até a cozinha, abri a geladeira sem fome, fechei. Peguei um copo de água, bebi devagar. Meu reflexo na janela parecia mais sério do que eu gostaria.
Contrato.
Era só contrato.
Mas ninguém reage daquele jeito quando outra mulher encosta no marido se for só contrato.
Eu ouvi o chuveiro desligar.
Meu coração acelerou sem autorização.
Isso é absurdo.
Ele saiu do corredor alguns minutos depois, toalha presa baixa demais na cintura, cabelo ainda úmido, gotas escorrendo pelo pescoço até o peito. Ele caminhou como se aquilo fosse normal. Como se eu não tivesse olhos.
Eu virei de costas, fingindo mexer no celular.
- Está tudo bem? - ele perguntou, a voz mais rouca depois do banho.
- Está - respondi rápido.
Ele se aproximou.
Perto demais.
- Você está andando pela casa como se quisesse discutir - observou.
- Eu ando rápido quando estou irritada - rebati.
Ele soltou um quase riso.
- Eu percebi.
Eu me virei.
Erro estratégico.
Ele estava muito perto. Muito.
O cheiro do sabonete misturado ao perfume, o calor do corpo ainda úmido, o abdômen desenhado sem esforço, os ombros largos ocupando espaço demais.
Meu cérebro tentou manter dignidade.
- Vai se vestir - eu disse, apontando vagamente para o corredor.
Ele inclinou a cabeça.
- Está incomodada?
- Não.
Ele sorriu de lado.
- Mente melhor.
Meu estômago apertou.
- Boa noite, Dante - falei, encerrando.
E fui para o quarto separado antes que eu fizesse alguma coisa estúpida.
Fechei a porta atrás de mim e encostei as costas na madeira.
Respirei fundo.
Isso tá com cheiro de problema.
E o problema, infelizmente, não era só corporativo.
Eu tranquei a porta, não porque tivesse medo dele entrar, mas porque precisava da ilusão de controle. O quarto que eu escolhi desde o início do contrato era amplo, organizado demais, impessoal demais. Uma cama grande que nunca foi realmente usada, uma poltrona perto da janela com vista para o mar da Barra, a cidade ainda pulsando lá embaixo, luzes dos prédios refletindo no vidro.
Eu tirei os saltos devagar, sentindo o peso do dia finalmente cair nos ombros. Caminhei até o espelho e soltei o cabelo, os cachos escuros caindo pelas costas. Meu reflexo parecia mais vulnerável do que eu gostaria de admitir.
- Fala sério - murmurei para mim mesma.
Eu estava irritada com Murilo, desconfiada da Bianca, tensa com a auditoria, e, ainda assim, a imagem que não saía da minha cabeça era Dante parado na sala, toalha baixa demais, olhando para mim como se soubesse exatamente o efeito que causava.
Ridículo.
Eu desabotoei a blusa lentamente, não por sedução, mas porque minha pele parecia quente demais dentro do tecido. O ar-condicionado estava ligado, mas o calor não vinha do clima. Eu joguei a blusa na cadeira e caminhei até o banheiro, abrindo a torneira da pia, molhando o rosto.
A água fria não ajudou.
Eu me apoiei na bancada, respirando fundo. Era só atração física. Natural. Humana. Ele era meu marido, ainda que por cláusula jurídica. Não havia nada de imoral em desejar o próprio marido.
Então por que parecia proibido?
Talvez porque o contrato sempre estivesse entre nós, como uma parede invisível.
Eu voltei para o quarto usando apenas a roupa íntima e uma camiseta larga. Sentei na cama e tentei pensar em qualquer outra coisa. Relatórios. Assembleia. Provas contra Murilo. O jeito como Bianca inclinou a cabeça quando mentiu. A forma como ela tocou o braço de Dante.
Minha mão fechou no lençol.
- Ela não combina com você - eu repeti, lembrando da frase que Bianca havia sussurrado dias antes, como se fosse um conselho.
Eu ri sozinha.
Ela achava que eu não via.
A verdade começou a se organizar na minha cabeça com uma clareza desconfortável. O microsegundo de troca de olhar entre ela e Murilo na reunião. A falta de surpresa real. A postura coordenada. Aquilo não era coincidência. Era alinhamento. Talvez mais do que corporativo.
Eu deitei, olhando para o teto, mas a mente traiu o foco novamente.
Dante segurando meu queixo na varanda.
O calor da mão dele.
A respiração perto demais.
O jeito como ele disse "fica do meu lado amanhã" como se não fosse apenas sobre negócios.
Meu corpo reagiu antes da razão.
Eu fechei os olhos, tentando ignorar a memória sensorial, mas ela voltou mais nítida. A textura da pele dele sob meus dedos no hospital semanas atrás, quando eu precisei verificar se ele estava bem após um susto menor. A firmeza do peito sob a camisa social. O maxilar travando quando Caetano elogiou meu vestido naquela noite na Urca.
Ele sente.
Ele não fala, mas sente.
Eu virei de lado na cama, o tecido da camiseta subindo levemente pelas coxas. Meu coração batia num ritmo estranho, acelerado e lento ao mesmo tempo. Eu sabia o que estava acontecendo. E, pela primeira vez, não tentei negar.
Eu não estava apenas irritada.
Eu estava desejando.
E isso complicava tudo.
Minha mão deslizou pelo próprio braço, não como um gesto ensaiado, mas como quem busca aterramento. Eu respirei fundo, imaginando a mão dele no lugar da minha. A firmeza. O peso. O calor. O jeito como ele me segura pela cintura em eventos, discreto, mas possessivo.
Eu mordi o lábio.
- Isso é só tensão acumulada - sussurrei para mim mesma.
Mas não era só isso.
Era o olhar dele demorando um segundo a mais quando eu saía do banho e atravessava o corredor de robe. Era a maneira como ele ajustava meu vestido antes de entrarmos em um evento, dedos roçando na minha pele como se fosse acidente, mas demorando o suficiente para não ser.
Eu deslizei os dedos pela própria cintura, sentindo a própria respiração ficar mais pesada.
Eu não precisava de descrição explícita para saber o que estava fazendo. Coloquei a mão por dentro da calcinha, e com a mão esquerda, eu acariciava meus corpos sutilmente enquanto a mão direita massageava o meu clitóris e penetrava dois dedos prazerosamente. Em questão de segundos, eu estava molhada. Eu estava pensando nele. No corpo dele. No cheiro dele. No jeito como ele me olha como se estivesse sempre calculando alguma coisa e, às vezes, perdendo o cálculo.
Eu imaginei Dante entrando naquele quarto sem bater, atravessando o espaço com aquele passo seguro, me encostando na porta e penetrando em mim, observando o seu pau adentrar a minha buceta. A fantasia não era sobre toque imediato. Era sobre o olhar. Sobre ele perceber. Sobre ele admitir que também sente.
Meu corpo reagiu com intensidade que me surpreendeu.
Eu não disse o nome dele em voz alta, mas pensei. Pensei repetidas vezes.
Dante. Dante Albuquerque.
O homem que eu deveria manter a uma distância estratégica.
O homem que estava do outro lado do corredor.
Eu fechei os olhos, deixando a sensação crescer sem culpa por alguns segundos. Não era vulgar.
Era íntimo. Era meu. Era a verdade que eu evitava durante o dia, quando discutia auditoria e governança como se fosse só isso que importasse.A respiração ficou profunda, o orgasmo cresceu e em seguida eu gozei gostoso.
Quando a tensão finalmente se dissolveu em ondas silenciosas, eu permaneci imóvel, respirando devagar, sentindo a própria vulnerabilidade como se fosse algo novo.
Eu tinha cruzado uma linha invisível. Não física.
Emocional.
Eu não podia mais fingir que era apenas contrato.
Eu me sentei na cama, passando a mão pelo rosto, tentando recuperar compostura como se alguém pudesse ter visto. A cidade continuava viva lá fora, carros passando na Avenida Lúcio Costa, o mar constante, indiferente às minhas complicações internas.
Então eu ouvi uma batida leve na porta.
Meu coração quase saiu pela boca.
- Aurora - a voz dele veio baixa, do outro lado.
- Está acordada?
Eu engoli seco.
- Estou - respondi, tentando soar normal.
- Podemos conversar?
Eu olhei ao redor do quarto como se o espaço pudesse me dar conselho.
- Agora?
- Agora.
Eu respirei fundo, levantei e caminhei até a porta, abrindo apenas o suficiente para vê-lo. Ele estava de camiseta preta justa e calça de moletom cinza, cabelo ainda levemente úmido, expressão séria demais para aquele horário.
- Aconteceu alguma coisa? - perguntei.
Ele me observou por um segundo longo demais, como se estivesse lendo algo que eu tentava esconder.
- Eu recebi uma ligação - disse, finalmente. - Um dos fornecedores que aparece nos relatórios tentou sacar valores no exterior hoje à noite.
Meu corpo esfriou instantaneamente.
- Murilo?
- Ainda não posso afirmar - ele respondeu, mas a voz tinha uma tensão diferente.
Eu abri mais a porta.
- Entra.
Ele entrou, fechando atrás de si. O espaço ficou menor. Mais quente. Mais complicado.
- Isso significa que eles sabem que você descobriu - eu murmurei.
- Significa que alguém está com pressa.
Eu cruzei os braços, hábito automático quando estou tentando me proteger.
- E quando alguém com pressa está desviando milhões, a tendência é fazer besteira.
Ele assentiu. Silêncio.
A proximidade agora tinha outra camada. Não era só desejo. Era risco real.
Ele deu um passo na minha direção.
O olhar dele desceu para minha boca e voltou para meus olhos. A tensão ali não era imaginária. Era concreta. Eu podia sentir no jeito que a respiração dele mudou, no microajuste da postura.
Ele levantou a mão como se fosse tocar meu rosto. Parou no meio do caminho. Controle.
Sempre controle.
- Isso complica as coisas - ele murmurou.
- Você complica as coisas - retruquei.
Um quase sorriso surgiu.
Ele recuou meio passo.
- Amanhã vai ser pior.
- Eu sei.
Ele abriu a porta.
- Veste uma roupa, você está só de calcinha - declarou.
"Droga" pensei.
Antes de sair, virou o rosto na minha direção.
- Dorme um pouco - pediu, a voz mais suave do que o habitual.
Eu observei ele atravessar o corredor até o próprio quarto, costas largas sob a camiseta preta, postura ainda rígida.
Eu fechei a porta devagar.
Encostei nela de novo.
Respirei fundo.