A pessoa que a deixou ali saiu correndo muito depressa e fugiu no seu carro, deixando a menina na porta fria depois de tocar a campainha, quando se certificou de que ninguém estava por perto - algo complicado se parássemos para ver de quem era aquela casa. Levou dois dias para conseguir fazer essa manobra.
A menina tinha uma nota consigo e uns documentos que continham informações sobre ela, mas só sobre ela, não sobre a mãe. Coisas como sua idade, nome e seu estado de saúde, não muito mais.
Quando abriram a porta, a senhora do serviço olhou ao redor para ver onde estava a mãe ou o pai daquela criatura. Mas ali não havia ninguém.
Correu para o interior sem pegar a menina; não podia entrar com ela na casa sem que seu chefe soubesse, mas antes de chegar ao chefe, tinha que passar por Vincent, a mão direita, seu conselheiro.
- Há uma menina na porta! - exclamou a pobre mulher, angustiada por tê-la deixado naquele frio e abraçador inverno.
- Compre biscoitos para ela e mande-a embora - disse o tal Vincent, sem entender por que a mulher se alarmava tanto só pela presença de uma menina na porta.
Era só uma menina na porta, o que importava?
- Senhor... deixaram uma menina na porta - explicou melhor a senhora Aisha. - Não há ninguém ao lado dela e ela tem uma nota, também uns documentos. Está sozinha. Deixaram-na na porta! E tudo indica que... - Não se atrevia a dizer, mas era o que parecia.
- Quem diabos se atreveu a fazer tal coisa? - Com várias passadas, dirigiu-se à porta e Aisha o seguiu. - Droga! - exclamou ao vê-la. - É verdade que há uma menina na porta. - Vincent teve o impulso de recuar; não gostava de crianças, muito menos de uma menina de longos cachos loiros, aqueles olhos azuis com um aspecto muito parecido com o de seu chefe Vasily Ivanov, inclusive com seu olhar frio.
Como era possível que uma menina tivesse um olhar tão sério? Mas ao vê-la, Vincent compreendeu o que estava acontecendo, o mesmo que Aisha já havia compreendido.
Tinham deixado aquela menina ali porque era filha de seu chefe.
De qualquer modo, era uma tolice.
Teve o impulso de enfiar as mãos nos bolsos para pegar o tabaco, embora se lembrasse de que seu chefe não o deixava fumar em sua casa.
Aproximou-se bem devagar; aquela pequena sustentava o olhar sem nenhum medo, mas quando ele se aproximou, a menina deu um grito longo que ecoou por todos os lados. Ato que fez Vasily sair do seu escritório.
Vasily, ele era o chefe do lugar.
O Pakhan.
Por que uma menina estaria gritando em sua casa, arruinando sua paz? Isso era o que Vasily queria saber.
- E agora o que acontece? - perguntou, aproximando-se da porta, com seu típico tom de voz desanimado. Olhou à frente para a menina loira, para Vincent e Aisha. - Quem se atreve a trazer uma menina para a minha casa? - perguntou aos adultos, seus olhos em busca dos pais, mas ali só estavam eles e a menina. Não havia outro desconhecido.
Onde estavam os pais?
Quando Vasily voltou a olhar para a loira que estava sentada no chão frio, notou algo estranho nela, algo que lhe chamou a atenção repentinamente; aproximou-se muito rápido dela e a ergueu nos braços sem que a menina chorasse. Aquelas duas pessoas se olharam fixamente e, ao compreender, Vasily sorriu.
Era sua filha.
Assim de simples, percebendo apenas ao vê-la.
Por enquanto se alegrava, mas só por enquanto.
Seu trabalho não lhe permitia ter família, muito menos um ser tão indefeso como uma filha. Ele jamais pensaria em procriar e sempre se assegurava de que não ocorresse nenhum acidente com isso; era dos que nunca deixavam de lado a proteção.
Embora, ao que parece, falhou uma vez. Diante dele estava a prova.
Em seu coração, sentiu um pequeno anseio, quase como se seu peito se encolhesse ao ver aqueles olhos tão parecidos com os seus, esse olhar, esse rosto.
- Papai? - Perguntou a pequena. Tinham lhe dito uma e outra vez que a levariam ao seu pai; agora estava diante dele.
O homem sorriu sem querer, maravilhado com aquele tom de voz, mas quando ele falou de novo, a pequena começou a gritar tal qual havia feito antes. O mais estranho de tudo é que ela soltava palavras, mas em espanhol, não em russo, deixando Vasily ainda mais confuso.
Agora tinha que lembrar quando foi à Espanha ou quando esteve com uma espanhola. Sem proteção!
Pegaram as coisas dela e entraram na casa.
Tinha uma filha.
Vasily Ivanov tinha uma filha.
O Pakhan tinha uma filha.