Os olhos de Vincent se dirigiram a ela, notando a peculiar beleza daquela mulher; certamente era estrangeira e isso chamou muito sua atenção.
Seus lábios se curvaram em um sorriso amável quando ela deixou a cerveja na frente de Vincent, o mesmo sorriso que ofereceu a Vasily; este a olhou com olhos frios, enquanto Vincent a devorava com o olhar, consciente da beleza que tinha à sua frente e desejando devorá-la. Não era uma figura que passasse despercebida e ele a notou no instante.
- O que fazemos aqui? - perguntou Vincent, a ponto de se aproximar do balcão para puxar conversa com a garçonete e tentar levá-la para a cama naquela mesma noite ou naquele mesmo instante, e se tivesse muita pressa, levá-la ao banheiro e se saciar um pouco enquanto passava o tempo, aliviar a pressão que se formava em seu pênis enquanto pensava nela. - Está muito cheio. - Olhou para o traseiro de uma loira que passava, ao mesmo tempo ergueu a mão para a garçonete de antes para tê-la de volta; queria-a perto dele. Queria vê-la mais de perto para saber qual parte dela lhe agradava mais. Saber quais lugares percorreriam seus lábios quando tivesse seu pau duro dentro dela, fazendo-a gemer e suplicar por mais.
- Precisam de algo mais? - o sotaque da mulher chamou a atenção de Vasily; era um russo muito ruim, como se estivesse recém aprendendo, de jeito nenhum agradável, com uma pronúncia fatal.
- A você - murmurou Vincent, olhando para o seu traseiro. Definitivamente, esse era seu maior atrativo, junto com seu rosto inocente, quase angelical, aqueles lábios rosados e seus belos olhos castanhos, mas preferia admirar seu traseiro; isso era mais prazeroso, mais sujo. Não entendia o que uma garota assim fazia naquele bar de merda. E ainda por cima era muito jovem.
- Outras duas cervejas, por favor - pediu Vasily para que a garçonete pudesse ir embora e sair das garras de Vincent, que a espreitava com a baba no canto dos lábios. - Já quer fodê-la, não é?
- É que você não viu o traseiro dela? - murmurou com os dentes apertados, as ânsias devorando-o.
- Por que eu teria que olhar para o traseiro da garçonete?
- Porque é um bom traseiro! Porra. Às vezes acho que você não tem olhos para ver as mulheres; desde quando não leva uma para a cama?
Não havia passado tanto tempo; ainda não rompia seus limites. Tampouco lhe custava um grande esforço. Não era tão promíscuo como Vincent. Talvez fosse mais seletivo.
- Tenho assuntos mais importantes que meter uma puta na minha cama, Vincent. Não gosto de putas.
- Sabe quem é ela? Primeira vez que a vejo. Vou investigar.
Vincent se levantou e desapareceu.
Vasily tampouco a havia visto nunca ali, mas não era como se frequentassem o lugar. Estavam ali porque se tratava de negócios. E os negócios sempre vinham em primeiro lugar; não andava pela vida olhando traseiros, não era nisso que se fixava na hora de desejar uma mulher ou pensar em levá-la para a cama.
Um de seus homens trouxe um pequeno velho astuto que havia querido roubá-lo, acumulando uma grande dívida em seu cassino e sem querer pagá-la; avisou-lhe que não podia ter uma dívida que não poderia pagar, mas ele insistiu em que podia continuar. Cego pela ambição e sua forte crença de que poderia ganhar a próxima.
Até que a dívida subiu demais e depois ele desapareceu.
Já os homens de Vasily o haviam encontrado.
Sentaram-no à sua frente ao mesmo tempo que a garçonete regressava com as outras cervejas, mas ao ver aquele homem que recém chegava, ficou muito nervosa, derramando um jarro de cerveja sobre Vasily.
Vasily se levantou muito depressa, não acreditando no que havia acontecido; a garçonete tentou voltar ao balcão para buscar algo com que secar o homem, mas Vasily achou que ela tentava fugir.
Segurou-a tão forte pelo braço e puxou-a, que a mulher chocou com a mesa e levou tudo pela frente, caindo no chão.
Imediatamente se armou todo um alvoroço com os guarda-costas de Vasily e Vincent que se aproximou ao ver o que acontecia.
A mulher se viu rodeada em um piscar de olhos, sem ser consciente do que acontecia ou quem eram aquelas pessoas, aqueles homens.
Estava frente ao chefe da Bratva Ivanov, o Pakhan.
E o outro homem ao qual haviam levado frente a Vasily era seu padrasto, um ser miserável que anos atrás havia tentado abusar dela, o mesmo que maltratou de muitas formas sua mãe e até a ameaçou de fazer-lhe dano, para que sua mãe ficasse ao seu lado, até que eventualmente ela fugiu e meses depois sua mãe morreu de maneira muito misteriosa.
Nerea Pérez López, como se chamava a garçonete, não podia estar mais assustada que naquele momento, estando de novo frente a seu padrasto e frente a outro homem do qual desconhecia totalmente a identidade.
Seu padrasto, aquele russo de nome Daniel Lebrov, observou nela a oportunidade de sair vivo daquele assunto, depois de meses fugindo com desespero por não ter o dinheiro do Pakhan; tendo a maravilhosa casualidade de se encontrar com Nerea naquele lugar, depois de que lhe perdeu o rastro há um ano e meio após o funeral de sua mãe.
Estava frente a ele, assim como o Pakhan e seus homens, de quem não sairia vivo a menos que tivesse a quantiosa soma que lhes devia.
Vincent se aproximou de Nerea para ajudá-la a se levantar, observando o corte que tinha ao longo de seu braço direito, já que havia caído sobre um dos cristais dos copos quebrados, machucando-se; tentava deter o sangramento com a mão, mas o corte havia sido profundo.
Daniel tentou se aproximar do Pakhan para falar, mas seus homens não o deixaram se aproximar nem um centímetro, pressionando seu corpo contra o chão e um deles deixando um pé sobre sua cabeça.
Vasily o olhou com desprezo, lançando seu olhar frio sobre o homem que haviam estado procurando nos últimos três meses.
- Aqui te tenho, Daniel. - Cuspiu em sua cara; não entendia como pôde se ocultar durante tanto tempo e isso tinha Vasily de mau humor. Por que um simples ancião havia logrado se ocultar durante todo esse tempo? - Suponho que a quantidade que me deve não cabe no seu bolso, não é? - De imediato seus homens o revistaram, não encontrando nada de dinheiro, menos a quantidade que lhe devia. - Vamos lá fora, temos algo do que falar.
Enquanto Vasily saía, olhou para trás, observando como Vincent tirava sua camiseta para cobrir a ferida de Nerea e deter o sangramento em seu braço.
Depois pensava em se encarregar dela por ter jogado a cerveja sobre ele. Mas talvez para quando chegasse esse momento já Vincent a teria fodido no banheiro.
Lá fora, os homens soltaram Daniel e ele caiu aos pés de Vasily; o homem chutou sua cara, lançando-o contra o pavimento; segurou o pescoço de sua camisa e o ergueu sem esforço, deixando uma série de socos em seu rosto.
Queria descarregar um pouco a frustração que trazia depois de duas semanas em busca da mãe de sua filha, depois de ter contratado doze babás e a lista seguia, sem que a pequena Roxana se acostumasse a nenhuma delas, pois o espanhol dos demais era muito ruim e a menina havia decidido não falar. E não sabia nada de russo, enquanto que o espanhol de Vasily era tão ruim como o do resto. Sentia-se frustrado com tudo isso de ter uma filha e nem sequer poder entender o que dizia.
Encontrava-se em um beco sem saída com a situação de sua filha.
A alegria de ser pai se evaporou tão logo viu que era impossível se comunicar com sua filha. E de sua mãe não tinha a menor informação.
- Te pagarei! - rogou, aferrando-se aos pés de Vasily.
- Esse prazo já expirou, Daniel. - Realmente havia se investido tempo e homens para encontrá-lo e dar-lhe outra chance de pagar. Daniel tinha seus minutos de vida contados. - Não há maneira de que tire dos seus bolsos o dinheiro que me deve. E sabe bem que gosto de jogos, mas você joga fatal. - Tirou um lenço do bolso e limpou de seus nós dos dedos o sangue que ficou de Daniel. Maxim, seu guarda-costas mais antigo, sacou sua arma e apontou direto para Daniel.
- Tenho como pagar! Tenho algo que vale muito e - a arma se grudou em sua nuca; o homem sentiu esse nó em sua garganta, assim como a morte estando muito perto dele, quase levando-o para o outro mundo. - Minha filha! Minha filha! - gritou alto demais. - Tenho uma filha!
- Devia ter pensado nela antes de se meter nesses problemas. Com certeza se lhe faz um favor ao desaparecer alguém como você. Lixo humano. Sua vida pode ser melhor sem você. - Não lhe interessava nem um pouco que aquele homem tivesse uma filha. Interessava-lhe que pagasse pelo que havia feito.
Com a Bratva não se brincava. E se esse homem não pagasse com sangue o que não podia pagar com dinheiro, então Vasily poderia ficar em ridículo perante os demais.
Vasily se virou; só restava atirar nele.
Começava a nevar e ele havia deixado a jaqueta dentro do bar; queria entrar.
- Te a vendo! Te a vendo! Te vendo minha filha! - gritou como último recurso. Vasily se virou irritado, não podendo entender como a Daniel passava pela cabeça que ele aceitaria uma menina como parte de um pagamento.
- Você está louco? Quem você acha que eu sou? Me vê cara de degenerado? - mais que irritado, sacou sua própria arma e apontou direto para a cabeça.
- Nerea Pérez, Nerea Pérez López! Já completou os vinte. Está dentro fazendo de garçonete. Ela é minha filha, minha enteada. Pegue-a, até que quite minha dívida. Use-a, faça o que achar propício com ela. É jovem, inteligente e já viu o quão bonita é. Estava dentro, você a viu. Poderia... servi-lo.
- Nerea Pérez? - lembrou o quão atraente Vincent disse que era a jovem, a mesma que jogou a cerveja sobre ele; recém entendia que talvez se devesse sua atitude ao fato de que ela se encontrou com seu padrasto. Aquele homem à beira da morte era o padrasto da garçonete que estava dentro com Vincent. - Vou confirmar se é verdade o que diz. - Fez um sinal a Maxim; o homem o recolheu do chão e segurou seus braços para que não tentasse nada.
Indo para dentro, viu Vincent com kit de primeiros socorros e tudo curando a ferida de Nerea. Era todo um Don Juan, isso não se podia negar. Fazia tudo o que fosse necessário para ter sua presa.
Aproximou-se deles, observando o cenário.
Quando Nerea o viu, se tensionou, sabendo agora que aquele homem era o próprio Vasily Ivanov, a quem jogou sem querer a cerveja em cima.
Ela havia se atrevido a molhar a roupa do Pakhan.
- Sinto muito, não foi minha intenção molhar sua roupa, senhor Ivanov. Senhor Pakhan - desculpou-se nada mais vê-lo, inclinando a cabeça. Não tinha ideia de como devia se dirigir a ele de forma correta e sem que parecesse uma ofensa. Sentia-se ridícula com tantas formalidades para um homem que ela nem conhecia, mas a quem repentinamente temia.
- Você é Nerea Pérez López?
Ela abriu muito os olhos, surpresa de que ele soubesse seu nome, quando ela era a primeira vez que o via. A conhecia de algum lugar? Nerea estava muito segura de que essa era a primeira vez que o via.
- Sim, sou - confirmou.
- Daniel é seu padrasto? Daniel Lebrov.
- É. Viveu um tempo com minha mãe antes de que ela falecesse.
- Quantos anos tem?
- Completei os vinte há uns dias.
Há só uns dias.
- Por acaso, você é espanhola? - aquilo não sabia, mas o havia deduzido conforme passou aquelas palavras com ela.
- Sou, senhor Pakhan.
Era perfeita para cuidar de Roxana; talvez a indicada, jovem, falaria bem seu idioma e poderiam se dar bem. Mas o melhor de tudo, Daniel a acabava de dar como parte da dívida que ele tinha.
O sorriso que Vasily mostrou gelou Nerea; sabia que algo não andava bem e que todas aquelas perguntas que ele lhe fez deviam ter um motivo; não sabia qual, mas estava assustada.
Na cara daquele homem se desenhou uma covinha do lado direito em sua bochecha por sua maneira torta de sorrir. Mas era um sorriso frio, sem transmitir nada, nada de calor; tudo naquele homem era muito gelado.
- Leve-a para o carro - ordenou com força a Vincent. - Irá conosco para casa. - Deu um passo sigiloso para ela, pegou uma mecha de seu cabelo e capturou a lágrima que sulcava sua bochecha. Olhou os olhos vidrados da jovem, notando medo neles. - Seu padrasto acaba de usá-la como moeda de pagamento, Nerea. Agora é minha, pertence a Vasily Ivanov.
A jovem quase desabou ao ser consciente do que isso significava. Ou o que ela acreditava que significava.
Pertencer a um chefe da máfia? Servir de pagamento?
Incluso resistir naquele momento não serviria de nada.
Vasily saiu do bar e se uniu com seus homens; fez um sinal a Maxim para que soltassem Daniel.
- Já estamos quites? - perguntou Daniel, temeroso da resposta. - Me dará mais tempo para pagar o que te devo enquanto fica com Nerea?
- Sua dívida está quitada. Não volte atrás de Nerea.
Agora era sua e ele não costumava se desfazer do que lhe pertencia. Daniel não teria que pagar o que devia.
Nerea já era o pagamento.
Passou ambas as mãos pelo rosto e mordeu o lábio inferior.
«Como diabos aceitei uma pessoa como pagamento por uma dívida? Em que eu estava me metendo?» Pensou, caminhando de volta ao bar para levar a mulher.
Uma mulher em sua casa... Era tão estranho como ter uma filha.
Duas pessoas metendo o nariz em todos os lados.
Sabia que isso o encurralaria, mas já não havia marcha atrás; precisava de uma babá.