Ele passou a mão pelo tecido de um suéter de caxemira. Dona Glória lhe dera no último Natal. Ele percebeu, com um sobressalto, que quase todas as peças de roupa decentes que possuía haviam sido um presente de Dona Glória, ou de seus amigos do orfanato, Fábio e Joana.
Em cinco anos, Júlia nunca lhe comprara nem mesmo um par de meias.
Um sorriso triste tocou seus lábios. Ele não tinha muito o que empacotar.
No dia seguinte, um caminhão de mudanças parou na frente da mansão. Arthur orientou os carregadores enquanto eles cuidadosamente colocavam as caixas. Mas não eram suas roupas. Eram os presentes. Todos os presentes extravagantes e atenciosos que ele comprara para Júlia ao longo dos anos. Os livros de arte de edição limitada, os discos de vinil raros, as joias personalizadas.
Ele se lembrava da excitação frenética e esperançosa de comprar cada um deles, imaginando o sorriso dela. Um sorriso que nunca veio. Ele os encontrara todos relegados a um depósito no porão, intocados, alguns ainda em suas embalagens originais, cobertos por uma fina camada de poeira e negligência.
Ele havia vendido cada um deles. O dinheiro agora era um número satisfatoriamente grande em sua conta bancária. Seu pacote de rescisão.
Quando o caminhão se afastou, levando os últimos fantasmas de seu amor unilateral, ele sentiu um peso sair de seus ombros. Ele se virou para entrar quando uma buzina soou atrás dele.
Um carro esportivo vermelho-cereja parou bruscamente na calçada. A porta do motorista se abriu e uma mulher com cabelo rosa-choque e um sorriso de escárnio saiu. Karina Justo, a irmã mais nova de Júlia.
"Ora, ora", Karina arrastou as palavras, olhando do caminhão que partia para Arthur. "Vendendo as joias da família, é? Ficando desesperado agora que sua patrocinadora está prestes a te chutar para a rua?"
Arthur a ignorou e começou a andar em direção à casa. Ele não tinha energia para o veneno de Karina hoje.
"Ei! Estou falando com você!", ela gritou, sua voz estridente. Ela correu atrás dele, agarrando seu braço.
Arthur parou. Ele olhou para a mão dela em sua manga, depois encontrou seu olhar furioso com uma expressão de puro e absoluto tédio. Por cinco anos, ele suportara suas provocações, seus insultos, suas constantes tentativas de miná-lo. Ele sempre respondera com paciência silenciosa, com um sorriso educado, porque isso fazia parte do contrato. Ser um bom marido, um bom genro.
Mas o contrato havia acabado.
"Me solta, Karina", disse ele, a voz fria e sem expressão.
Karina ficou surpresa. Ela estava acostumada com a mansidão dele. A mudança repentina em seu comportamento a irritou ainda mais. "Quem você pensa que é? Você é só um sanguessuga que minha irmã pegou!"
Arthur puxou o braço, um brilho de irritação em seus olhos. Ele estava tão perto da liberdade. Ele não precisava disso.
A expressão de Karina de repente mudou para um sorriso presunçoso e malicioso. "Ah, entendi. Você está chateado. Deve ter ouvido, não é? Caio está de volta. O único e verdadeiro amor da minha irmã. Seu tempo acabou, pobretão. Você está prestes a ser substituído."
Como se fosse uma deixa, a porta do passageiro do carro esportivo se abriu. Um homem saiu, vestido com um terno de linho impecável que parecia imune a rugas. Ele era bonito, com o charme fácil e confiante de alguém que nunca conheceu um dia de dificuldade.
Era a primeira vez que Arthur via Caio Oliveira pessoalmente. Ele era exatamente como nas fotos. Arthur notou com um senso de ironia distante que cinco anos de um casamento fracassado não haviam deixado uma única marca nele. Ele podia ver o apelo.
"Karina, quem é este?", Caio perguntou, seus olhos passando por Arthur com um desdém casual.
Karina se agarrou ao braço de Caio, sua voz tornando-se melosa. "Caio, querido, não se preocupe com ele. Ele é só... o empregado." Ela então se virou para Arthur, a voz afiada novamente. "O que você está fazendo aí parado? As malas do Caio estão no porta-malas. Vá pegá-las."
Arthur nem sequer olhou para ela. Ele se virou e entrou na casa, deixando-a furiosa na entrada da garagem.
"Argh! Aquele perdedor!", ela bateu o pé. O motorista finalmente saiu e cuidou da bagagem.
Alguns minutos depois, o carro de Júlia entrou na garagem. Ela saiu correndo, seus olhos examinando a cena ansiosamente. Quando seu olhar pousou em Caio, uma onda visível de alívio a invadiu. Ela ignorou completamente Arthur, que estava parado no hall de entrada.
"Arthur", disse ela, sua voz um comando, não um pedido. "Caio vai ficar conosco por um tempo. Prepare o quarto de hóspedes."
Arthur permaneceu em silêncio.
Caio, sempre o ator, fez um show de relutância. "Júlia, não quero incomodar. Pode ser... estranho." Ele olhou significativamente para Arthur.
"Não seja bobo, Caio", disse Júlia imediatamente, correndo para o lado dele. "Não é problema nenhum. Arthur não vai se importar. Certo, Arthur?"
Finalmente, os três estavam olhando para ele, esperando que ele fosse o marido complacente e invisível que sempre fora.
Arthur quebrou o silêncio, um sorriso lento e fácil se espalhando por seu rosto. Era um sorriso que eles nunca tinham visto antes - frio, distante e totalmente desprovido de calor.
"Claro que não me importo", disse ele, a voz suave como seda. "Bem-vindo, Caio. Sinta-se em casa."
Porque em breve, ele pensou, será toda sua.