Arthur permaneceu imóvel. Por cinco anos, a cozinha fora seu domínio. Ele havia memorizado os gostos volúveis de Júlia, seus desejos repentinos, sua lista interminável de aversões. Sua culinária era a única coisa da qual ela nunca reclamava, uma trégua silenciosa na guerra fria de seu casamento. Ele se lembrava de Karina, uma convidada frequente e indesejada, sempre encontrando defeitos. A sopa estava muito salgada, o bife passado demais, o molho da salada muito ácido.
Agora, ela estava ordenando que ele cozinhasse para o homem que era a própria razão de sua presença nesta casa.
Uma linha silenciosa e final havia sido cruzada.
Arthur balançou a cabeça lentamente. "Não."
A única palavra pairou no ar, afiada e chocante. As empregadas congelaram. O queixo de Karina caiu. Até Júlia, que estava mimando Caio, virou-se para encará-lo, os olhos arregalados de incredulidade.
Em cinco anos, ele nunca havia dito não. Nenhuma vez. Ele fora o epítome da concordância, o marido perfeito e maleável.
Ela franziu a testa, um lampejo de confusão cruzando seu rosto. "Arthur, o que você disse?"
Justo quando ela estava prestes a pressioná-lo, Caio deu um passo à frente, com um olhar magoado em seu rosto bonito. "A culpa é minha, Júlia. Eu sabia que não deveria ter vindo. Estou dificultando as coisas para o seu marido."
Ele fez menção de se virar para as escadas. "Vou apenas pegar minhas malas e encontrar um hotel."
"Não, Caio, espere!", gritou Júlia, agarrando instantaneamente o braço dele, seu foco inteiramente nele. "Não tem nada a ver com você! Não seja ridículo."
Ela virou a cabeça de volta para Arthur, sua voz agora dura e acusadora. "Arthur, qual é o seu problema?"
Arthur calmamente ergueu a mão direita. Uma bandagem branca e limpa estava enrolada em sua palma e pulso.
"Eu queimei a mão. Não posso cozinhar", disse ele, a voz sem emoção.
Era mentira, claro. A bandagem cobria pele intacta. Ele mesmo a enrolara naquela manhã, um adereço para uma cena que sabia ser inevitável. Ele estava farto de ser o chef deles, o servo deles, a solução deles.
O ar no grande salão ficou denso de tensão. O problema era que ninguém mais na mansão sabia cozinhar. As empregadas eram contratadas para limpeza, não para artes culinárias.
Karina fez uma careta. "Por que você não disse antes? Agora vamos todos morrer de fome por sua causa!"
Caio, sempre o herói, interveio. "Tudo bem. Por que não vamos todos comer fora? Júlia, lembra daquele pequeno restaurante italiano que costumávamos ir no colégio? Será que ainda existe?"
O rosto de Júlia se suavizou instantaneamente, um sorriso nostálgico tocando seus lábios. "Oh, Caio. Eu lembro. Claro. Vamos."
E assim, Arthur se viu no banco de trás da Mercedes-Benz blindada de Júlia, um observador silencioso enquanto Júlia e Caio relembravam seus dias dourados do colégio, com Karina adicionando comentários entusiasmados.
"Sinto muito que você não estivesse lá para compartilhar essas memórias conosco, Arthur", disse Caio, virando-se para ele com um olhar de falsa pena. "Deve ser difícil nos ouvir falando sem parar."
Eu também não vou compartilhar do seu futuro, pensou Arthur, uma sensação de satisfação sombria se instalando sobre ele.
"Tudo bem", ele murmurou, e fechou os olhos, fingindo dormir.
Júlia olhou para ele no espelho retrovisor. Ele parecia diferente, ela pensou. Mais quieto, mas de uma forma mais nítida, mais distante. A suavidade maleável que ela tomara como certa parecia ter endurecido em algo que ela não conseguia nomear. Ela descartou o pensamento enquanto ele encostava a cabeça na janela. Ele provavelmente estava apenas cansado.
No restaurante, Arthur pediu licença para ir ao banheiro. Ele jogou água fria no rosto e olhou para seu reflexo. Círculos escuros pairavam sob seus olhos. Ele parecia exausto, um contraste gritante com o brilho sem esforço e bem descansado de Caio. Cinco anos atendendo a todos os caprichos de outra pessoa haviam cobrado seu preço.
Ele respirou fundo. Só mais um pouco, disse a si mesmo. A liberdade está quase aqui.
Quando ele voltou para a mesa, eles já haviam pedido, uma variedade de pratos claramente escolhidos para o paladar "delicado" de Caio.
"O chef recomenda o arrabbiata picante", Júlia disse ao garçom, "mas Caio não pode comer nada apimentado. Nem alho. Nem muito óleo."
Arthur ouviu enquanto ela listava as preferências de Caio, uma lista que ela sabia de cor. Uma ironia amarga torceu suas entranhas. Depois de cinco anos de casamento, ela ainda não tinha ideia de que ele era alérgico a frutos do mar.
"O senhor tem alguma restrição alimentar?", o garçom perguntou, virando-se para Arthur. Foi a primeira vez que Júlia ouviu alguém fazer essa pergunta a ele em sua presença.
"Não, eu como de tudo", disse Arthur em voz baixa, desdobrando o guardanapo.
A refeição foi uma performance. Júlia se agarrava a cada palavra de Caio, ria de suas piadas, colocava os melhores pedaços de lula em seu prato, seus olhos brilhando com uma adoração que ela nunca mostrara a Arthur.
De repente, uma comoção explodiu na mesa ao lado. Uma discussão se transformou em gritos. Um homem se levantou, pegando uma tigela de sopa fumegante.
"Você quer? Então toma!", ele gritou, arremessando a tigela em sua companhia de jantar.
A mulher gritou e se abaixou. A tigela voou pelo ar, sua trajetória errada, indo diretamente para a mesa deles.
Gritos encheram o ar. Naquela fração de segundo de caos, Arthur viu Júlia se mover. Sua reação foi puro instinto. Ela se lançou, não em direção a ele, seu marido, mas em direção a Caio, jogando seu corpo na frente dele como um escudo humano.
Arthur não teve tempo de reagir. O mundo se tornou um respingo de calor escaldante e dor ofuscante quando o líquido fervente atingiu seu braço e peito.